O Evangelho segundo o Espiritismo, esclarecimentos de Milton Medran Moreira

Milton Medran Moreira

diretor do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre / Brasil

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO – 150 ANOS em 2014

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    O Livro Número Um dos Espíritas
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Cronologicamente, não foi o primeiro livro de Allan Kardec,  nem é sua mais importante obra, mas “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, que completou 150 anos em 2014 é, para a maioria dos espíritas o principal e, às vezes, o único livro conhecido e referenciado nos Centros Espíritas.


     A obra e seu contexto histórico

Desde que o espiritismo, contra a expressa vontade de seu fundador, Allan Kardec, se tornou uma religião, O Evangelho Segundo o Espiritismo tem sido visto quase como uma nova bíblia. Muito mais lido do que O Livro dos Espíritos, principal obra de Kardec, o ESE é proclamado como a base da “religião espírita”.        

Por outro lado, lembra o escritor espírita Eugénio Lara (São Vicente, SP), há pensadores espíritas de mentalidade não-religiosa que contestam a obra, achando que nem deveria ter sido escrita.
Para Eugénio, nenhuma dessas posições é a melhor: “O livro deve ser visto em seu contexto histórico e no conjunto da obra kardequiana. Nem bíblia, nem concessão, mas uma visão de Kardec dos ensinamentos evangélicos, a visão que ele tinha do cristianismo”.
Eugenio Lara sustenta que “o contexto histórico exigiu de Kardec uma resposta à demanda do movimento espírita nascente”, e que “numa França católica, a posição espírita em relação ao cristianismo era uma necessidade, o que não faz do espiritismo uma nova religião ou teologia cristã”.

Também para o Delegado da CEPA no Rio de Janeiro, Rinaldo Paulino de Souza, o contexto histórico não só da França, mas de todo o mundo ocidental foi relevante, pois o ceticismo trazido pelo Iluminismo levava o Ocidente a perder a crença no mundo extramaterial e em Deus.
Além disso, “era importante destacar as evidências da reencarnação nos livros sagrados cristãos, reforçando tal conexão com as explicações morais”, sustenta Souza.

Dentre os pensadores espíritas que entendem que O Evangelho Segundo o Espiritismo nem precisaria ter sido escrito está o pesquisador Mauro Quintella (Brasília/DF):
“No lugar do OESE, eu teria feito um livro com uma coletânea das melhores proposições éticas da história da Humanidade, onde, evidentemente, poderia entrar o que é aproveitável nos Evangelhos”,
disse Quintella, acrescentando que o nome desse livro teria sido “A Ética do Espiritismo”.


    Consolador Prometido? Terceira Revelação Divina?

Licenciado em Filosofia, e também Delegado da CEPA, Ricardo de Moraes Nunes (Santos/SP), concorda que as circunstâncias históricas justificavam a publicação da obra, mas lhe parece que Kardec e os espíritos foram tomados de um exagerado entusiasmo ao classificarem o espiritismo como “o consolador prometido por Jesus”.
Para ele, trata-se de tese “bastante ideológica, fugindo do campo das ideias práticas tão apreciadas por Kardec”.

         Já o pesquisador Augusto Araujo (Campina Grande/PB) Doutor em Ciência da Religião, vê o ESE justamente como o livro que “inaugura o período religioso do espiritismo, previsto por Kardec em 1863”.
Araujo identifica ali “uma curva em direção aos temas cristãos”, o que se deve a uma razão externa:
“a perseguição do espiritismo principalmente pela Igreja Católica”; e outra interna: “Kardec defende que o espiritismo seja o sucessor histórico e profético do cristianismo”.

A pensadora espírita Glória Vetter (Petrópolis/RJ) sustenta que Allan Kardec não quis um espiritismo “igrejista”, mas “cristocêntrico”.
Ela não vê problema que Kardec tenha proposto que os espíritas se apoiem nos ensinamentos de Jesus ou de outros mestres: “São contributos éticos que fortalecem os espíritos, mormente daqueles carentes de força e direção”, diz.

Matéria de capa do jornal CCEPA OPINIÃO de abril de 2014

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EQM de Maria de Júlia Diniz, transcrição parcial

 

Experiência de Quase Morte, durante gravidez de Maria de Júlia Diniz, nos anos sessenta do século passado.

é FAVOR VER NOTÍCIA ANTERIOR
e escutar o depoimento na totalidade

INCLUI TRANSCRIÇÃO LITERAL DE PARTES FUNDAMENTAIS DO DEPOIMENTO.

Maria Júlia Diniz é portuguesa, e teve uma vida muito movimentada. Foi agente de vendas da TAP, dedicou-se muito à arte e fez trabalho voluntário a vida inteira. Casou aos 17 anos, engravidou aos 18 e teve uma Experiência de Quase-Morte, ou EQM. Muitos anos depois, é aposentada e, pela primeira vez na vida, fala sobre esta experiência. Vamos conhecer a história que teve a generosidade de nos contar?

Este registo de parte do seu depoimento é um documento fundamental para comprovar, de forma vivida, a continuidade e qualidade evolutiva de todos os seres humanos para além da morte, sendo a vida terrena apenas um intervalo de experimentação e aprendizagem, sujeito a certas dificuldades que dependem essencialmente da atitude de cada um de nós.

De salientar a perspicácia inteligente das perguntas do Dr.CARLOS MENDES, que nos colocam perante o essencial e fundamental do depoimento feito, quanto ao contexto de realidade concreta vivida por Maria Júlia Diniz.

O momento em que começa esta transcrição situa-se NO 27º MINUTO DA GRAVAÇÃO

Pergunta Dr. Carlos Mendes:
Como entende a relação entre a dimensão em que vivemos aqui, e a dimensão que viveu durante a sua experiência? Diz que sentiu que já lá tinha estado antes, como se tivesse voltado a casa.

Resposta Maria Júlia Diniz:
É um local imenso… de Paz.

P.: Voltando para cá, de que forma essa vivência, essa experiência a mudou em relação a valores, em relação à vida?

R.: Logo a seguir a este EQM fui para África, onde tinha a vontade de ser uma pessoa que cuidava… queria cuidar de todas as pessoas. Apiedava-me muito, pelas crianças, por tudo. Era uma grande empatia que sentia…
Tinha pessoas a trabalhar na minha casa, que mandavam para me ajudar, crianças com 8 ou 9 anos para serem meus criados.
Eu não queria ter uma criança de 8 anos como meu criado. Se isso acontecia… ia comprar uma boneca (risos…) e o que fazia era ensiná-la a fazer um bordado. Todos os garotos que passavam pela minha casa, muito novinhos, que eu não achava que tinham idade para trabalhar… alfabetizei-os!… Eu realmente fiz-me uma mulher virada para os outros.

(Nota histórica/informativa: Durante esses tempos do colonialismo português em África, certos funcionários, como militares e outros, dispunham de apoios especiais, que incluíam o fornecimento de serviçais domésticos…)

P.: Disse portanto que tinha tido uma mudança de visão sobre a vida, que ficou mais altruísta por causa dessa experiência que viveu?

R.: Acho que sim, porque na minha família não há ninguém que tenha a minha atitude. Estranharam muito e até chegaram a dizer-me: “Tu tens que levar dinheiro pelas coisas; não se vive do ar…”
Mas eu tenho uma perspectiva muito diferente. A felicidade para mim está… no olhar da pessoa. Isto talvez seja estranho… Estou a dizer o que é real… Gosto das coisas boas, gosto de ver coisas e fazer visitas… mas não é nisso que está o que é importante na vida.
(…)
P.: Durante o tempo em que a Senhora teve essa EQM, já disse que queria permanecer nela. Mas agora tem declarado que o que quer é viver aqui…?

R.: Agora quero muito viver, porque tenho uma missão. Sempre tive uma missão toda a vida.
Anulei-me pelo meu filho durante 25 anos. Percorri todos os hospitais de Lisboa e do Porto e de todo o lado, para conseguir médicos. E consegui!… Até mentindo, mas consegui!..
(…)
Eu quero viver porque sou uma pessoa. As pessoas precisam de mim!…
Tenho um grande amigo, que foi muito meu amigo quando estava doente.
É muitíssimo doente da cabeça, um rapaz com problemas psiquiátricos graves. Não o largo… porque ele faz parte da minha vida. É minha responsabilidade!…
34:00
P.: Trabalhou num manicómio, esteve em contacto com pessoas que tinham alucinações?

R.: Sim!…

P.: Em algum momento pensou que o que viveu poderia ter sido uma alucinação?

R.: Não! Nem por um minuto. A minha visão modificou-se. Durante a minha vida tenho tido uma miopia acentuada, sem óculos vejo apenas sombras. Durante a minha experiência via perfeitamente sem óculos. Via com nitidez. Via exactamente a realidade, sem precisar de óculos. E via o meu corpo, estando fora dele, passando por coisas difíceis, sem que eu sentisse dores.

P.: Acha que ainda tem alguma ligação com a vida na dimensão em que viveu a sua EQM?

R.: Sim, sinto!… Não tenho nenhum medo de morrer. Tenho medo do sofrimento antes da morte; mas isso é uma coisa que se passa com o corpo.
O nosso corpo é muito pesado!… Muito traidor!… Nós não sabemos porquê, mas tudo pode incomodar-nos. A fome, o frio… Mas quando morrer, imediatamente me sentirei segura!…
Porque aquilo é um lugar de plenitude. Um lugar quente e luminoso e que tem o dom de trazer tranquilidade e protecção. Portanto a pessoa, tem tudo!…

P.: Como é que entende hoje, qual é o estudo, o trabalho, que estão fazendo as pessoas que vivem aqui no mundo material ?

R.: Entendo que estão a tentar compreender se a alma ou a consciência são imortais (se a sua vida continua…). Porque a alma não ocupa provavelmente um espaço, um tempo, e foge para um lugar provavelmente conhecido da alma e conhecido de todas as outras pessoas que lá estão. Estando lá, em espera, estão seguras.
Não sou de praticar religiões. Não sou católica. Sou cristã. Não vou a igrejas. Há coisas nas igrejas de que não gosto.
Mas sei que há uma Luz. Eu estive dentro da Luz.  Dentro da luz não era deficiente da vista. Portanto dentro da luz era perfeita. Isto é a maneira como eu interpreto muito profundamente a situação. Se eu dentro da Luz estava feliz, é porque nada me doía. E se via é porque não era míope. Ali não há defeitos.
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P.: Acha que a nossa passagem por aqui tem algum objetivo específico?

R.: Completamente. É um objetivo de crescimento.
Como já disse a minha vida teve grandes desafios e fiz grandes disparates na vida. Todos nós fazemos. Isso faz parte do percurso. Mas paralelamente acho que respondi muito bem a muitas coisas, a muitos desafios. Portanto se a minha vida foi complicada era porque o percurso tinha que ser complicado.
Portanto o meu objectivo é cumprir para com a pedras que aparecem no caminho.

P.: Sentiu a existência de uma hierarquia?

R.:Sim, o que estava à minha volta era poderoso; e eu era uma migalhinha aconchegada no algodão.

P.: Compara essa hierarquia como sendo o acolhimento de alguma coisa acima de si em termos de conhecimento?

R.: Muito acima, não tem comparação nenhuma. Como se fosse um gigante de algodão que pega numa pequenina coisa de nada, um grão de arroz, que fica feliz com aquele acolhimento. Aquilo… é colo!…

P.: A partir da experiência sentiu alguma mudança nos seus sentidos, premonições ou conhecer os sentimentos de outros?

R.: (…) Se me cruzo com alguém na rua, sinto apenas que aquela pessoa que ali vai precisa de uma palavra. Depois descubro que a pessoa precisa mesmo. Portanto a minha intuição só tem a ver com… necessidades positivas.  (41.41)

P.: No final do seu depoimento gostaria de deixar algum recado para as pessoas, levando em conta toda essa aprendizagem que teve?

R.: Queria deixar aqui muito claro que estive fora do corpo, num local de luz, que me acolheu com muito amor. Apesar dos erros que já naquela altura teria feito.
Ali há muito perdão. Uma compreensão. É um sítio extraordinário.
Acho que todas as pessoas deviam ser menos consumistas, menos preocupadas e menos invejosas por pequenas coisas.
E deviam ter um olhar maior, ter uma visão ampla no seu dia a dia, terem um projecto humano, realmente humano.
Praticar o BEM, até mesmo com um animal. Sem estar ligadas a igrejas ou a movimentos.
Todos os dias podemos encontrar alguém que precisa de nós, ou da nossa compreensão, ou do nosso carinho, ou do nosso conhecimento.
Isso ficou tão presente realmente e foi tão habitual na minha vida, que eu não sei se vem dali esse meu conhecimento.

Nessa experiência, nessa EQM eu conheci a Luz.

EU CONHECI A LUZ

Um dos depoimentos de NDE/EQM mais inteligentes e lúcidos que já ouvimos desde sempre

O site brasileiro “Afinal quem somos nós”, actualmente dirigido pelo Dr. Manuel de Sousa, tem feito um trabalho muito importante na divulgação de depoimentos de “Experiências de Quase Morte”, fenómeno que seguimos há um bom número de anos e que temos publicado no nosso título de Menu dedicado a este tema:

https://palavraluz.com/category/nde-eqm/

Os depoimentos a respeito de EQM/NDE são todos diferentes, uns mais simples e desprovidos de “enredo”, outros muito elaborados, cheios de detalhes importantes e variados. Por esse processo confirmam a existência ABSOLUTAMENTE FACTUAL da vida depois da morte, numa sequência de detalhes igual aos que nos descreve o conhecimento espírita, da passagem deste mundo de aprendizagem e colheita de experiências, para a vida espiritual:

Para este depoimento de uma Senhora portuguesa, a Maria Júlia Dinisz, queremos chamar a atenção de todos, visto que se trata de um dos mais importantes do incontável número de casos de que já tivemos conhecimento desde sempre. E porquê?

Porque sendo uma viagem a outro plano da existência sem a multiplicidade de visões das EQM mais extensas, com variedade de encontros e cenários, teve efeitos construtivos magníficos na sua protagonista, os quais compreendeu e foi desenvolvendo ao longo da sua vida. A consciência dos seus atos de caridade lúcida, de amor solidário e construtivo foram passos dados em busca do SER SUPERIOR que mora em nós e que necessitamos de conquistar aos longo das nossas vidas como DESTINO PRINCIPAL da alma. A transformação do carácter moral dos protagonistas de EQM Conforme se encontra detalhadamente esclarecido nos documentos que temos publicado a este respeito, a característica em subtítulo é das consequências mais importantes deste género de fenómenos. No caso de Maria Júlia Diniz, tendo registado a sua EQM há muitos anos, os efeitos de transformação de carácter moral conduziram  as suas opções de vida marcadas pela generosidade  e solidariedade, com apoio da sua rica personalidade espiritual, intelectual e artística. A única forma que temos de confirmar esta ideia é sugerir que ouçam o seu depoimento, palavra por palavra, observando a sua entrega em benefício dos seus semelhantes necessitados de apoio humano e caridade fraterna.

CEPA – Associação Espírita Internacional

Há muitos anos que seguimos o trabalho desenvolvido pela CEPA Brasil, agora categorizada pela sua importante actividade internacional.
A seguir, uma referência breve às suas características culturais, doutrinárias e intelectuais, seguidas de um importante depoimento sobre a atitude de espiritualidade laica, que é marca distintiva da personalidade que cultivam.
Esta última parte é da autoria de Jon Aizpúrua, Ex-presidente da CEPA (1993/2000) e actual Assessor de Relações Internacionais, para a qual chamamos a melhor atenção de todos os nossos visitantes.

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Nosso empenho maior concentra-se em exteriorizar em toda sua plenitude os postulados que compõem a Doutrina Espírita.
Em sua defesa e preservação nos colocamos acima das cortesias, diplomacias, relações pessoais ou institucionais.

Em consonância com essa linha mestra lutamos por uma Doutrina:

Kardecista,
porque assume os ensinamentos e reflexões apreendidos da obra de Allan Kardec, que representam a essência e a base do edifício doutrinário. Orientado pela bússola da codificação kardecista, o Espiritismo manterá sempre o rumo correto e seguirá por caminhos seguros.

Progressista,
porque o pensamento espírita é um instrumento para o melhoramento individual e social aliado a valores como: liberdade, justiça e igualdade. Porque proporciona uma postura dinâmica, aberta, autocrítica e capaz de ampliar os conceitos como resultado do processo de mudança do mundo.

Livre-pensadora,
porque convida seus integrantes e as pessoas em geral a gozar, em sua plenitude, do direito ao livre exame de todas as idéias e ao aproveitamento de toda reflexão com critérios e métodos dentro e fora do Espiritismo. Liberdade de pensamento, de expressão e crítica são condições necessárias para um espírita autêntico poder se expressar. Direitos a que não se pode renunciar, que a CEPA. garante a todas as pessoas e às instituições a ela vinculadas.

A Palavra da CEPA

Jon Aizpúrua
Ex-presidente da CEPA (1993/2000) e atual Assessor de Relações Internacionais

Denomina-se como laicidade à concepção da vida na qual defende-se a ausência de religião oficial na direcção dos Estados, enquanto que por laicismo entende-se o movimento histórico que reivindica a implantação da laicidade.
Sobre a base de seus fundamentos humanistas, sociológicos e morais, assume-se que a laicidade estabelece um vínculo comum entre as pessoas e facilita que elas convivam respeitosa e cordialmente, processando suas diferentes opiniões em um âmbito civilizado, de liberdade e igualdade. Os princípios laicos de liberdade de consciência, de pensamento, de expressão e de organização; a igualdade de direitos e obrigações, assim como a justiça social, constituem a própria essência do sistema democrático.

É conveniente salientar que um Estado laico e, portanto, não confessional, não implica seja antirreligioso ou ateu. Toda a crença religiosa é respeitável e deve sempre garantir-se a seus adeptos o direito de vivê-la intimamente, compartilhando-a com quem se deseje e difundi-la sem restrições. Diferente há de ser o clericalismo e suas pretensões de gozar de privilégios especiais no âmbito social, situar-se por sobre ou à margem da normativa civil ou jurídica, ou impor critérios teológicos em assuntos morais, científicos ou educativos.

Felizmente, uma porção considerável da humanidade evoluiu no sentido de uma concepção laica que coloca em seus precisos termos a relação entre o mundo civil e o religioso, os Estados e as Igrejas. No mundo ocidental, com maior força, vive-se, cada vez mais, em uma sociedade pós-cristã. Esse tipo de sociedade teve início na Europa a partir do Renascimento, converteu-se em um projeto com o Iluminismo, generalizou-se entre as massas cristãs na segunda metade do século XX e foi se estendendo à América e a outros países influenciados pela cultura ocidental. A partir de um ponto de vista sociológico, não tão religioso, essas sociedades podem qualificar-se de pós-cristãs, o que significa que a cosmovisão baseada no cristianismo, em torno da qual girou a vida individual e social durante séculos, vai deixando de ser sua coluna vertebral. Essa mudança progressiva de cosmovisão na tradição cristã ocidental foi-se manifestando em muitas expressões culturais que estão sendo transformadas ou abandonadas:

  • As festas religiosas determinavam o calendário civil e trabalhista. Agora se eliminaram a maioria delas, embora sigam sendo muito importantes o Natal e a Semana Santa, não tanto no sentido religioso, mas como ocasião de viver em família e oportunidade para férias em campos e praias. O mesmo ocorreu com as festas patronais das pequenas localidades que eram dedicadas a um santo e que agora são apenas o motivo para celebrações civis e folclóricas

  • Os nomes que os pais davam a seus filhos eram buscados no calendário santo e que agora são apenas motivo de celebrações civis e folclóricas. Hoje se lhes põem nomes inventados, surgidos de combinações originais, muitas vezes estranhas e até impronunciáveis.

  • Muitas manifestações públicas, como procissões, romarias ou peregrinações, foram se despojando de seu sentido religioso original e se vão convertendo em festas folclóricas e populares, que costumam se aproveitadas pelos líderes políticos para promover sua imagem pessoal com fins eleitorais.

  • Em muitos países da órbita cristã, o registo eclesiástico de batizados e matrimónios era utilizado pelos Estados como registo civil. Há muito tempo que ambos registos obedecem a propósitos diferentes e somente o civil é obrigatório e possui efeitos legais.

  • Os símbolos religiosos cristãos, como o crucifixo ou o juramento pela Bíblia, eram frequentes em âmbito público, como escolas e repartições governamentais. Cada vez mais se impõe a tendência de suprimir qualquer exibição religiosa pública e se reduz a presença de autoridades civis a atos religiosos, reservando-se nada mais que aqueles de especial solenidade.

  • A moral estabelecida pelos cultos cristãos impunha as regras para o comportamento dos cidadãos. Actualmente discutem-se, questionam-se ou se rechaçam muitos desses critérios e comportamentos, especialmente no âmbito da sexualidade e da legítima diversidade de opções que cada pessoa tem direito de escolher sem ser discriminada ou estigmatizada.

  • A linguagem religiosa perdeu actualidade, pertinência e relevância social. Palavras e expressões como pecado, céu e inferno, salvação, culpa, penas eternas, castigos divinos, etc. foram desaparecendo do linguajar corrente e circunscrevendo-se aos actos de culto.

  • Em matéria educativa pública, já não se discute a primordial competência do Estado, ficando reservado o ensino da religião ao âmbito familiar e das organizações eclesiásticas.

  • “Crentes mas não praticantes” declaram-se muitos hoje em dia. Essa é outra característica da sociedade pós-cristã que merece atenção. Expressa-se de muitas formas: “Eu creio em Deus, mas não nos sacerdotes”, “eu me confesso directamente a Deus, não com um homem”, “a Igreja reprime minha liberdade”, etc. Nestas e outras manifestações reflecte-se uma espécie de alergia e rechaço às instituições eclesiásticas.

  • Outra característica importante da sociedade pós-cristã é a separação entre confissão religiosa e organização política e social. A liberdade de culto impôs-se nos países modernos e, como consequência, o catolicismo e outras religiões cristãs deixam de gozar de privilégios e vantagens por parte de um Estado que se declara laico. Um governante, incluindo todos os membros de seu governo, podem ser crentes, mas sua fé é um assunto pessoal e não a podem impor ao resto da sociedade.

Como é muito bem sabido, o espiritismo, desde seu início, a partir do ato fundacional que o aparecimento de O Livro dos Espíritos significou, em 1857, desfraldou a bandeira do laicismo, ressaltando o valor irrenunciável da liberdade que permite a cada ser humano administrar suas crenças em matéria de religião, de fé, de transcendência, conforme os ditames de sua razão e sem temor de ser condenado, castigado, anatemizado ou perseguido.

Claro está que o laicismo no qual se inscreve o espiritismo possui uma base inequivocamente espiritualista.
Muito distanciado de um laicismo materialista e ateu que promove a indiferença frente às perguntas radicais da existência humana: sua origem e destino, assim como sua referência centrada em uma explicação exclusivamente física, química, biológica, psicológica ou sociológica da vida e da morte, o espiritismo reafirma o reconhecimento da existência de Deus como Inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas;
do espírito como entidade psíquica transcendente que preexiste ao nascimento e sobrevive depois do falecimento;
do processo evolutivo ascendente do espírito que se verifica em inumeráveis e sucessivas existências;
da incessante comunicação entre desencarnados e encarnados por diversidade de meios;

e deriva desses princípios uma cosmovisão humanista e progressista que convida à transformação pessoal e social, no quadro dos mais elevados princípios éticos.

Convidando para a compreensão do sentido espiritual da vida,
insistindo no respeito pleno e na liberdade das pessoas e dos povos, e sustentado na razão e na ciência, o espiritismo conduz a uma espiritualidade laica, equidistante do catecismo sem esperança, do materialismo e do dogmatismo sectário e alheio à ciência e à racionalidade das teologias.

Uma espiritualidade aberta e tolerante, que, por sobre a base de princípios universais, promove uma cultura de entendimento, convivência, harmonia, generosidade, solidariedade e fraternidade.

  • Uma cultura de respeito pela vida em todas as suas formas.

  • Uma cultura que garanta o exercício da liberdade de pensamento, consciência e crença.

  • Uma cultura de não violência que promova o encontro e a solução pacífica das controvérsias.

  • Uma cultura da solidariedade que impulsione a criação e a consolidação de uma ordem mundial justa, em que se apaguem as ignominiosas diferenças entre privilegiados e deserdados.

  • Uma cultura da verdade no plano da transmissão da informação e o conhecimento, que erradique a mentira.

  • Uma cultura da igualdade entre os povos, as nacionalidades, as etnias ou identidades sexuais, onde não haja lugar para a discriminação.

  • Uma cultura do trabalho, reconhecido como instrumento fundamental da riqueza social, e que seja devidamente remunerado em um ambiente de relações justas e honestas entre empresários e trabalhadores.

  • Uma cultura que promova o funcionamento democrático no exercício político das nações, sustentada no sufrágio livre e transparente, e que erradique toda a sorte de regimes autoritários e tirânicos, com independência do matiz ideológico com que se identificam.

Conceitos como estes, e muitos outros que se podem acrescentar, integram o que denominamos uma espiritualidade ética de orientação espírita sustentada na cultura do amor, e traduzem em termos concretos e actuais a proposta central de Allan Kardec e dos espíritos sábios que o assessoraram, respeito à marcha evolutiva da humanidade rumo a um horizonte superior que se definiu como “um mundo de regeneração moral e social”.

Muito bem faz nossa Associação Espírita Internacional CEPA em conceituar o espiritismo como uma visão laica, humanista, livre-pensadora, plural e progressista, porque ela coincide cabalmente com o modelo de espiritismo pensado e sonhado por Allan Kardec, seu ilustre fundador e codificador.



A Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA – CEPABrasil completou 15 anos de atividades, no dia de 19 de outubro passado. Fundada em 2003, adotou até outubro de 2009 a sigla CEPAmigos. A CEPABrasil tem como objetivo reunir amigos e simpatizantes da CEPA residentes no Brasil, realizando atividades doutrinárias de estudos e difusão do espiritismo com base nas obras de Allan Kardec, sublinhando seu caráter livre-pensador, humanista, laico, plural, evolucionista e universalista.

Nestes breves quinze anos, foram realizados oito Fóruns do Livre-Pensar Espírita, pela ordem: João Pessoa (PB), Pelotas(RS), Guarulhos (SP), João Pessoa(PB), Fortaleza(CE), Porto Alegre(RS), Domingos Martins (ES), Salvador (BA), e quatro Encontros Nacionais, em: Itapecerica da Serra(SP), Bento Gonçalves(RS), João Pessoa (PB) e Fortaleza (CE).

A CEPABrasil foi presidida por Sandra Régis, Jacira Jacinto da Silva, Alcione Moreno, Homero Ward da Rosa e, atualmente, por Jailson Lima Mendonça.

Parabéns e muito obrigado a todos os amigos que participam com suas ideias, reflexões e sugestões, sendo presença constante nos espaços sociais e eventos da CEPABrasil e da CEPA. Vocês, amigos de todas as nacionalidades, constroem e fortalecem a união, a tolerância, a empatia e a alteridade em nosso pequeno e valoroso grupo de espíritas.

Amigos, espaços de convivência democrática não estão prontos; eles resultam do aprendizado, do esforço e do respeito às diferenças. Não pretendemos hegemonia, pois queremos continuar pensando, concordando, discordando, aprendendo e avançando… A experiência humana se alicerça em erros e acertos – mas é insubstituível.

Diretoria da CEPABrasil

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