Um dos depoimentos de NDE/EQM mais inteligentes e lúcidos que já ouvimos desde sempre

O site brasileiro “Afinal quem somos nós”, actualmente dirigido pelo Dr. Manuel de Sousa, tem feito um trabalho muito importante na divulgação de depoimentos de “Experiências de Quase Morte”, fenómeno que seguimos há um bom número de anos e que temos publicado no nosso título de Menu dedicado a este tema: https://palavraluz.com/category/nde-eqm/

Os depoimentos a respeito de EQM/NDE são todos diferentes, uns mais simples e desprovidos de “enredo”, outros muito elaborados, cheios de detalhes importantes e variados. Por esse processo confirmam a existência ABSOLUTAMENTE FACTUAL da vida depois da morte, numa sequência de detalhes igual aos que nos descreve o conhecimento espírita, da passagem deste mundo de aprendizagem e colheita de experiências, para a vida espiritual. https://youtu.be/2CRzK3ZaN2o Para este depoimento de uma Senhora portuguesa, a Maria Júlia Dinisz, queremos chamar a atenção de todos, visto que se trata de um dos mais importantes do incontável número de casos de que já tivemos conhecimento desde sempre. E porquê?

Porque sendo uma viagem a outro plano da existência sem a multiplicidade de visões das EQM mais extensas, com variedade de encontros e cenários, teve efeitos construtivos magníficos na sua protagonista, os quais compreendeu e foi desenvolvendo ao longo da sua vida.

A consciência dos seus atos de caridade lúcida, de amor solidário e construtivo foram passos dados em busca do SER SUPERIOR que mora em nós e que necessitamos de conquistar aos longo das nossas vidas como DESTINO PRINCIPAL da alma.

A transformação do carácter moral dos protagonistas de EQM

Conforme se encontra detalhadamente esclarecido nos documentos que temos publicado a este respeito, a característica em subtítulo é das consequências mais importantes deste género de fenómenos. No caso de Maria Júlia Diniz, tendo registado a sua EQM há muitos anos, os efeitos de transformação de carácter moral conduziram  as suas opções de vida marcadas pela generosidade  e solidariedade, com apoio da sua rica personalidade espiritual, intelectual e artística. A única forma que temos de confirmar esta ideia é sugerir que ouçam o seu depoimento, palavra por palavra, observando a sua entrega em benefício dos seus semelhantes necessitados de apoio humano e caridade fraterna.

CEPA – Associação Espírita Internacional

Há muitos anos que seguimos o trabalho desenvolvido pela CEPA Brasil, agora categorizada pela sua importante actividade internacional.
A seguir, uma referência breve às suas características culturais, doutrinárias e intelectuais, seguidas de um importante depoimento sobre a atitude de espiritualidade laica, que é marca distintiva da personalidade que cultivam.
Esta última parte é da autoria de Jon Aizpúrua, Ex-presidente da CEPA (1993/2000) e actual Assessor de Relações Internacionais, para a qual chamamos a melhor atenção de todos os nossos visitantes.

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Nosso empenho maior concentra-se em exteriorizar em toda sua plenitude os postulados que compõem a Doutrina Espírita.
Em sua defesa e preservação nos colocamos acima das cortesias, diplomacias, relações pessoais ou institucionais.

Em consonância com essa linha mestra lutamos por uma Doutrina:

Kardecista,
porque assume os ensinamentos e reflexões apreendidos da obra de Allan Kardec, que representam a essência e a base do edifício doutrinário. Orientado pela bússola da codificação kardecista, o Espiritismo manterá sempre o rumo correto e seguirá por caminhos seguros.

Progressista,
porque o pensamento espírita é um instrumento para o melhoramento individual e social aliado a valores como: liberdade, justiça e igualdade. Porque proporciona uma postura dinâmica, aberta, autocrítica e capaz de ampliar os conceitos como resultado do processo de mudança do mundo.

Livre-pensadora,
porque convida seus integrantes e as pessoas em geral a gozar, em sua plenitude, do direito ao livre exame de todas as idéias e ao aproveitamento de toda reflexão com critérios e métodos dentro e fora do Espiritismo. Liberdade de pensamento, de expressão e crítica são condições necessárias para um espírita autêntico poder se expressar. Direitos a que não se pode renunciar, que a CEPA. garante a todas as pessoas e às instituições a ela vinculadas.

A Palavra da CEPA

Jon Aizpúrua
Ex-presidente da CEPA (1993/2000) e atual Assessor de Relações Internacionais

Denomina-se como laicidade à concepção da vida na qual defende-se a ausência de religião oficial na direcção dos Estados, enquanto que por laicismo entende-se o movimento histórico que reivindica a implantação da laicidade.
Sobre a base de seus fundamentos humanistas, sociológicos e morais, assume-se que a laicidade estabelece um vínculo comum entre as pessoas e facilita que elas convivam respeitosa e cordialmente, processando suas diferentes opiniões em um âmbito civilizado, de liberdade e igualdade. Os princípios laicos de liberdade de consciência, de pensamento, de expressão e de organização; a igualdade de direitos e obrigações, assim como a justiça social, constituem a própria essência do sistema democrático.

É conveniente salientar que um Estado laico e, portanto, não confessional, não implica seja antirreligioso ou ateu. Toda a crença religiosa é respeitável e deve sempre garantir-se a seus adeptos o direito de vivê-la intimamente, compartilhando-a com quem se deseje e difundi-la sem restrições. Diferente há de ser o clericalismo e suas pretensões de gozar de privilégios especiais no âmbito social, situar-se por sobre ou à margem da normativa civil ou jurídica, ou impor critérios teológicos em assuntos morais, científicos ou educativos.

Felizmente, uma porção considerável da humanidade evoluiu no sentido de uma concepção laica que coloca em seus precisos termos a relação entre o mundo civil e o religioso, os Estados e as Igrejas. No mundo ocidental, com maior força, vive-se, cada vez mais, em uma sociedade pós-cristã. Esse tipo de sociedade teve início na Europa a partir do Renascimento, converteu-se em um projeto com o Iluminismo, generalizou-se entre as massas cristãs na segunda metade do século XX e foi se estendendo à América e a outros países influenciados pela cultura ocidental. A partir de um ponto de vista sociológico, não tão religioso, essas sociedades podem qualificar-se de pós-cristãs, o que significa que a cosmovisão baseada no cristianismo, em torno da qual girou a vida individual e social durante séculos, vai deixando de ser sua coluna vertebral. Essa mudança progressiva de cosmovisão na tradição cristã ocidental foi-se manifestando em muitas expressões culturais que estão sendo transformadas ou abandonadas:

  • As festas religiosas determinavam o calendário civil e trabalhista. Agora se eliminaram a maioria delas, embora sigam sendo muito importantes o Natal e a Semana Santa, não tanto no sentido religioso, mas como ocasião de viver em família e oportunidade para férias em campos e praias. O mesmo ocorreu com as festas patronais das pequenas localidades que eram dedicadas a um santo e que agora são apenas o motivo para celebrações civis e folclóricas

  • Os nomes que os pais davam a seus filhos eram buscados no calendário santo e que agora são apenas motivo de celebrações civis e folclóricas. Hoje se lhes põem nomes inventados, surgidos de combinações originais, muitas vezes estranhas e até impronunciáveis.

  • Muitas manifestações públicas, como procissões, romarias ou peregrinações, foram se despojando de seu sentido religioso original e se vão convertendo em festas folclóricas e populares, que costumam se aproveitadas pelos líderes políticos para promover sua imagem pessoal com fins eleitorais.

  • Em muitos países da órbita cristã, o registo eclesiástico de batizados e matrimónios era utilizado pelos Estados como registo civil. Há muito tempo que ambos registos obedecem a propósitos diferentes e somente o civil é obrigatório e possui efeitos legais.

  • Os símbolos religiosos cristãos, como o crucifixo ou o juramento pela Bíblia, eram frequentes em âmbito público, como escolas e repartições governamentais. Cada vez mais se impõe a tendência de suprimir qualquer exibição religiosa pública e se reduz a presença de autoridades civis a atos religiosos, reservando-se nada mais que aqueles de especial solenidade.

  • A moral estabelecida pelos cultos cristãos impunha as regras para o comportamento dos cidadãos. Actualmente discutem-se, questionam-se ou se rechaçam muitos desses critérios e comportamentos, especialmente no âmbito da sexualidade e da legítima diversidade de opções que cada pessoa tem direito de escolher sem ser discriminada ou estigmatizada.

  • A linguagem religiosa perdeu actualidade, pertinência e relevância social. Palavras e expressões como pecado, céu e inferno, salvação, culpa, penas eternas, castigos divinos, etc. foram desaparecendo do linguajar corrente e circunscrevendo-se aos actos de culto.

  • Em matéria educativa pública, já não se discute a primordial competência do Estado, ficando reservado o ensino da religião ao âmbito familiar e das organizações eclesiásticas.

  • “Crentes mas não praticantes” declaram-se muitos hoje em dia. Essa é outra característica da sociedade pós-cristã que merece atenção. Expressa-se de muitas formas: “Eu creio em Deus, mas não nos sacerdotes”, “eu me confesso directamente a Deus, não com um homem”, “a Igreja reprime minha liberdade”, etc. Nestas e outras manifestações reflecte-se uma espécie de alergia e rechaço às instituições eclesiásticas.

  • Outra característica importante da sociedade pós-cristã é a separação entre confissão religiosa e organização política e social. A liberdade de culto impôs-se nos países modernos e, como consequência, o catolicismo e outras religiões cristãs deixam de gozar de privilégios e vantagens por parte de um Estado que se declara laico. Um governante, incluindo todos os membros de seu governo, podem ser crentes, mas sua fé é um assunto pessoal e não a podem impor ao resto da sociedade.

Como é muito bem sabido, o espiritismo, desde seu início, a partir do ato fundacional que o aparecimento de O Livro dos Espíritos significou, em 1857, desfraldou a bandeira do laicismo, ressaltando o valor irrenunciável da liberdade que permite a cada ser humano administrar suas crenças em matéria de religião, de fé, de transcendência, conforme os ditames de sua razão e sem temor de ser condenado, castigado, anatemizado ou perseguido.

Claro está que o laicismo no qual se inscreve o espiritismo possui uma base inequivocamente espiritualista.
Muito distanciado de um laicismo materialista e ateu que promove a indiferença frente às perguntas radicais da existência humana: sua origem e destino, assim como sua referência centrada em uma explicação exclusivamente física, química, biológica, psicológica ou sociológica da vida e da morte, o espiritismo reafirma o reconhecimento da existência de Deus como Inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas;
do espírito como entidade psíquica transcendente que preexiste ao nascimento e sobrevive depois do falecimento;
do processo evolutivo ascendente do espírito que se verifica em inumeráveis e sucessivas existências;
da incessante comunicação entre desencarnados e encarnados por diversidade de meios;

e deriva desses princípios uma cosmovisão humanista e progressista que convida à transformação pessoal e social, no quadro dos mais elevados princípios éticos.

Convidando para a compreensão do sentido espiritual da vida,
insistindo no respeito pleno e na liberdade das pessoas e dos povos, e sustentado na razão e na ciência, o espiritismo conduz a uma espiritualidade laica, equidistante do catecismo sem esperança, do materialismo e do dogmatismo sectário e alheio à ciência e à racionalidade das teologias.

Uma espiritualidade aberta e tolerante, que, por sobre a base de princípios universais, promove uma cultura de entendimento, convivência, harmonia, generosidade, solidariedade e fraternidade.

  • Uma cultura de respeito pela vida em todas as suas formas.

  • Uma cultura que garanta o exercício da liberdade de pensamento, consciência e crença.

  • Uma cultura de não violência que promova o encontro e a solução pacífica das controvérsias.

  • Uma cultura da solidariedade que impulsione a criação e a consolidação de uma ordem mundial justa, em que se apaguem as ignominiosas diferenças entre privilegiados e deserdados.

  • Uma cultura da verdade no plano da transmissão da informação e o conhecimento, que erradique a mentira.

  • Uma cultura da igualdade entre os povos, as nacionalidades, as etnias ou identidades sexuais, onde não haja lugar para a discriminação.

  • Uma cultura do trabalho, reconhecido como instrumento fundamental da riqueza social, e que seja devidamente remunerado em um ambiente de relações justas e honestas entre empresários e trabalhadores.

  • Uma cultura que promova o funcionamento democrático no exercício político das nações, sustentada no sufrágio livre e transparente, e que erradique toda a sorte de regimes autoritários e tirânicos, com independência do matiz ideológico com que se identificam.

Conceitos como estes, e muitos outros que se podem acrescentar, integram o que denominamos uma espiritualidade ética de orientação espírita sustentada na cultura do amor, e traduzem em termos concretos e actuais a proposta central de Allan Kardec e dos espíritos sábios que o assessoraram, respeito à marcha evolutiva da humanidade rumo a um horizonte superior que se definiu como “um mundo de regeneração moral e social”.

Muito bem faz nossa Associação Espírita Internacional CEPA em conceituar o espiritismo como uma visão laica, humanista, livre-pensadora, plural e progressista, porque ela coincide cabalmente com o modelo de espiritismo pensado e sonhado por Allan Kardec, seu ilustre fundador e codificador.



A Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA – CEPABrasil completou 15 anos de atividades, no dia de 19 de outubro passado. Fundada em 2003, adotou até outubro de 2009 a sigla CEPAmigos. A CEPABrasil tem como objetivo reunir amigos e simpatizantes da CEPA residentes no Brasil, realizando atividades doutrinárias de estudos e difusão do espiritismo com base nas obras de Allan Kardec, sublinhando seu caráter livre-pensador, humanista, laico, plural, evolucionista e universalista.

Nestes breves quinze anos, foram realizados oito Fóruns do Livre-Pensar Espírita, pela ordem: João Pessoa (PB), Pelotas(RS), Guarulhos (SP), João Pessoa(PB), Fortaleza(CE), Porto Alegre(RS), Domingos Martins (ES), Salvador (BA), e quatro Encontros Nacionais, em: Itapecerica da Serra(SP), Bento Gonçalves(RS), João Pessoa (PB) e Fortaleza (CE).

A CEPABrasil foi presidida por Sandra Régis, Jacira Jacinto da Silva, Alcione Moreno, Homero Ward da Rosa e, atualmente, por Jailson Lima Mendonça.

Parabéns e muito obrigado a todos os amigos que participam com suas ideias, reflexões e sugestões, sendo presença constante nos espaços sociais e eventos da CEPABrasil e da CEPA. Vocês, amigos de todas as nacionalidades, constroem e fortalecem a união, a tolerância, a empatia e a alteridade em nosso pequeno e valoroso grupo de espíritas.

Amigos, espaços de convivência democrática não estão prontos; eles resultam do aprendizado, do esforço e do respeito às diferenças. Não pretendemos hegemonia, pois queremos continuar pensando, concordando, discordando, aprendendo e avançando… A experiência humana se alicerça em erros e acertos – mas é insubstituível.

Diretoria da CEPABrasil

A BUSCA DE DEUS E DA VIDA DEPOIS DA MORTE NA IDADE DA CIÊNCIA

A busca de Deus e vida após a morte na era da ciência
por Ken R. Vincent
Publicado em 27 de setembro de 2019

1. Resumo e palavras-chave

RESUMO:
As experiências de quase morte (EQMs) e outras que nos colocam em contacto com a nossa natureza transcendente, indicam a existência de um Criador assim como a existência da consciência pessoal após a morte física.
Neste artigo, revê-se a história dessas experiências anteriores a 1850 e do seu estudo durante três períodos de pesquisa científica entre 1850 e o presente, do que pode concluir-se que:
Uma grande percentagem da população do planeta já passou por EQMs e outras experiências e perceções para além do corpo material que nos deram um conhecimento sensibilizado da existência da vida após a morte.
A generalidade dessas perceções é mentalmente saudável e muda a vida para melhor.
Afirmo que, embora as EQMs e outras experiências transpessoais não possam provar a existência de uma entidade divina e da realidade da vida após a morte, apontam de forma bastante evidente nesse sentido.
PALAVRAS-CHAVE: experiência de quase morte; transpessoal; misticismo; Deus; vida após a morte.

2. Introdução ao conhecimento das Experiências Transpessoais

As experiências transpessoais envolvem perceções que transcendem os limites pessoais usuais de espaço e/ou tempo. Também conhecidas como “experiências místicas”, “experiências religiosas” ou “experiências espirituais”, as experiências transpessoais incluem:
– a comunicação direta com seres espirituais;
– experiências de quase morte (NDEs); visões do leito de morte (DBVs);
– e comunicações pós-morte (ADCs), como as que são alcançadas através das comunicações mediúnicas.
As pessoas que limitam o estudo das experiências transpessoais às EQMs, designam as outras experiências transpessoais como “experiências semelhantes à morte” ou, mais desajeitadamente, “uma experiência de quase morte na qual a pessoa não morreu”.
Ao contrário dos parapsicólogos, que tentam explicar fenómenos paranormais, os “psicólogos transpessoais” observam as experiências anómalas de indivíduos não psicóticos e nos efeitos dessas experiências sobre eles.
psicose: uma doença mental grave (como a esquizofrenia) caracterizada por contacto defeituoso ou perdido com a realidade muitas vezes com alucinações ou ilusões.
Muitas das experiências transpessoais apontam para a existência e natureza de Deus, da vida após a morte e da consciência pessoal contínua depois da morte física.
Ver estudo científico de “experiências transpessoais” desenvolvido entre a segunda metade do século XIX e o presente (Basford, 1990, pp. viii-ix).

Enquanto William James cunhou o termo “experiência transpessoal”, Abraham Maslow expandiu muito o estudo sério das experiências transpessoais ao considerar a psicologia transpessoal uma “quarta força” na psicologia depois da psicanálise, behaviorismo e humanismo (Daniels, 2004, pp. 366-370).
Neste artigo, não abordarei experiências transpessoais envolvendo médiuns, nem abordarei a cura pela fé, pois não pesquisei essas áreas. Em vez disso, o meu foco será o desenvolvimento do estudo de experiências de quase-morte nos últimos 150 anos. Começo com uma breve discussão das experiências transpessoais anteriores a meados do século XIX.

3. Experiências Transpessoais Antes de 1850

Platão, Zoroastro, São Paulo e São Gregório Magno

Toda a história humana é testemunho da experiência humana do transpessoal. Antes da pesquisa de experiências transpessoais por pesquisadores biomédicos e cientistas sociais, esses relatos eram muitas vezes anedóticos.
Há 2.500 anos, Platão registou a EQM de Er na sua República (“O MITO DE ER”, século IV AC; livro X, de 614b a 621b). Relatos em primeira mão de fontes confiáveis ​​no mundo antigo são raros.
Zoroastro compôs um poema que documentava a sua experiência direta com Deus (Vincent, 1999, pp. 91-127).
São Paulo descreveu a Comunicação Após a Morte de Jesus (1 Coríntios 15:5-8).
Além disso, São Paulo falou de sua experiência fora do corpo na qual foi transportado para o terceiro nível do Céu (2 Coríntios 12:2-5)
No século VI, São Gregório Magno no Livro 4 de seus Diálogos (Gregório, século VI dC/1959) forneceu um tesouro de experiências transpessoais, incluindo EQMs, Comunicações Após a Morte, Visões no Leito de Morte e sonhos vividos.
Esses e outros exemplos da literatura antiga e medieval têm alguma validade pelo próprio facto de soarem tão semelhantes aos relatos transpessoais modernos;
No entanto, em quase todos os casos, o seu registo muito antigo não permite fazer um julgamento sobre a veracidade da história.
Na sua análise de relatos medievais e modernos de viagens ao outro mundo, a Drª Carol Zalesky (1987) observou:
Não podemos simplesmente retirar o invólucro literário e lançar mão de um texto antigo, mesmo que tenha realmente ocorrido. Acontece que pode ter sido trabalhado muitas vezes antes de ser escrito” (pp. 86-88).
Carol Zalesky sugeriu, por exemplo, que a Igreja católica estaria interessada em garantir que os relatos registados não contradissessem a “Verdade” conforme definida pela sua doutrina. No entanto, no mundo medieval, relatos em primeira mão de experiências transpessoais tornaram-se mais frequentes na vida dos santos.
Uma colaboração interdisciplinar moderna entre um historiador e um psiquiatra em “experiências transpessoais” medievais revelou que as visões pareciam estar relacionadas com doenças mentais em apenas 4 dos 134 casos estudados pelos autores Kroll & Bachrach, 1982.

4. Primeiro Período de Pesquisa Científica em Experiências Transpessoais (1850-1920)

Ciência médica de meados do século XIX, religiões orientais e pesquisa psíquica:

Em meados do século XIX a medicina começou a tornar-se científica. Os médicos estavam a aprender rapidamente sobre o corpo humano, descobrindo que muitos dos seus tratamentos e medicamentos eram ineficazes ou tóxicos (Benson & Stark, 1997, pp. 109-114).
As ciências sociais tornaram-se realidade em grande parte devido à invenção da estatística moderna (Wood & Wood, 1996, p. 23).
Concomitantemente, a religião comparada surgiu como tema de estudo pela primeira vez no Ocidente desde o período clássico (Nigosian, 2000, pp. 412-413).
Este período testemunhou a publicação dos “Livros Sagrados do Oriente” de Max Müller (1897) que aumentaram o conhecimento ocidental da religião oriental.
Simultaneamente, a arqueologia deixava de ser uma “caça ao tesouro” para se tornar uma ciência metódica (Oakes & Gahlin, 2003, pp. 26-41).
Em meados do século XIX, os médicos começaram a relatar Visões no Leito da Morte e EQMs, temas desconhecidas até aí nas publicações médicas (Basford 1990, pp. 5-10.131-137; Walker & Serdahely, 1990, p. 108). Começou a haver estudos acerca das experiências transpessoais. Na década de 1880, a Society for Psychical Research foi formada na Inglaterra e, pouco depois, foi fundada a American Society for Psychical Research (Cardeña, Lynn, & Krippner, 2000, p. 6).
Os seus membros eram maioritariamente médicos, professores e estudiosos. Os seus membros estavam interessados ​​em entrevistar sujeitos e avaliar a credibilidade de estudos de caso envolvendo experiências transpessoais.

B. Estudos Transpessoais Inovadores Importantes

Estudo de Frederick Myers / 1
Estudos inovadores produzidos por esse novo grupo de pesquisadores psíquicos incluem “Human Personality and its Survival of Bodily Death” (1903), de Frederick Myers, e “Deathbed Visions”, de Sir William Barrett (1926). O relato verídico a seguir, retirado do trabalho clássico de Myers, documenta os raros fenómenos de contacto físico com uma visão. É o caso de uma aparição ao barão Basil Fredorovich von Driesen de seu falecido sogro, com quem ele não tinha boas relações. O objetivo da ADC do sogro era a reconciliação. Basil relatou apertar a mão da aparição que ele descreveu como “longa e fria”, após o que a visão desapareceu. No dia seguinte, após o culto na igreja, o padre disse a Basil e a sua esposa:
“Esta noite, às 3:00, Nicholas Ivanovitch Ponomareff apareceu e implorou-me que o reconciliasse consigo.”
Assim, na mesma noite, o genro e o padre, em locais separados, tiveram uma visão do mesmo morto (Myers, 1903, pp. 40-42)

Estudo de Henry Sidgwick / 2

Outro estudo importante no século 19 foi o Relatório de Henry Sidgwick sobre o Censo de Alucinações (Basford, 1990, p. 161). O estudo britânico incluiu mais de 15.000 pessoas não psicóticas e descobriu que cerca de 10% dos participantes relataram aparições, incluindo CPMs e visões religiosas.
Este também foi o caso de um estudo na década de 1990, usando uma amostra representativa de mais de 18.000 participantes (Bentall, 2000, pp. 94-95).
Embora as pessoas com esquizofrenia possam relatar e relatam experiências místicas juntamente com sua psicose (Siglag, 1986), na maioria das vezes as pessoas sem doença mental relatam ver figuras religiosas, enquanto as pessoas com esquizofrenia relatam ser figuras religiosas.

Estudos de James Hyslop / 3

“A existência de aparições verídicas substanciaria tudo o que é útil na história da ressurreição e tornaria a experiência humana em todas as épocas semelhante” (p.383).
James Hyslop escreveu muitos livros sobre experiências transpessoais. A sua “Pesquisa Psíquica e a Ressurreição” (1908) é interessante. Inclui não apenas exemplos verídicos de ADCs e DBVs, mas também um tratado sobre a ressurreição como uma ADC em que Hyslop afirmou que:
Essa mesma abordagem, enfatizando que o corpo ressuscitado de Jesus era (citando São Paulo) um corpo “espiritual” (Hyslop, 1908, p. 377), foi adotada em meados do século pelo cónego anglicano Michael Perry, que escreveu “The Easter Enigma” : Um Ensaio sobre a Ressurreição com Referência Específica aos Dados da Pesquisa Psíquica (1959). Esta tese foi novamente levantada no final do século 20 por Phillip Wiebe, autor de Visões de Jesus (1997).
Esses e outros autores modernos argumentaram que as aparições de Jesus pós-ressurreição são experiências visionárias indistinguíveis dos relatos de CPMs ao longo da história (Hick, 1993, pp. 41-44; Maxwell & Tschudin, 1990, pp. 66-67, 78, 105). , 119, 150, 166, 168; Wiebe 1997, pp. 3-88

Estudo de William James / 4

Nele declarou corajosamente: Em certo sentido, a religião pessoal [atualmente denominada transpessoal ou espiritual] mostrar-se-á mais fundamental do que a visão teológica ou eclesiástica.
As igrejas, uma vez estabelecidas, seguiam a visão tradicionalista. Os fundadores de cada igreja, porém, deviam o seu poder original, à sua comunicação pessoal direta com o Divino.
Não apenas os fundadores sobre-humanos, o Cristo, o Buda, Maomé, mas todos os fundadores de seitas religiosas, estiveram neste caso. Então, a religião pessoal ainda deve parecer a coisa primordial, mesmo para aqueles que continuam a considerá-la incompleta (James, 1902/1994, pp. 35-36; material entre colchetes adicionado).

A principal publicação do primeiro período de pesquisa em experiências transpessoais foi “The Varieties of Religious Experiences”, de William James, publicada em 1902.
Ele prosseguiu afirmando que a diferença estaria no “facto” natural que a maioria de nós atribuiria como a primeira diferença que a existência de um Deus deveria fazer seria, imagino, a imortalidade pessoal. Religião, de fato, para a grande maioria de nossa própria raça significa imortalidade, e nada mais (James 1902/1994, p. 569).
Uma validação adicional para a afirmação de William James de que os fundadores de todas as religiões obtiveram o conhecimento espiritual de experiências transpessoais diretas de Deus pode ser encontrada em New Religions (2004, pp. 14-24) de Christopher Partridge (2004, pp. 14-24). Partridge listou mais de 200 religiões que foram fundadas ou ganharam destaque no século passado; virtualmente todos os seus fundadores foram transformados e inspirados por uma experiência transpessoal como uma voz, uma visão ou outra experiência mística de Deus, ou uma CPM de uma figura religiosa.

5. Período Intermediário (décadas de 1930 a 1950) e Segundo Período (década de 1960 até o presente) da Pesquisa Científica em Experiências Transpessoais

A. Carl Jung e as experiências transpessoais

Durante a década de 1920, a pesquisa sobre experiências transpessoais começou a diminuir. Na minha opinião, as possíveis razões para isso incluem a morte dos fundadores da pesquisa sobre a experiência transpessoal, a ascensão do ateísmo e do marxismo cultural, e o freudismo e o behaviorismo nas ciências sociais e biomédicas. Em um artigo focado exclusivamente nas EQMs, Barbara Walker e William J. Serdahely (1990) observaram o mesmo período “seco”. Carl Jung (1961) tornou-se uma “voz solitária no deserto” sobre a importância da experiência religiosa e espiritual no funcionamento humano saudável.

B. Abraham Maslow e a Psicologia Transpessoal

Como o pai da psicologia humanista, Maslow revolucionou o estudo da psicologia ao enfatizar a personalidade saudável em vez da psicopatologia. No final de sua vida, ele foi além dessa inovação ao ressuscitar o termo “transpessoal” de James e fundar o campo da psicologia transpessoal (Maslow, 1964, pp. x — xi, 19 — 29; Partridge, 2004, pp. 366- 370). Durante esse mesmo período, os cientistas começaram a usar o eletroencefalograma (EEG) para estudar a meditação e outros estados alterados de consciência, demonstrando que os estados meditativos eram fisiologicamente diferentes da consciência comum e não apenas o “pensamento positivo” dos crentes (Wulff, 1997, págs. 69-89, 95-116). Concomitantemente, a facilitação da experiência religiosa com o uso de drogas psicodélicas tornou-se objeto de estudo científico.

C. Pesquisa de LSD de Timothy Leary

Timothy Leary era um respeitado professor de psicologia em Harvard e um dos maiores pesquisadores do mundo sobre personalidade na época em que começou a experimentar LSD e outras drogas psicodélicas (Wulff, D. M., 1997). Ele o fez na melhor companhia — com Huston Smith, ministro metodista, teólogo e pesquisador em religião comparada, e Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo e As Portas da Percepção (Smith, 2000, p. 6). Um dos primeiros projetos de pesquisa de Timothy Leary em Harvard foi apelidado de seu programa “Prisioneiros para Profetas” (Leary, 1983, pp. 83-90). Neste estudo, ele supervisionou a administração de LSD a prisioneiros que foram seguidos após a sua libertação da prisão. Inicialmente, o grupo LSD teve uma taxa de reincidência menor do que aqueles no grupo controle que não receberam drogas psicodélicas. No entanto, posteriormente esses resultados foram questionados, e foi sugerido que seu sucesso poderia ser melhor atribuído à interação dos alunos com os presos, ajudando-os a se readaptarem à sociedade e ajudando-os a encontrar emprego. De fato, um acompanhamento de 34 anos mostrou que a reincidência foi ligeiramente maior para o grupo LSD (Horgan, 2003).
Leary sinceramente pensou ter descoberto algo benéfico para a sociedade; um atalho que permitiria a todos se tornarem místicos. Assim, ele foi por algum tempo o campeão das drogas psicodélicas. Ele e seus amigos sofisticados não tiveram experiências negativas com o LSD, e alguns obtiveram insights sob sua influência. Leary pensou que a experiência mística foi causada pela droga; infelizmente, a causalidade e a dinâmica de tais experiências acabaram não sendo tão simples.
Eu era estudante de graduação em psicologia na época em que esta pesquisa inicial estava sendo realizada. Um dia, um dos meus professores entrou na aula e anunciou que estava fazendo uma pesquisa sobre LSD e queria que todos tomássemos a droga como parte de seu experimento. Agora, isso foi nos dias anteriores às diretrizes rígidas para pesquisa ética em seres humanos, e não era incomum que os professores incluíssem entre os requisitos do curso que os alunos participassem de seus experimentos. Fiquei muito aliviado quando meu professor disse que, se tivéssemos empregos, não éramos obrigados a participar. Ele então nos disse que essas coisas eram TÃO boas que ele nos daria algumas se fôssemos ao seu escritório depois da aula! Ele advertiu que, se tomássemos por conta própria, teríamos que prometer tomá-lo com um amigo, pois havia algumas pessoas que tinham “efeitos colaterais incomuns”. Alguns anos depois, depois que várias pessoas experimentaram o que veio a ser conhecido como “bad trips”, o Governo Federal tornou os psicodélicos ilegais. Claramente, a experiência de Deus não estava nas drogas, como Leary esperava.

D. Pesquisa Psicadélica de Walter Pahnke

Nessa época, um pesquisador de Harvard chamado Walter Pahnke (Argyle, 2000, pp. 64-66; Smith, 2000, pp. 199-205) conduziu um experimento controlado no Andover Theological Seminary no qual dividiu os seminaristas em dois grupos: um dado psicodélicos e o outro recebeu placebo. Ele então colocou os dois grupos em um culto de Páscoa de 2 horas e meia. O resultado foi que um número significativo daqueles que receberam a psilocibina relataram experiências místicas em comparação com o grupo de controle. O que Pahnke havia feito era o que os xamãs faziam há séculos: usar drogas para “descentralizar” seus súditos. As drogas psicodélicas induzem distorções perceptivas e forçam o sujeito a sair de sua mentalidade normal, mas é o xamã – ou, no caso do experimento de Pahnke, os ministros cristãos – que desempenha o papel crítico de guiar o experimentador. No caso dos xamãs nativos americanos, o cenário é um hogan onde o participante é cercado por companheiros de adoração, fogo e cânticos. No culto cristão da Páscoa, os “xamãs cristãos” forneceram o contexto de música, liturgia e oração. O cenário espiritual total é o “gatilho” da experiência mística; as drogas ajudam apenas na medida em que permitem ao experimentador sair da realidade comum (Wulff, 1997, pp. 188-193). Como o místico sufi Abu Said (Vincent, 1994, p. 40) colocou:
“O caminho para Deus é apenas um passo, o passo para fora de si mesmo.”

E. Experiências Transpessoais e Psicose

Além da relação entre experiências transpessoais e drogas psicodélicas, há também alguma sobreposição entre experiências transpessoais e psicose. Este foi o foco de um livro recente intitulado Psicose e Espiritualidade (Clarke, 2001). O misticismo pode ser diferenciado da psicose por meio da avaliação psicológica. Ralph Hood (2001, pp. 20-31) desenvolveu duas escalas para medir a natureza profunda da experiência mística religiosa: a Religious Experience Episode Measure (REEM) e a Mysticism Scale (M-Scale). Esses instrumentos separam místicos de não místicos, mas não diferenciam claramente místicos de psicóticos. Para alcançar este último, um diagnosticador precisa também usar um instrumento que diferencie pessoas com e sem psicose. O uso de mais de um teste para diagnóstico diferencial é comum em psicologia; por exemplo, o diagnóstico de dificuldade de aprendizagem requer a administração de avaliações de leitura e de QI (Vincent, 1987, pp. 45-58).
Embora seja possível ser tanto místico quanto psicótico, pesquisas modernas descobriram muito mais pessoas tendo experiências místicas do que tendo psicoses (Argyle, 2000, pp. 71-72, Hood, 2001, pp. 410-411). Essas diferenças são ainda destacadas em um estudo usando análise de palavras para diferenciar as descrições verbais de místicos, usuários de drogas psicodélicas, psicóticos e pessoas não incluídas em nenhum desses grupos. Os pesquisadores descobriram que as descrições das várias experiências não coincidem (Oxman, Rosenberg, Schnurr, Tucker, & Gala, 1988). Em geral, estudos sobre misticismo e saúde mental mostraram consistentemente que a esmagadora maioria dos místicos é mentalmente “normal” ou “saudável”.

F. Pesquisa de experiência religiosa de Sir Alister Hardy

Em 1969, Sir Alister Hardy, um biólogo, criou a Unidade de Pesquisa de Experiência Religiosa na Universidade de Oxford, hoje Centro de Pesquisa de Experiência Religiosa na Universidade de Gales, Lampeter (Rankin, 2008, p. 3). Este empreendimento marcou o início da pesquisa em larga escala sobre experiências místicas. Para pesquisar a experiência religiosa mística na população em geral, Hardy fez um apelo ao público em geral por meio de jornais e panfletos com a pergunta:
“Você já esteve ciente ou influenciado por uma presença ou poder, se você o chama de ‘Deus’ ou não, que é diferente do seu eu cotidiano?”
Ele convidou os leitores a enviar suas respostas. Dez anos depois, Hardy (1979/1997) publicou um livro baseado nas primeiras 3.000 respostas que recebeu a essa pergunta sobre experiências místicas.
Em seguida, indo além da metodologia de amostra auto-selecionada, os pesquisadores realizaram pesquisas de pesquisa em larga escala. Em 1977, David Hay e Ann Morisy (Hardy, 1979/1997, pp. 124-130) fizeram a mesma pergunta a uma amostra nacional britânica de 1.865 pessoas: 35% responderam “sim”. Entre os tempos do apelo no jornal britânico e a pesquisa populacional objetiva em larga escala, Andrew Greeley (1974) e seus colegas do Centro Nacional de Pesquisa de Opinião da Universidade de Chicago começaram a fazer uma pergunta muito semelhante:
“Você já se sentiu como se estivesse muito perto de uma poderosa força espiritual que parecia levantá-lo para fora de si mesmo?”
Uma amostra de 1.467 americanos mostrou que 39% responderam “sim”. Ao longo dos anos, repetidas amostras nacionais mostraram que o número de pessoas que responderam afirmativamente a essa pergunta variou de 35% a 50% (Wood, 1989, p. 856). Quando os entrevistados foram entrevistados em vez de pesquisados, o número aumentou para mais de 60% (Hay, 1987, pp. 136-137).
Possivelmente porque mais americanos estão se sentindo mais confiantes em sua espiritualidade, ou talvez porque a pergunta tenha sido formulada de maneira diferente, quando perguntada recentemente:
“Em geral, com que frequência você diria que experimentou a presença de Deus ou uma força espiritual que se sentiu muito próxima de você?”

86% dos americanos relataram uma ou mais experiências transpessoais. Quem sabe? Talvez nós, humanos, estejamos “saindo do nosso armário (espiritual)” (Mitofsky International e Edison Media Research, 2002)!
Nos primeiros 3.000 casos de experiências místicas que Hardy e seus colegas coletaram, um dos “gatilhos” da experiência mística “foi a perspectiva da morte”.
Mais recentemente, Mark Fox (2003, pp. 243-329) analisou essas “experiências de crise” (EC) e as comparou com outras experiências místicas não-crise (não EC). Considerando que a maioria dessas ECs foram EQMs, era difícil dizer pelos relatórios voluntários se esses indivíduos morreram ou, em alguns casos, apenas chegaram perto da morte. Apesar dessa limitação, Fox conduziu o estudo porque essas EC/NDEs ocorreram antes da popularização da EQM. Ele encontrou notável semelhança entre esses dois grupos. Em outras palavras, uma das maneiras de se ter uma experiência mística é morrer! Esta ligação entre a EQM e outras experiências místicas é um achado comumente relatado (Cressy 1994, 1996; Fenwick & Fenwick, 1995, pp. 229-236; Kircher, 1995, pp. 81-91; Ring, 2005, pp. 51-51- 52; Vincent, 1994, pp. 9-17).
Recentemente, Xinzhong Yao e Paul Badham do Alister Hardy Research Center publicaram um grande projeto de pesquisa intitulado Experiência Religiosa na China Contemporânea (2007). Yao e Badham entrevistaram 3.196 chineses. A religião é suprimida na China, e não deve ser surpresa que poucos entrevistados indicaram uma afiliação religiosa, mas 56,7% relataram experiências religiosas/espirituais. Usando o budismo como exemplo, apenas 2,3% dos chineses relataram ser budistas, mas 27,4% disseram ter adorado Buda no último ano e 18,2% relataram uma experiência religiosa envolvendo Buda ou bodhisattvas em algum momento de suas vidas (Holmes, 2006).

G. Pesquisa de experiência transpessoal de Osis e Haraldsson

Outro grande estudo transcultural sobre experiências transpessoais é relatado no livro At the Hour of Death (1977), de Osis e Haraldsson, que documenta 1.708 casos de visões no leito de morte registrados por médicos e enfermeiros nos Estados Unidos e na Índia. Esses pesquisadores compararam pacientes com visões no leito de morte com pacientes cujo diagnóstico resultaria em alucinações psicóticas, como doença cerebral, uremia e febre acima de 103 graus. Eles também levaram em conta os efeitos da medicação. As aparições dos moribundos nos EUA e na Índia envolveram parentes mortos e figuras religiosas; em nenhum caso, seja no estudo piloto dos EUA ou no estudo transcultural, foi a pessoa “levada” ─ a figura familiar ou religiosa que o paciente percebeu ter vindo para levar o paciente para a vida após a morte ─ uma aparição de um ser vivo Individual. Em geral, as visões no leito de morte eram semelhantes em ambos os países, embora houvesse algumas diferenças. Um décimo dos americanos e um terço dos indianos expressaram emoções negativas quando figuras religiosas apareceram. Os indianos estavam mais ansiosos por morrer, provavelmente porque a religião hindu ensina o julgamento. No entanto, uma vez que a experiência de morrer começou, quase sempre foi agradável para indianos e americanos. O único relato de uma pessoa indo para o inferno foi o de uma ítalo-americana. A diferença mais marcante entre as experiências no leito de morte nos EUA e na Índia é uma que poderia ter sido antecipada: as figuras religiosas que vieram levar a pessoa para a vida após a morte correspondiam à religião da pessoa. Os cristãos viram Deus, Jesus, anjos e Maria. Os hindus viam figuras como Yamaraj, o deus hindu da morte, bem como Krishna, Rama e Durga (Osis & Haraldsson, 1977, pp. 52-78, 218).
Um subproduto do estudo de Osis e Haraldsson foi que incluiu 120 pessoas que passaram por experiências de quase morte (EQMs). Assim como os visionários do leito de morte, os que passaram por uma EQM na Índia e nos EUA tiveram experiências semelhantes. A única exceção foi que, nos EUA, as pessoas relataram ter sido instruídas a retornar ou que “tinham trabalho a fazer”. Na Índia, eles costumavam ser informados de que seu nome “não estava na lista”. Um hindu teria sido informado por um mensageiro hindu da morte que eles haviam trazido a pessoa errada. Curiosamente, este relatório incluiu um relato em que outro homem com o mesmo nome estava no mesmo hospital e, quando o paciente inicial recuperou a consciência, o outro homem com o mesmo nome morreu (Osis & Haraldsson, 1977, pp. 147-159) .

Também na década de 1970, foram realizadas pesquisas sobre a objetivação do diagnóstico psiquiátrico. Os resultados desta pesquisa culminaram no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais III (DSM-III) em 1980. Tive o privilégio de trabalhar neste projeto (American Psychiatric Association, 1980, p. 481). O DSM-III removeu a mitologia freudiana da nomenclatura diagnóstica e proibiu um diagnosticador de saltar para um diagnóstico baseado em um único sintoma, como alucinações. Mais importante, reconheceu que a experiência religiosa não era em si mesma patológica; em outras palavras, agora estava tudo bem Deus falar com você!

H. O início da pesquisa sobre a experiência de quase morte

Em 1975, Raymond Moody publicou Life After Life e cunhou o termo “experiência de quase morte”. Imediatamente após esta publicação, uma pesquisa séria sobre a EQM começou. A International Association for Near-Death Studies (IANDS) foi fundada em novembro de 1977 por Raymond Moody, Kenneth Ring, Bruce Greyson, Michael Sabom, John Audette e alguns outros (International Association for Near-Death Studies, 2009). A pesquisa sobre a EQM captou rapidamente a atenção do público, ofuscando todas as outras experiências transpessoais. Essa conclusão é evidenciada pelo grande volume de pesquisas sobre EQM (Holden, Greyson e James, 2009, pp. 1-10). Os destaques de pesquisas sérias sobre EQMs incluem a primeira análise objetiva de Ring das características de EQM (1980). Pouco tempo depois, Sabom (1982) realizou o primeiro estudo prospectivo sobre a EQM. Ring e Sharon Cooper pesquisaram recentemente o que os cegos “vêem” quando têm uma EQM (Ring & Valarino, 1998, pp. 73-95). Mais recentemente, Jeffery Long e Paul Perry (2010) publicaram uma análise de 613 casos do site da Near-Death Experience Research Foundation (NDERF) de Jeff e Jody Long. Uma área frutífera de pesquisa tem sido sobre os efeitos posteriores das EQMs e outras experiências transpessoais. Resumidamente, os efeitos são extremamente positivos e mudam a vida, e não desaparecem com o tempo (Hay, 1987, pp. 153-167; Ring & Valarino 1998, pp. 123-144).

I. Teorias científicas tentam explicar experiências de quase morte

À medida que foram levantadas questões sobre a EQM e suas características, pesquisas científicas tentaram lidar com elas. Por exemplo, quando a imprensa afirmou consistentemente que todas as EQMs eram experiências prazerosas dominadas por sentimentos como paz, amor e alegria, Greyson e Nancy Evans Bush (1992), em seu artigo “Experiências Distressantes de Quase Morte”, contra-atacaram com sua análise. de experiências dominadas por sentimentos como isolamento, tormento ou culpa. Quando o astrônomo Carl Sagan, atuando como psicanalista de poltrona, afirmou que as EQMs eram apenas pessoas revivendo suas experiências de nascimento, sua “teoria” logo foi refutada em um artigo de Carl Becker que incluía dados não apenas sobre a fisiologia do recém-nascido, mas também a falta de semelhança entre as características da EQM e do nascimento (Becker, 1982). Em um estudo de Susan Blackmore (1983) intitulado “Nascimento e EFC”, ela não encontrou diferença nos relatos de passagem por um túnel como transição para outra realidade para pessoas nascidas por cesariana ou de parto vaginal. Finalmente, embora a maioria das EQMs seja prazerosa, o processo de nascimento é amplamente reconhecido como traumático. Em toda a história registrada, diz-se que apenas uma pessoa riu em vez de chorar ao nascer Zoroastro (Vincent, 1999, p. 3). Sagan não foi o único cético em relação à EQM, mas seu caso ilustra que, quando são levantadas questões, segue-se a investigação científica. “Modelos explicativos para experiências de quase morte” de Greyson, Kelly e Kelly (2009, pp. 213-234) fornece uma excelente visão geral de pesquisas que apoiam e refutam afirmações sobre as origens das EQMs.

J. Induzindo Experiências Transpessoais

Michael Persinger ofereceu mais do que teorias sobre a EQM e outros fenômenos transpessoais (Kelly, Greyson e Kelly, 2007, pp. 382-383). Usando estimulação eletromagnética, ele tentou criar fenômenos do tipo EQM em laboratório, e alguns de seus sujeitos relataram fragmentos de fenômenos semelhantes à EQM e outras experiências transpessoais, bem como fenômenos estranhos, como tontura e formigamento (Greyson, 2000, página 335). No entanto, um estudo escandinavo recente não conseguiu replicar suas descobertas (Keller, 2005). Com base na pesquisa de Persinger, seu aluno, Todd Murphy (2006), começou a comercializar dispositivos eletrônicos para aprimorar experiências meditativas. Se experiências transpessoais pudessem ser induzidas com segurança em laboratório usando estimulação elétrica, essa habilidade cumpriria o antigo sonho de dar a todos uma experiência mística, mudar as pessoas para melhor e trazer uma “nova era”? Em outra nota, Persinger expressou a crença de que sua pesquisa demonstra que a EQM e outras experiências transpessoais estão localizadas no cérebro (Kelly, Greyson e Kelly, 2007, pp. 382-384). No entanto, a estimulação cerebral pode ser interpretada como “limpando as portas da percepção” e levando à iluminação (Kelly, 2007, pp. 603-607).

Desde os tempos antigos, as pessoas tentam induzir experiências transpessoais. No mundo antigo, as pessoas usavam a iniciação nos “mistérios” (Meyer, 1987, pp. 3-13). Sobre a indução aos Mistérios de Ísis, Apuleio deu um relato que é com toda probabilidade autobiográfico:

 “Eu me aproximei dos limites da morte. Trilhei o limiar da Prosperina: e nasci através dos elementos voltei. À meia-noite eu vi o sol brilhando em toda a sua glória. Aproximei-me dos deuses abaixo e dos deuses acima, fiquei ao lado deles e os venerei.” (Meyer, 1989, p. 199).

Ele passou a afirmar que não poderia revelar mais porque era um mistério! Os historiadores não estabeleceram qual porcentagem de pessoas foram capazes de ter uma experiência transpessoal induzida no mundo antigo. Os métodos dos antigos também não são conhecidos, mas a ideia de que eles possuíam tal conhecimento continua a ser intrigante (Ring, 1986).

Em uma tentativa de indução, Moody inventou o psychomanteum para facilitar as CPMs de maneira não intrusiva. Usando um espelho levemente inclinado, pouca luz, uma cadeira macia e um quarto escuro, Moody foi capaz de criar a condição para cerca de metade de seus sujeitos experimentarem visitas de seus entes queridos mortos (Moody & Perry, 1993). Este experimento foi replicado várias vezes (Hastings et al., 2002; Roll, 2004). Não estou sozinho entre meus colegas ao sentir que essa necromancia moderna não está isenta de riscos. Se essas visões são realmente reais, como observou Moody (1993, p. 112), as pessoas que aparecem podem não ser as esperadas; se as aparições são produtos da mente inconsciente do sujeito, provavelmente é melhor deixá-las em paz.

K. Religião e Experiências de Quase Morte

Isso nos leva a outro aspecto da pesquisa de EQM: religião e EQMs. Fox (2003, pp. 55-97) viu um silêncio ensurdecedor entre os teólogos, que geralmente não abordaram o tema. Essa omissão parece ser verdadeira para os teólogos do cristianismo, bem como para outras religiões. No entanto, Judith Cressy (1994), uma ministra e conselheira pastoral com doutorado, escreveu ligando as semelhanças entre EQMs e misticismo. O teólogo cristão liberal Marcus Borg (1997, pp. 37-44, 171) apoiou a validade das experiências transpessoais; ele também expressou um otimismo hesitante sobre a validade das EQMs. John Hick, o maior teólogo cristão universalista/pluralista do mundo, é um endossante entusiasta de experiências transpessoais e esperançoso quanto à veracidade das EQMs (Hick, 1999). O teólogo canadense Tom Harpur também abordou como vários aspectos das EQMs se relacionam com o cristianismo em geral, com seitas cristãs específicas e com a religião mundial. Ele concluiu seu livro Life After Death (1991) com uma forte declaração relacionando as EQMs à teologia cristã universalista.

Fora do cristianismo, o endosso para a relevância das EQMs para a religião é escasso. Alguns anos atrás, eu estava assistindo a um programa de televisão no qual perguntaram ao Dalai Lama como as EQMs afetaram sua crença na reencarnação. Ele respondeu que as EQMs refletem o estado “Bardo” – na teologia budista, o estado intermediário entre a morte e o renascimento. Recentemente, o padre zoroastrista Kersey Antia (2005) escreveu sobre o zoroastrismo, EQMs e outras experiências transpessoais. Escritores sobre religião comparada também escreveram sobre a EQM. Zalesky’s (1987) Other World Journeys: Accounts of Near-Death Experience in Medieval and Modern Times, Farnaz Masumian’s (1995) Life After Death: A Study of The Afterlife in World Religions, e Gracia Fay Ellwood’s (2001) The Uttermost Deep são bons exemplos de livros sobre EQMs e religião comparada. Recentemente, Gregory Shushan (2009) examinou cinco civilizações antigas e culturalmente independentes e concluiu que os elementos centrais de suas crenças sobre a vida após a morte são semelhantes aos das EQMs. Ele afirmou:

“Em última análise, este estudo aponta para um tipo de ‘realidade’ experiencial única, que pode ou não indicar uma única realidade transcendental” (Shushan, 2009, p. 199).

Warren Jefferson (2008) escreveu sobre as EQMs de índios norte-americanos e documentou que muitos de seus relatos de vida após a morte incluem experiências de reencarnação. Finalmente, Marianne Rankin (2008) escreveu uma excelente visão geral das experiências transpessoais, incluindo EQMs, intitulada Uma Introdução à Experiência Religiosa e Espiritual. Este trabalho abrange experiências em religiões do mundo, antigas e modernas, orientais e ocidentais.

Já discuti a maravilhosa comparação de Osis e Haraldsson (1977) entre americanos que eram principalmente cristãos e indianos orientais que eram principalmente hindus, mas ambos os autores eram psicólogos e não teólogos. Alguns pesquisadores de EQM, inclusive eu, não têm medo de vincular os resultados da pesquisa de EQM com suas crenças religiosas. Esses autores incluem os cristãos conservadores Maurice Rawlings (1978) e Michael Sabom (1998), o cristão mórmon Craig Lundahl (1981) e os cristãos universalistas Ken Vincent (2003, 2005) e Kevin Williams (2002).

6. Conclusão

A busca por Deus e vida após a morte na Era da Ciência destaca um aspecto negligenciado do chamado conflito entre religião e ciência. Nos últimos 150 anos, cientistas sociais e biomédicos pesquisaram a própria natureza da religião usando todas as ferramentas disponíveis para a ciência moderna. EQMs e outras experiências transpessoais podem e são investigadas da mesma forma que todos os outros fenômenos psicológicos são investigados. A validade dessas experiências é baseada em várias fontes de dados, incluindo:
Estudos de caso de experiência transpessoal (Bucke, 1901/1931, pp. 9-11, 287-289, 357-359; Guggenheim & Guggenheim, 1996; Maxwell & Schudin, 1990; Wiebe, 1997, pp. 40-88; 2000, págs. 119-141).
Pesquisas sociológicas que revelam quem e qual porcentagem da população tem EQMs e outras experiências transpessoais (Argyle, 2000, p. 56; Wood 1989, p. 856).
Instrumentos de avaliação psicológica que medem não apenas a saúde mental do indivíduo, mas também avaliam a profundidade das experiências místicas (Hood, 2001; Hood, Spilka, Hunsberger, & Gorsuch, 1996, pp. 183-272).
Testes biomédicos e de neurociência, incluindo o EEG, PET-scan e ressonância magnética funcional para, em alguns casos, documentar estados alterados genuínos de consciência e demonstrar que as experiências transpessoais não são apenas desejos (Hood et al., 1996, pp. 193-193- 196; Newberg, D’Aquili, & Rause, 2001; Wulff, 1997, pp. 169-188), e EEGs e ECGs que permitem a documentação do processo de morrer em EQMs que ocorrem em hospitais.
Investigações sociológicas e psicológicas que avaliam os efeitos posteriores que essas experiências têm nas pessoas (Greyson, 2000, pp. 319-320; 345; Hick, 1999, pp. 163-170; Hood et al., 1996, pp. 410-411). ).
Pesquisa experimental controlada, como o experimento de Walter Pahnke sobre os efeitos dos psicodélicos (Argyle, 2000, pp. 64-66; Smith, 2000, pp. 199-205).
Na minha opinião, embora a EQM e outras experiências transpessoais não provem a existência de um Deus pessoal e vida após a morte, eles definitivamente apontam para isso. A pesquisa até o momento documenta o fato de que: Uma grande porcentagem da população experimentou EQMs e outras experiências transpessoais. A esmagadora maioria daqueles que têm EQMs e outras experiências transpessoais são mentalmente saudáveis ​​e não psicóticos. EQMs e outras experiências transpessoais mudam a vida das pessoas para melhor. Parece também que as EQMs e outras experiências transpessoais representam realidades fenomenológicas na origem de praticamente todas as principais religiões do mundo.

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A todos seguidores, visitantes e amigos

Praia da Nazaré, vista do Sítio, com horizonte de luz e gaivotas

Muito estimados seguidores, visitantes e amigos

A continuidade de publicações tem tido uma pausa que não significa desinteresse nem falta de atenção nem da Vossa parte nem da nossa.

Informamos que estamos (eu e minha esposa) profundamente empenhados no estudo e tradução das obras de Allan Kardec.

Há uma simpática e valiosa instituição espírita que fez o favor de solicitar os nossos serviços de tradutores e amigos, e estamos a prosseguir um tratamento muito atento do texto de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, para que apareça, logo que possível, disponível para os leitores de português de Portugal.

Entretanto temos à Vossa disposição as traduções de “O Livro dos Espíritos” e de “O Livro dos Médiuns”. 

A leitura paciente e metódica das obras de Allan Kardec deve ser um hábito de todos os interessados pelo estudo do decurso e da continuação da vida, fenómeno que faz de todos nós entidades privilegiadíssimas no contexto da prodigiosa CRIAÇÃO.

Só o estudo atento da continuidade da VIDA nos sucessivos episódios da sua esplendorosa EVOLUÇÂO pode conferir sentido profundo e riquíssimo de toda a sequência diária das existências.

A leitura continuada e muito atenta de todas as obras de Allan Kardec, apesar da sua relativa antiguidade, fornece-nos palavra por palavra, linha a linha e página a página, conhecimentos importantíssimos muito úteis para compreender com muito entusiasmo o fenómeno das nossas vidas, a riqueza da nossa convivência solidária e qualificada com todos os nossos semelhantes, a caminho da paz, da solidariedade activa e da inteligência criativa que só a civilização espiritualizada e caridosa pode permitir.

As nossas melhores saudações a todos

INSCREVAM-SE COMO SEGUIDORES, PARTILHEM AS NOSSAS PUBLICAÇÕES, RECOMENDEM AS NOSSAS TRADUÇÕES E SEJAM MUITO FELIZES NO DIA A DIA, COM TODO O OPTIMISMO, CONFIANÇA NO FUTURO E ALEGRIA DE VIVER!…

E VIVA DEUS!…

Painel de azulejos presente na capelinha do mirante no Sítio da Nazaré.

Apresentação do Cercle Spirite Allan Kardec, de Nancy / França

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Há já muitos anos que visitamos o site do Cercle Spirite Allan Kardec, que conhecemos os seus principais expoentes e a sua extraordinária tarefa em favor da cultura espírita.
Lemos livros que estão publicitados na sua livraria, muitos textos publicados na internet, nos diversos sites que tem em França e no seu forum e sobretudo, temos tido a possibilidade de acompanhar a imensa riqueza que vem sendo publicada há vários anos no seu Journal Spirite.
É costume ouvir dizer que o espiritismo decaiu em França desde o falecimento de Allan Kardec, sendo de lamentar o facto que tenham sido exatamente os seus compatriotas que deixaram esquecer o seu precioso património de conhecimentos e de ideias.
No que nos diz respeito, consideramos que em França – sem desprimor para outras entidades igualmente ativas na divulgação e no estudo do espiritismo – o profundo conhecimento dessa cultura e dessa atitude do intelecto e do conhecimento humanos estão magnificamente representados pelo Cercle Spirite Allan Kardec.
O que se passa é que em França, como em muitos outros países, determinantes insondáveis relacionadas com o próprio desenvolvimento das pessoas, muitos fatores se têm conjugado para que a Humanidade permaneça distante do interesse ativo e esclarecido de fenómenos que nos determinam de forma transcendentemente complexa.
A atenção, apreciação e o estudo de todo o imenso saber e de toda a dinâmica de intervenção cultural que caracterizam o Cercle Spirite Allan Kardec pode abrir, a todos nós, uma nova e extraordinária perspetiva da vida e do mundo, isto é, da magnífica transcendência da natureza, da origem e do destino de toda a criação.

Teríamos muitíssimo gosto em poder apresentar todo este manancial traduzido em português. De todo o trabalho que aqui temos apresentado constam trabalhos importantes, originalmente escritos noutras línguas estrangeiras. Mas essa tarefa, pela sua extensão, ser-nos-ia impossível de realizar. Confiamos mesmo assim que o francês, por ser uma língua que nos é muito próxima pelas suas origens e pelo seu desenvolvimento cultural, seja do conhecimento de um vasto número dos nossos visitantes de língua portuguesa.

Le Cercle Spirite Allan Kardec

http://www.spiritisme.com/

A la rencontre des espritsLes premières séances spirites qui furent à l’origine du cercle remontent à 1974. L’association fut créée en 1977 à Nancy sous l’appellation « Cercle Spirite Allan Kardec ». Elle s’est donnée pour buts, d’une part, de poursuivre les expériences de communications avec les esprits, et d’autre part, de promouvoir une large diffusion de la pensée spirite.

Après plusieurs décennies de dérives religieuses, ésotériques et commerciales du spiritisme en France, le cercle assure un renouveau, dans le sens philosophique et non religieux d’une actualisation indispensable face aux avancées de la science et aux transformations de la société.

Un cercle spirite est une structure appropriée dans laquelle les médiums peuvent exercer et développer leurs facultés en toute sérénité, en évitant les écueils et les dangers inhérents à une pratique empirique et hasardeuse. La communication avec l’au-delà fait intervenir plusieurs types de médiumnités qui sont pratiquées dans notre cercle : l’incorporation, l’écriture automatique, les médiumnités artistiques (peinture, sculpture, musique), le oui ja et le sommeil magnétique.

Sont développées d’autres facultés, non médiumniques comme la clairvoyance, la psychométrie, la psychokinèse, la radiesthésie, l’hypnose et le magnétisme.

Le cercle compte plus de 50 magnétiseurs ; certains d’entre eux sont responsables des cellules de soins magnétiques ouvertes au public, dans les villes où le cercle est représenté : Nancy, Paris, Besançon, Belfort, Montpellier, Toulouse et Lyon. L’association compte des adhérents à part entière, des membres sympathisants et des abonnés à la revue trimestrielle Le Journal Spirite.

 

Esta apresentação está substancialmente desenvolvida em duas notícias publicadas noutra das nossas páginas dedicadas à cultura espírita:

Cercle Spirite ALLAN KARDEC – Nancy / França
A magnífica revista do CENTRE SPIRITE ALLAN KARDEC

 

 

Uma epidemia nova num tempo diferente

A Humanidade já foi numerosas vezes atacada por epidemias, terríveis ameaças à vida de muitas pessoas. As mesmas dificuldades, o medo e o desespero visitam-nos mais uma vez, mas de uma maneira nova e diferente.
Entretanto, os efeitos da doença em si, a nível global, não são de proporções muito elevadas perante gravíssimos problemas aos quais a sociedade continua indiferente.
O número das pessoas que diariamente são vítimas da FOME por todo o mundo é LARGAMENTE MAIS ELEVADO que o número de vítimas desta epidemia.
Com a diferença de que as grandes fomes e as carências de justiça e fraternidade são de todos os tempos e têm podido sobreviver a todas as epidemias.
O número de pessoas transtornadas e feridas por tudo o que há de mau na GUERRA e nos seus múltiplos sucedâneos, É MUITO MAIS GRAVE E DOLOROSO que todo o desarranjo causado por esta epidemia.
As vítimas da FOME e da GUERRA, fazem parte duma naturalidade aparente e estão reduzidas ao silêncio. Estão longe, ninguém as vê.

O que tem de diferente a nova epidemia é estar a desenvolver-se muito perto das pessoas que sabem ler e ocupam lugares confortáveis nas chamadas “civilizações Ocidentais” (com maiúscula!).
Entretanto, só tem aparecido como enormemente diferente, porque tem a possibilidade evidente de transtornar radicalmente o sistema económico da maioria dos países do mundo.
Caiu sobre nós de um instante para o outro e já encerrou um número incontável de empresas e lançou grande número de trabalhadores no desespero da falta imediata de recursos, em sociedades nas quais a capacidade de sobrevivência sem dinheiro é praticamente nula.
Nas ruas e lugares frondosos dos países civilizados não estão plantadas bananeiras às quais possamos subir, para colher grátis um cacho de bananas, que possamos comer durante uma semana, como acontecia em grandes áreas do mundo, em que a vida das pessoas pôde continuar com grande escassez de meios.

NO SISTEMA ECONÓMICO E NO DINHEIRO, AÍ SIM, É QUE RESIDE A ALMA AFLITA DESTA CRISE.

Visitem por favor as estatísticas das vitimas das principais guerras por todo o mundo e comparem. Façam o mesmo em relação com o número aproximado dos que passam e morrem de fome no mundo inteiro, e verão onde quero chegar.
Uma pobre mulher vestida de negro, falando algures num país devastado pela guerra, dizia num noticiário que, se a morte lhe chegasse pelo vírus, seria bom, porque poderia finalmente descansar desta vida.
O vírus desta epidemia, contudo, parece ter a ductilidade suficiente para não matar só mulheres de negro em países onde persiste a angústia de crónicas rebeliões armadas.
Por isso é tão temido no Ocidente (com maiúscula…) onde ninguém esperava por uma coisa assim.
Vou continuar a falar aqui da vida depois da morte, na paz de espírito dos cidadãos sem história que não fazem noticiários, mas olham sem medo o mundo inquieto.
Esperamos com paciência e fé que os homens, de uma vez por todas, resolvam dar-se as mãos, construindo a verdade e a justiça em paz, num mundo de igualdade e de confiança.
Nesse, mesmo que apareçam epidemias, tudo deverá ser muito mais fácil de resolver. Por existirem vacinas muito boas?
Não. Porque haverá fraternidade para tratar toda a gente com o mesmo amor diligente que une aqueles que são da mesma casa e da mesma família.

Conclusão:
É sabido que uma pequena percentagem dos orçamentos militares do mundo poderia irradicar a pobreza e resolver outros problemas centrais das sociedades humanas, caso houvesse vontade e coragem para tomar essa decisão.
Pensemos agora o que seria possível fazer deste planeta e de todas as suas populações se fosse possível acabar com a corrida aos armamentos e se se utilizassem todos esses milionários orçamentos em benefício do bem estar, da cultura e  da educação, em benefício da paz e do progresso moral da Humanidade!…

 

Autor: CB

“…navegar é solitário e cansa-se o navegante à medida do silêncio
da esperança do mar
do ardor da viagem
não se cansa não”

Wilson Garcia, as federações e o movimento espírita

As Federações e o seu Papel no Movimento Espírita

Escolhemos das nossas pesquisas na Internet um artigo escrito por Wilson Garcia, importante estudioso e autor espírita com vasta obra feita e muitíssimo conhecido no Brasil, que no trabalho a seguir inserido apresenta o problema muito sério do papel que as federações desempenharam, e desempenham ainda, no movimento espírita. Já nos interessaria muito se fosse só isso, mas a sua publicação aqui tem o intuito de levar até junto dos leitores portugueses ideias bem claras e documentadas a respeito da história do espiritismo no Brasil.

Tendo a Federação Espírita Portuguesa ao que nos parece, pelas mais do que evidentes aparências, posicionamentos estratégicos francamente coincidentes com os da FEB, embora nunca tenha inserido nos seus estatutos a divulgação organizada e sistemática da mensagem roustainguista,
julgamos muito importante o retrato bastante realista que nos apresenta Wilson Garcia, para podermos avaliar o que tais afinidades poderão significar para o espiritismo em Portugal.
O trabalho em questão foi enviado ao “Portal do Espírito”
por Wilson Garcia em 30/12/2015

 

As Federações e seu Papel no Movimento Espírita

Enviado em 30/12/2015 | Escrito por Wilson Garcia

As Federações e seu Papel no Movimento Espírita

Wilson Garcia

Embora nem sempre perguntem objetivamente, está no interesse dos dirigentes espíritas saber, sobre as entidades federativas do movimento espírita, as seguintes questões: como elas surgiram? Por que foram criadas? Qual o seu verdadeiro papel no movimento espírita? A resposta a estas questões é a chave para o relacionamento entre centro espírita e federativas.

O estudo da História do Espiritismo, como de qualquer ramo do conhecimento humano, é de vital importância para a compreensão doutrinária. Nele estão inseridos o homem e sua atuação, os princípios e seu surgimento, a realidade cultural e social, enfim, elementos que explicam os fatos e facilitam o seu entendimento. Muitos dos acontecimentos que às vezes parecem obscuros ou não apresentam explicações claras podem ser resolvidos à luz da história.

Em razão disso, vamos fazer um retrospecto no tempo, para buscar as raízes do movimento espírita brasileiro e, assim, poder compreender com maiores detalhes esta árvore que hoje abriga a milhões de pessoas, principalmente no Brasil. É preciso esclarecer que não pretendemos, neste estudo, entrar nas minúcias de todos os fatos, pela impossibilidade que isto significaria aqui. Vamos passar em revista alguns acontecimentos importantes, analisar os personagens neles envolvidos e sacar daí razões que possam beneficiar o nosso trabalho dentro das casas espíritas.

É preciso, também, esclarecer que vamos apresentar fatos que muitas vezes chocam com aquilo que gostaríamos de ver. Nós não criamos estes fatos, antes, eles existiram e falam por si: são, portanto, críticos. Com isto, não temos intenção de agredir aqui e ali, muito menos temos interesse de diminuir esta ou aquela instituição. Os fatos, vistos por seu prisma verdadeiro, por mais chocantes que sejam, sempre possibilitam a melhoria do conhecimento doutrinário e de sua prática no centro espírita. Pior acontece com aqueles que, colocados em postos de comando, não querem saber dos acontecimentos: preferem ignorar o passado, como se o presente não fosse o resultado da ação do homem.

Desconhecer o passado pode significar, quando pouco, a má concretização do ideal doutrinário e, na melhor das hipóteses, a sua prática imperfeita, incompleta ou deficiente.

As raízes do movimento espírita brasileiro

Não se pode precisar, com segurança, quando e de que modo a Doutrina Espírita aportou no Brasil. A coisa mais correta a esse respeito talvez seja mesmo o verbo aportar: o Espiritismo aqui chegou, sem dúvida, viajando de navio, na segunda metade do século passado. Imperava no país, principalmente na Corte, a influência da cultura francesa. Tudo o que vinha de Paris era considerado de classe superior. A música, a literatura e o teatro. O Espiritismo, codificado a partir do trabalho de Kardec, era também um dileto filho francês. Deu-lhe bem cedo boas vindas a intelectualidade cabocla.

A cultura indígena estava praticamente abafada. A Igreja Católica espalhara seus tentáculos por todas as partes. Os negros caminhavam para a consolidação do sincretismo de suas crenças com os ídolos católicos. Várias entidades espirituais africanas estavam perfeitamente identificadas com os santos romanos e a essência da religião negra, inclusive seus cultos através do comportamento mediúnico e da crença reencarnacionista, corriam então menor risco. Houve, sem dúvida, uma certa cumplicidade do clero com a manutenção das concepções e práticas negras, uma espécie de acordo mudo com o senhorio, de tal forma que as três partes envolvidas pudessem de alguma forma manterem-se vivas.

Foi nesse ambiente que o Espiritismo se estabeleceu: chegou, convenceu, criou fama, foi fortemente combatido, sofreu influências, permaneceu e alcançou os dias atuais. O primeiro dado conclusivo que se pode tirar é esse: o Espiritismo chegou ao Brasil pelas portas da intelectualidade e com o aval do berço francês. Só mais tarde ele alcançaria as classes mais baixas da escala social, até fixar-se como uma doutrina da classe média brasileira.

Engana-se quem imagina que os fatos espíritas só aconteceram a partir da vinda da doutrina. Absolutamente. Antes mesmo de aqui chegar o primeiro passageiro com O Livro dos Espíritos na mala, já muitos acontecimentos chamados fenômenos mediúnicos ocorriam em locais isolados, muitos deles freqüentados por criaturas dispostas a tirar conclusões sérias.

Parte da intelectualidade assumida apresenta dois aspectos conflitantes: é arrojada, de um lado, e presunçosa, de outro. Para muitos daqueles que retornariam da Europa tocados pelo pensamento kardequiano pouco se lhes dava se o clero se opunha a esse pensamento. Eis aí a demonstração de arrojo. De outra parte, essa intelectualidade não titubearia em criar apêndices para o pensamento kardecista, na presunção de possuir poder para tal. Essa ousadia precoce não demoraria a trazer certos desentendimentos para o coração da nova ordem de sociedade que viria a ser formada. Mais tarde, fato semelhante vai ocorrer com a popularização da doutrina: a classe menos esclarecida, em virtude de suas concepções religiosas e de seus preconceitos, acaba por mesclar a prática doutrinária com ídolos e comportamentos totalmente contrários aos princípios kardecistas. Atualmente, um dos pontos de maior debate reside exatamente neste aspecto.

Se a origem francesa era como que um passaporte para a entrada no país de tudo o que nossos navios traziam, é certo que muito daquilo que vinha de além mar não correspondia à fama. Pouco depois de Kardec, aqui chegou a doutrina de Roustaing, envolvida da mesma aura novidadesca. O pensamento do Codificador a seu respeito não veio junto, sequer poderia ser conhecido. Mais tarde foi até posto de lado. Bem ou mal, Roustaing se estabeleceu e já na chegada instaurou discórdias, sendo com toda certeza a primeira grande divergência do movimento espírita brasileiro. Esta é a segunda conclusão a que se chega. A divergência é tão profunda que vai ultrapassar os tempos, alcançando os dias atuais.

É importante relatar estes fatos porque eles vão influir decisivamente nos destinos do movimento espírita nacional, desde as instituições primeiras que aqui se formaram até os mais letrados pensadores da doutrina dos nossos dias. A Federação Espírita Brasileira, por exemplo, fundada em 1884, acabará se constituindo no principal reduto do pensamento roustanista. Seu Estatuto vai chegar ao ponto de estabelecer como condição “sine qua non” para o associado ascender a cargos diretivos, a sua crença na doutrina de Roustaing.

Esse tipo de posicionamento, em defesa de teses discutíveis, se encontra na liberdade doutrinária um ponto de apoio, de outra parte acaba sendo fator de enfraquecimento da instituição perante o próprio movimento – atualmente há as Federações estaduais a favor de Roustaing e aquelas que não o aceitam. Em alguns outros aspectos, fatos semelhantes acontecerão.

O aparecimento das Federações

No ano de 1884, no Rio de Janeiro, capital da República, sede da cultura nacional, centro de todas as atenções do país, aparecia a Federação Espírita Brasileira, criada a partir do desejo de alguns espíritas cariocas de unir fraternalmente as sociedades espíritas, entre eles o fotógrafo Augusto Elias da Silva, que no ano anterior havia fundado a revista “Reformador”, a qual passou a ser órgão da própria Federação, desde então.

Antes da Federação, várias dissidências haviam sido registradas no principiante movimento espírita brasileiro. O primeiro agrupamento espírita juridicamente legalizado no Brasil, de que se tem notícia, foi o Grupo Confucius, criado no Rio de Janeiro em 1873. Durou pouco: menos de três anos.

Problemas internos levaram ao seu fracasso. Depois foram surgindo outras: Sociedade de Estudos Deus, Cristo e Caridade, Sociedade Espírita Fraternidade, União Espírita do Brasil etc.

Por um bom período, duas instituições desenvolveram atividades paralelas de filiação de entidades espíritas: a União Espírita do Brasil e a Federação Espírita Brasileira. Ambas no Rio de Janeiro. Por fim, e não sem muitos traumas, venceu a Federação. Recorde-se que ao nascer, tanto a União Espírita do Brasil (1882) quanto a Federação Espírita Brasileira (1884) tinham por finalidade reunir debaixo de uma só bandeira os centros e sociedades espíritas do país. Só mais tarde, já neste século, estando a Federação consolidada do ponto de vista político e econômico, é que ela vai se dedicar ao trabalho junto às Federações estaduais. Note-se, ainda, o detalhe: a Federação não surgira do interesse de organização dos centros existentes, mas do desejo de alguns espíritas, individualmente, saídos da divergência de outros grupos e que se reuniam na residência de Augusto Elias da Silva. As lutas internas no incipiente movimento espírita de então, sempre em busca de supremacia de um grupo sobre outro, fez com que o ideal de união das sociedades espíritas permanecesse letra morta por um longo período. A Federação, já com Bezerra de Menezes à frente, não se entendia com o Grupo da Fraternidade, nem com a União Espírita do Brasil e assim por diante. Eis que Frederico Júnior, na Fraternidade, recebe uma mensagem de Allan Kardec, intitulada “Instruções aos Espíritas do Brasil” (ver transcrição ao final deste texto), que provoca grandes discussões no movimento. Sob o comando de Bezerra, resolveu-se fundar uma nova sociedade, com incumbência federativa, tendo o apoio da Federação e outros grupos, exemplo esse que será mais tarde repetido em São Paulo, na fundação da USE. Durou pouco a nova instituição. Ficou Bezerra nela abandonado.

Passaram-se os anos. Em 1903, no Rio de Janeiro, a Federação Espírita Brasileira resolve comemorar o centenário de nascimento de Allan Kardec, organizando um programa de três dias.

Convida as sociedades espíritas do Brasil para estarem presentes. Na qualidade de Federação estadual então existente, apenas a do Amazonas comparece, na pessoa de representantes nomeados. De São Paulo, participou o português Antônio Gonçalves da Silva “Batuíra”, figura exemplar e que dirigiu na época o maior agrupamento espírita do Estado, juntamente com o jornal “Verdade e Luz”, por ele fundado.

Uma decisão tomada então vai ter importância decisiva nos destinos do movimento espírita brasileiro: ficou decidido que se fariam esforços para a fundação de federações estaduais nos “moldes da Federação Espírita Brasileira”. Isso significa que os fatores positivos e negativos da Federação passariam para as que fossem fundadas, inclusive a questão polêmica do roustanismo. Foi o que se deu. Além disso, prosseguiria o sistema de fundar federações através de gestões individuais e não coletivas.

Atualmente, temos no Brasil as federações que aceitam Roustaing e aquelas que não o aceitam.

Criadas para unir o movimento, as Federações não cumprem seu papel

Grande parte das dissenções iniciais, em relação a organismos como a Federação Espírita Brasileira, era resultado da luta pelo poder. Esta questão permanece nos dias atuais, mas já não se constitui em aspecto principal. Vencida esta etapa, à medida em que a consciência dos dirigentes espíritas se abria para a importância da unificação, passou-se a cobrar das federações uma atuação mais precisa.

Assim, em princípios da década de 30, vozes se levantavam de várias partes do país, principalmente das regiões Sul-Sudeste, clamando por uma presença eficaz da Federação Espírita Brasileira junto ao movimento. A Federação havia praticamente abandonado os seus deveres junto a este movimento, preocupando-se acima de tudo com questões de sua própria sobrevivência.

Postada no pedestal de Casa Máter, os dirigentes da Federação não davam ouvidos às reclamações, até que se iniciou um movimento contrário, que aos poucos foi tomando forças e acabou desembocando na realização de uma Assembléia Nacional Constituinte, no Rio de Janeiro, em 1926, voltada para a organização do movimento espírita brasileiro, fundando-se na ocasião a Liga Espírita do Brasil.

A notícia da realização próxima daquele evento fez os diretores da Federação saírem da inércia. Em oposição à Constituinte, ela convocou uma reunião para o mesmo ano e na mesma cidade, onde compareceram representantes de instituições espíritas, ocorrendo assim, a primeira reunião do Conselho Federativo, onde se propôs a dinamização do movimento espírita nacional. A Federação tratou de cooptar os principais elementos que levaram avante a Constituinte e por sua influência a Liga Espírita modificou seus objetivos iniciais, entregando-se às diretrizes da Federação e, mais tarde, transformando-se na entidade federativa estadual do Rio de Janeiro. Estava vencida, assim, mais uma etapa na vida da Federação e podia ela, mais uma vez, respirar aliviada.

Amainados os ânimos, rendidas as resistências, não tardou a Federação a retornar ao estado de inércia anterior, no que diz respeito à direção do movimento espírita brasileiro. O aparecimento do médium Chico Xavier e seu primeiro livro, Parnaso de Além Túmulo, constitui para a Federação uma razão mais forte de atuação: a área do livro, que ela já vinha desenvolvendo a duras penas há vários anos, recebe uma injeção forte. É onde ela concentra suas energias.

A maioria das Federações estaduais seguem-lhe os passos, no que diz respeito ao movimento regional, ou seja, quase nada realizam em prol dos centros filiados, apesar do número restrito destes. Falta-lhes uma visão real daquilo que deveriam realizar. Suas atividades se restringem a reuniões de diretoria, onde boa parte dos diretores quase nunca aparecem, e à luta para pagar aluguéis e outras despesas de sobrevivência. Vale observar que as diretorias destas federações eram compostas quase sempre por pessoas de nome na sociedade, mas cujo verdadeiro ideal espírita ainda não as havia alcançado.

Portanto, elas davam mais atenção aos seus compromissos sociais e profissionais do que ao comparecimento na instituição.

Em São Paulo, o dinamismo não impede a ocorrência de velhas deficiências

A doutrina cedo alcançou São Paulo. E não tardaram a surgir figuras de proa, tomando para si a tarefa de sua divulgação. Uma delas foi um português autodidata, amigo dos estudante da famosa Faculdade de Direito do Largo São Francisco, veloz nas pernas e no pensamento. Seu nome: Antônio Gonçalves da Silva. O apelido: Batuíra. Depois dele, inúmeros outros marcariam o movimento espírita bandeirante. Não se sabe até que ponto as decisões tomadas em 1903, no Rio de Janeiro, se materializaram em São Paulo. Em 1916, surgiu uma estranha instituição, fundada por outro português, Antônio José Trindade, com o nome de Sinagoga Espírita São Pedro e São Paulo. Dois anos após, passa a chamar-se Sinagoga Espírita Nova Jerusalém, em virtude de uma cisão interna, que separou os seus diretores. E após ela, a Liga Espírita, a União Federativa e a Federação Espírita do Estado de São Paulo (Feesp).

É curiosa a história da Feesp. Em 1926, dirigia a revista Verdade e Luz, sucessora do jornal Verdade e Luz, fundado por Batuíra, o dr. Lameira de Andrade. Motivado pelo movimento da Constituinte Espírita e vendo o Espiritismo em São Paulo padecendo dos mesmos males do brasileiro, Lameira resolve, com o apoio de alguns dirigentes de centros espíritas, fundar na capital a Federação Espírita do Estado de São Paulo, o que de fato consegue. Mas, durou pouco esta primeira Feesp, assim como pouco duraria a Liga Espírita do Brasil, consoante os princípios em que fora criada.

As razões desse desaparecimento estão ainda por serem devidamente apuradas. Sabe-se, entretanto, que Lameira de Andrade fora, em São Paulo, ardoroso defensor da Constituinte e que era opositor ferrenho da obra de Roustaing, tendo divulgado diversos manifestos contra suas teses e, inclusive, publicado um livro em que debatia mais profundamente o assunto.

Morta a primeira, surge, dez anos depois, a segunda Feesp, agora sob a direção de outros espíritas e sem contar com o apoio dos centros. Após um período de dura sobrevivência, em que o seu desaparecimento era mais certo do que a continuidade de sua vida, durante o qual o trabalho junto aos centros espírita jamais vingou, a Feesp finalmente se firma como instituição, devido principalmente à chegada daquele que seria, por mais de 30 anos, o seu mais importante dirigente: Edgard Armond. Figura controvertida, esoterista e maçom, Armond soube vencer as adversidades administrativas e levar a Feesp a uma posição de destaque.

Em 1947, Armond convenceu seus pares a convocar um Congresso para dar fim à desorganização em que se achava o movimento espírita paulista. Iria repetir-se em São Paulo o mesmo caso havido no Rio de Janeiro, ao tempo de Bezerra de Menezes. Apenas o desfecho será outro, como veremos. O diagnóstico levantado mostra uma situação alarmante na época, com os espíritas desunidos e praticando mal sua doutrina nos centros espíritas. Ei-lo:

1 – Dispersão sistemática e generalizada, em caminho de desintegração, por força de interferências estranhas e de dissensões que, forçosamente, levariam à formação de cismas ou desmembramentos sectários.

2 – Desvirtuamento da Doutrina por força de interpretações capciosas e individualistas e de práticas nocivas visando interesses e ambições pessoais, com evidente desprezo dos seus postulados fundamentais, mormente os do campo moral.

3 – Disseminação de práticas exóticas, misto de magia e de superstição, com a introdução de ritos de outros credos e cerimônias religiosas de estranho aspecto e significação, tudo o que está designado como “baixo espiritismo” mas que realmente não passa de “falso espiritismo”.

4 – Arbítrio e personalismo, imperantes na maioria das instituições, transformando-as, muitas vezes, em propriedades particulares de uns e de outros, do que resultava afrouxamento cada vez maior da comunhão geral, no campo da fraternidade.

5 – Clandestinidade de muitas instituições existentes que, propositamente, fugiam a uma organização regular e ao intercâmbio, para exercerem práticas condenáveis e explorações da credulidade pública, causando assim confusão e profundo dano à segurança moral da expansão da Doutrina.

6 – Infiltração nas fileiras espíritas de ideologias estranhas, ligadas a movimentos políticos-revolucionários e tentativas reiteradas de dominação político-partidária, tudo incompatível com os sãos princípios e com as finalidades essenciais da Doutrina.

7 – Desconhecimento completo que se tinha do vulto e da extensão do movimento espírita e do perigo que representava para a própria Doutrina a expansão desordenada, sem diretrizes uniformes, sem disciplina, sem subordinação a um organismo central coordenador.

8 – Por último, a ignorância ou o desinteresse que demonstravam inúmeras instituições a respeito do papel e das responsabilidades que o Espiritismo assume, como cristianismo redivivo, na esfera da coletividade mundial.”

A Federação é a mãe do Congresso

Espíritas de várias partes do estado vieram participar do primeiro grande evento unificador em terras paulistas. Foi da Federação, também, a tese vitoriosa, que resultou na fundação de uma nova entidade, a União Social Espírita, depois mudada para União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (Use). A USE foi a primeira entidade federativa do país a nascer da vontade coletiva, do interesse dos centros espíritas, que realmente vingou.

A ela foi entregue os destinos do movimento espírita no estado. As quatro grandes instituições federativas, então existentes: Feesp, Liga, União e Sinagoga, mais os dirigentes de centros espíritas, ao aprovar a tese de criação da Use acordaram que a ela caberia a incumbência de coordenação deste movimento. E acordaram mais, de que lhe dariam o indispensável apoio para sobreviver e alcançar seus objetivos. Com isto, as quatro se retirariam dos trabalhos federativos, deixando a Use livre para realizá-los.

Três cumpriram a palavra. A Feesp, não. Armond abrigava a idéia de que a criação da Use resolveria o impasse da ocasião, beneficiando o movimento. Mas ele queria mais: desejava unir a Use à Feesp, prevalecendo finalmente esta. Era o poder que estava em jogo. Mas o destino assim não quis. A Feesp, alimentando a esperança de prevalecer sozinha no trabalho federativo, abrigou em sua sede, por muitos anos, a Use. De um lado, cumpria o dever de apoiá-la (e o fez com o ônus material), mas de outro tinha-a sob sua mira. Também por muitos anos, o presidente da Federação era vice-presidente da Use e vice-versa – o presidente da Use era vice na Feesp.

Na década de 70, com a Feesp continuando a federar centros, paralelamente à Use, formou-se uma comissão pró-fusão das duas entidades. Antes do fim daquela década, ambas viram baldados os esforços – o Conselho Estadual da Use convenceu-se de que a fusão seria maléfica para a Use e para o movimento espírita. A decisão acirrou os ânimos, que já estavam de fato exaltados.

O fato marcante deste processo histórico é que, tendo fundado a Use com o objetivo de incorporá-la posteriormente, a Feesp não calculou bem o futuro. Ela criou um filho, mas perdeu sobre ele o domínio antes mesmo que ele alcançasse a maioridade.

A Use cresceu rápido, devido ao trabalho desencadeado logo após sua fundação. O interior do estado, o mais abandonado do movimento, tornou-se alvo de suas atenções. Enquanto contou com colaboradores dedicados, a Use varreu o estado, levando a consciência do trabalho unificado. Logo, surgiram os espíritas useanos, aqueles que nasceram e cresceram doutrinariamente sob o lema da unificação, suficientemente educados na filosofia política da entidade, expressa em conceitos como “a Use somos todos nós”. Assim como os useanos vibravam com o sentimento democrático de sua entidade-mãe, viam na Feesp uma entidade sem as características mínimas indispensáveis ao trabalho de unificação. Esse sentimento cresceu e, nos momentos críticos, exacerbou-se.

Para os useanos, a Feesp era nada mais do que um “centrão”, termo este que passou a ser, na época, sinônimo de Feesp e de um certo modo com contornos pejorativos. Eles a viam com todas as características de um centro espírita que cresceu demasiadamente e que tinha em suas atividades, práticas discutíveis do ponto de vista doutrinário. Não aceitavam a forma como os passes eram dados, uma das heranças de Armond. Este, atendendo aos princípios da organização, tratou de padronizar os passes, após definir-lhe diversas classificações. Aos useanos, passes padronizados passaram a ser sinônimo de ritualismo. Ademais, os cursos criados pela Federação também continham os seus pontos críticos. O que mais influía, porém, era a filosofia paternalista da Feesp, que contrariava a Use, já então plenamente aceita e estabelecida.

Um acontecimento em meados da década de 70 veio abalar ainda mais o trabalho em torno da fusão.

A Feesp, inadvertidamente, lançou no mercado uma nova tradução de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, elaborada por Paulo Alves de Godoy, que continha gritantes falhas, incorrendo o tradutor em erros considerados inaceitáveis. À frente deste movimento postou-se um crítico ferrenho da Feesp, Herculano Pires. Apesar das resistências iniciais, a Feesp acabou sucumbindo ante a grita geral e não mais editou aquela tradução.

A decisão da Use, de não aceitar a fusão pretendida pela Feesp, causou entre os diretores da Federação um mal estar indiscutível. O sentimento de perda do poder ecoou na classe dirigente da instituição com tal intensidade que decidiram dar uma resposta à Use, na forma de aprovação, para a própria Federação, do Estatuto preparado para a nova Feesp que surgiria da fusão. Isto só fez os useanos sentirem-se mais fortes e seguros ante a decisão que haviam tomado.

Assim, a Feesp prosseguiu, agora com mais liberdade, filiando e atendendo os centros espíritas, dentro de suas características paternalistas, com as quais leva a todos, os cursos, os passes padronizados, palestrantes e orientações diversas. A Use seguiu o seu caminho, livre do apoio material da Feesp e sem o compromisso da fusão. A nova situação obrigou-lhe a partir para a superação de dificuldades que até então não a preocupavam. A necessidade de uma sede própria surgiu como meta impostergável, o que lhe tomaria alguns anos de luta, até finalmente consegui-la. E assim ela vive, nos tempos atuais.

O “Pacto Áureo” e suas conseqüências

A fundação da Use, em São Paulo, em 1947, inicialmente não foi bem vista pela Federação Espírita Brasileira. Tanto é isso verdade que o representante de São Paulo junto a ela era na ocasião a União Federativa, que assim continuou por algum tempo, mesmo tendo sido criada a Use. Somente a força irresistível dos fatos levaria a Federação, mais tarde, a aceitar a Use. Havia, na verdade, entre os espíritas paulistas e cariocas uma animosidade semelhante à que preponderava nos aspectos regionais. Como dissemos atrás, após vencer as resistências em 1926, com o advento da Constituinte Espírita, entrou a Federação em novo período de hibernação com relação aos seus deveres perante o movimento de unificação. Em 1949, essa situação estava insustentável, pois de todos os lados surgiam as reclamações contra a Federação.

O movimento que deu origem à Use espalhou-se por várias partes do país. São Paulo, como Estado-nação, já era visto como uma grande locomotiva. As dissensões São Paulo/Rio influíam, de alguma forma, nos espíritas de ambos os Estados. Ademais, historicamente, São Paulo sempre foi o estado mais próximo do sentimento racional, confrontando com o sentimento exageradamente místico dos espíritas cariocas. Roustaing, em São Paulo, era mal visto e encontrava, constantemente, um obstinado crítico. Em 1949, essa dura tarefa cabia ao professor Júlio Abreu Filho, o responsável pela tradução da Revista Espírita para o português. Júlio não só criticava a aceitação e imposição de Roustaing pela Federação, como também as atitudes de seus diretores no tocante às edições de obras espíritas. Neste clima, a Use organizou e realizou dois anos após a sua fundação o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, com a seguinte justificativa: “A situação do Espiritismo em São Paulo”, ante o aparecimento da União Social Espírita, se bem que em escala reduzida e atenuada, refletia o que se passava em todo o País. E foi analisando estes aspectos e meditando sobre suas ruinosas conseqüências que se resolveu, sem mais delongas, iniciar o urgente trabalho da unificação.

Três eram os objetivos do congresso, todos demonstrando a ineficácia da atuação da Federação: 1- a unificação do Espiritismo nos estados. Planos de execução. 2- A unificação do Espiritismo nacional. Sistema a adotar. 3- Estudo dos problemas de interesse fundamental e urgente para a marcha do movimento espírita nacional.

A Federação não só esteve ausente do congresso como também desenvolveu intenso trabalho para desestimular a presença dos representantes das federativas estaduais. Conseguiu-o em parte, pois várias daquelas que inicialmente se comprometeram a participar acabaram desistindo. Isto, porém, não diminuiu em muito o evento. A Federação do Rio Grande do Sul, por exemplo, apresentou proposta de criação de uma Confederação Espírita Brasileira, que assumiria o papel Federativo Nacional, que a Federação teimava em não realizar.

O Congresso terminou por aprovar que a Federação do Rio Grande do Sul desenvolveria esforços para a criação de uma entidade federativa social e patrimonialmente autônoma. Para tanto, contaria todas as federativas estaduais e apontaria os caminhos. A Federação Espírita Brasileira agiu imediatamente, sob o argumento de ser a Casa Máter do Espiritismo, escolhida por Ismael. E mais uma vez, sozinha, derrotou a coletividade. Espíritas de diversos estados, ainda em 1949, estando no Rio de Janeiro, assinaram um documento denominado “Pacto Áureo”, em que a Federação se propunha a realizar o trabalho de unificação, dinamizando o Conselho Federativo, criado em 1926 mas adormecido desde então. O congresso de unificação de São Paulo estava, pois, morto.

O Pacto Áureo foi recebido com profundas desconfianças por muitos espíritas de São Paulo.

Herculano, um dos seus críticos, chamou-o de pacto aéreo, apoiado por dezenas de outros adeptos. A Federação Espírita Brasileira, porém, silenciando-se publicamente, mas agindo sempre com eficácia nos bastidores, mais um vez manteve sob seu domínio o poder. Ainda hoje, o Espiritismo brasileiro, em termos de organização administrativa, está sob o poder da Federação. O Conselho Federativo é um apêndice dela. Acima dele está o Conselho da Federação, constituído de seus sócios individualmente, o qual pode, a qualquer momento, tomar atitudes contrárias aos interesses dos representantes das federativas que ali se reúnem.

Estaria a situação em nossos dias melhor do que no passado?

Resumindo, a situação do movimento espírita brasileiro, atualmente, é mais ou menos esta: as federativas estaduais ainda estão longe de realizarem o ideal da unificação. Os centros espíritas, de uma forma geral, ainda vivem entregues a si mesmos. Algumas federativas, em virtude da adoção de certos princípios discutíveis, não têm força moral suficiente para comandar o trabalho. Por outro lado, as divisões em vários estados enfraquecem o movimento local. Em São Paulo, Pernambuco, Rio de Janeiro e Ceará existem mais de uma entidade federativa, o que provoca confrontos ideológicos perturbadores do movimento.

A luta pela sobrevivência ainda existe em algumas federativas, prejudicando o trabalho do movimento. Em outras, a falta de uma visão profunda do movimento e o desconhecimento da realidade dos centros espíritas as impede de trabalharem como deveriam.

Em São Paulo, a Use se constitui hoje como um verdadeiro monumento a ser preservado, tanto pela sua filosofia quanto pelo exemplo que representa de entidade criada pelos e para os centros espíritas.

A Use não possui sócios individuais, somente coletivos, o que a diferencia de todas as demais federativas.

Não se quer dizer que a Use seja um primor de entidade, nem que ela não possua as suas deficiências.

Ela as possui e deve por isto ser estimulada a melhorar sempre. Por ser o Estado de São Paulo o que maior quantidade de centros possui, é crível acreditar que boa parte deles não têm apoio e a consciência que precisariam ter, existindo até os que desconhecem a existência da Use.

O trabalho da Feesp é conhecido apenas na capital. Ainda assim, é ineficaz e se desenvolve estritamente ao nível do paternalismo. A Federação ainda não perdeu as esperanças de domínio do poder. Ela desenvolve gestões atualmente, embora sem o declarar, à procura de conseguir um lugar no Conselho Federativo Nacional. Sua atividade paralela à da Use enfraquece o movimento estadual.

Na ponta de tudo está o centro espírita, unidade do movimento, que poderia ser melhor apoiado.

A Use não surgiu com o sentido paternalista que vigora na base da cultura brasileira. Seus diretores não são eleitos para levar soluções aos centros espíritas, mas para administrar o desejo e as necessidades coletivas. Este é o seu maior desafio, uma vez que coexistem no movimento, centros espíritas ainda hoje em maioria, dependentes das ações desenvolvidas pelas chamadas autoridades máximas, e outros, em menor escala, cujos dirigentes alcançaram a consciência da filosofia que estabelece: “A Use somos todos nós”.

Bibliografia

  • Anais do 1º. Congresso Espírita do Estado de São Paulo, 1947 * Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, 1948
  • Livro do Centenário, 1906
  • Livro do Conselho Federativo, 1926
  • Bezerra de Menezes, por Canuto de Abreu
  • Coleção da Revista Espírita
  • Revista Alvorada de uma Nova Era
  • Os Intelectuais e o Espiritismo, Ubiratan Machado
  • Coleção da Verdade e Luz, segunda época
  • Coleção da Revista de Metapsíquica
  • Documentos diversos

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Da cultura da Grécia antiga a Allan Kardec, a falta de memória da Humanidade

Da cultura da Grécia antiga a Allan Kardec, passando por Jesus de Nazaré, a falta de memória da Humanidade

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Sócrates e Platão

SÓCRATES (469—399 AC.) É um dos poucos indivíduos dos quais se poderá dizer, pela influência cultural e intelectual que exerceu no mundo, que sem ele a história teria sido profundamente diferente. Ficou especialmente conhecido pelo método, que tem o seu nome, de pergunta e resposta, pela noção que tinha da sua própria ignorância e pela afirmação de que uma vida sem o questionamento de si mesma não merece a pena ser vivida.

PLATÃO (427—347 AC.) é um dos mais conhecidos, lidos e estudados filósofos do mundo. Foi aluno de Sócrates e professor de Aristóteles, e viveu na Grécia em meados do século IV A.C. Embora influenciado inicialmente por Sócrates, a tal ponto de o ter tornado a principal figura dos seus escritos, também foi influenciado por Heráclito, Parménides e pelos Pitagóricos.


Sócrates e Platão, precursores do cristianismo e do espiritismo


O Capítulo IV da Introdução de “O Evangelho segundo o Espiritismo” surpreende-nos com uma referência fortíssima ao legado de Platão e de Sócrates que está na linha do que nos informa a Introdução de “O Livro dos Espíritos”, no número VI – Resumo dos ensinamentos dos Espíritos, e é coerente com a restante obra de Allan Kardec.
São esses os temas desta publicação, que apresenta os seguintes conteúdos:

  • NOTA PRÉVIA alertando para a falta de memória da Humanidade e os seus trágicos efeitos.
  • CAPÍTULO IV da Introdução de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, com o texto introdutório e resumo do legado de Sócrates e Platão, em vinte e cinco pontos, a maioria dos quais é seguido por um comentário de Allan Kardec, salientado a azul;
  • Como elemento de contextualização do texto anterior, referência de um valioso trabalho de Reinaldo Di Lucia, apresentado no VII Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, São Paulo, Brasil, em 2001, cujo ficheiro PDF incluímos e cuja leitura e análise completa empenhadamente recomendamos;
  • Inserção Capítulo VI da Introdução de “O Livro dos Espíritos”, para os visitantes poderem reler e comparar o seu conteúdo com o Capítulo IV da Introdução de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” e o referido legado de Sócrates/Platão.

A FALTA DE MEMÓRIA DA HUMANIDADE E OS SEUS TRÁGICOS EFEITOS

A impiedosa e quase sempre cruel marcha da História impediu que a sequência das culturas e das sensibilidades pudessem ter tido acesso, ao longo dos séculos, às conceções filosóficas aqui referidas e à sua proveitosa utilidade no estabelecimento da paz e na manutenção da tolerância.
Referimos, é claro, o manancial de informações científico-filosóficas que nos apresenta a cultura espírita dos nossos dias, em paralelo com o conhecimento já em evidência na Grécia Clássica, plasmado há mais de dois mil anos por alguns dos mais insignes pensadores da História da Humanidade.

Levando em conta o momento superior da civilização, salto qualitativo da Humanidade, durante o qual passou pelo planeta a presença, a palavra e o exemplo de Jesus de Nazaré, muito se perdeu na memória dos homens desde o classicismo Grego até aos tempos de hoje.

Entre o pensamento dos Clássicos Gregos e a actualidade posterior a Allan Kardec, não estamos perante conhecimentos casuais ou desirmanados. Foram informações coligidas a seu tempo exatamente pelos mesmos métodos e derivaram das mesmas fontes de que ainda hoje nos servimos, OS ESPÍRITOS.
Os Espíritos na Grécia falaram aos viventes na Terra, irmãos seus como nós o somos agora, com os mesmos propósitos, a mesma vontade generosa e, tantas vezes, para minorar as saudades da pátria espiritual daqueles que prestavam provas e cumpriam expiações como nós o fazemos nas nossas vidas.
Profundo e precioso é o património de conhecimentos da Humanidade, mas lamentável a força dispersiva das piores tendências do Homem, em luta consigo mesmo!…
Com a prática condizente com as ideias aqui expostas, os critérios dogmáticos não teriam surgido ou podiam ter-se resolvido em paz, em harmonia e convivência.

De nada serviram, pelo caminho, os hábitos de milhões de vidas sombrias orientadas pelo medo dos infernos e purgatórios, DAS CRUZADAS ‒ exportação da violência pelo recurso organizado dos organismos político-estratégicos EM ESTREITA CUMPLICIDADE com o DOGMATISMO RELIGIOSO, as conversões à força, a colonização dos corpos, das mentes e das culturas, o pretexto das dilatações da FÉ e dos IMPÉRIOS para a prática dos maiores abusos históricos de todos os tempos, o silêncio mantido à custa de TORMENTOS INQUISITORIAIS e tantas outras abominações que esmagaram as sociedades e foram transportados por todos os continentes, num delírio materialista, desalmado e cego!…

A acentuação destas ideias nada tem de despropositado, antes pelo contrário. A senda pedregosa dos dogmatismos está aberta, e muitos milhões de almas e poderosas forças obscuras continuam a trilhá-la.
Por isso temos recomendado, ao longo destas páginas, uma atenção permanente à memória dos povos e à História da Humanidade. Porque, com o conhecimento dos erros do passado, se resolvem os erros do presente e se evitam as infelicidades injustas do futuro. Muitíssimo grande é a responsabilidade dos portadores de mensagens do ESPÍRITO EMANCIPADOR.

Capítulo IV da Introdução de “O Evangelho segundo o Espiritismo”

A morte de Sócrates, de Jacques-Louis David (1787)

Resumo dos conceitos de Sócrates e Platão que elucidam a ideia da origem e do destino do homem:
Depois de cada tema segue a azul comentários de Allan Kardec.

I – “O homem é uma alma encarnada. Antes da sua encarnação, existia junto aos modelos primordiais, às ideias do verdadeiro, do bem e do belo. Separou-se deles ao encarnar e, lembrando o seu passado, sente-se mais ou menos atormentada pelo desejo de lá voltar.”

Não se pode enunciar mais claramente a distinção e a independência do princípio inteligente e do princípio material. É, além disso, a doutrina da preexistência da alma, da vaga intuição que ela conserva da existência de outro mundo ao qual aspira, da sua sobrevivência à morte do corpo, da sua saída do mundo espiritual para encarnar, e do seu regresso a esse mundo após a morte. É, enfim, o germe da doutrina dos anjos caídos.

II – “A Alma perturba-se e confunde-se quando se serve do corpo para analisar algum objeto. Sente vertigens, como se estivesse ébria, porque se liga a coisas que são, pela sua natureza, sujeitas a transformações. Em vez disso, quando contempla a sua própria essência volta-se para o que é puro, eterno, imortal, e sendo da mesma natureza, aí permanece ligada tanto tempo quanto possa. Cessam então as suas perturbações, porque está unida ao que é imutável. Este estado da alma é o que chamamos sabedoria”.

Assim, o homem que considera as coisas vistas de baixo, terra à terra, do ponto de vista material, vive iludido. Para as apreciar com clareza é necessário vê-las do alto, ou seja, do ponto de vista espiritual. O verdadeiro sábio deve, por qualquer forma, isolar a alma do corpo, para ver com os olhos do Espírito. É isso o que ensina o Espiritismo (Cap. II, n° 5).

III – “Enquanto tivermos o nosso corpo, e a nossa alma se encontrar mergulhada nessa corrupção, nunca possuiremos o objeto dos nossos desejos ─ a verdade. De facto, o corpo oferece-nos mil obstáculos, pela necessidade que temos de cuidar dele. Além disso, enche-nos de desejos, de apetites, de temores, de mil quimeras e de mil tolices, de maneira que, com ele, é impossível ser sensato, mesmo por um momento. Mas, se nada se pode conhecer verdadeiramente enquanto a alma está unida ao corpo, uma destas duas coisas se impõe: ou que nunca se conhecerá a verdade, ou que se conhecerá depois da morte. Livres da loucura do corpo, então conversaremos, é de esperar-se, com pessoas igualmente livres, e conheceremos por nós mesmos a essência das coisas. É por isso que os verdadeiros filósofos se preparam para morrer e a morte não lhes parece de maneira alguma temível”. (Ver O Céu e o Inferno, 1ª parte, cap. II, e 2ª parte, cap. I).

Aqui está o princípio das faculdades da alma, obscurecidas devido aos órgãos corporais, e da expansão dessas faculdades depois da morte. Mas trata-se aqui das almas evoluídas, já depuradas. Não acontece o mesmo com as almas impuras.

IV – “A alma impura, nesse estado, encontra-se pesada e é novamente arrastada para o mundo visível, pelo horror ao que é invisível e imaterial. Vagueia, então, segundo se diz, ao redor dos monumentos e dos túmulos, junto dos quais foram vistos, às vezes, fantasmas tenebrosos. Assim devem ser as imagens das almas que deixaram o corpo sem estar inteiramente puras, e que conservam alguma coisa da forma material, o que permite aos nossos olhos apercebê-las. Essas não são as almas dos bons, mas as dos maus, que são forçadas a vaguear nesses lugares, onde carregam as penas das suas vidas passadas e onde continuam a vaguear até que os apetites inerentes à sua forma material as coloquem de novo a habitar um corpo. Então, retomam sem dúvida os mesmos costumes que, durante a vida anterior, eram da sua predileção”.

Não somente o princípio da reencarnação está aqui claramente expresso, mas também o estado das almas, que ainda estão sob o domínio da matéria, é descrito tal como o Espiritismo o demonstra nas evocações. E há mais, pois afirma-se que a reencarnação é uma consequência da impureza da alma, enquanto as almas purificadas estão livres dela.
O Espiritismo diz isto mesmo, apenas acrescenta que a alma que tomou boas resoluções na erraticidade, e que tem conhecimentos adquiridos, trará ao renascer menos defeitos, mais virtudes e mais ideias intuitivas do que na existência anterior. Assim, cada existência marca para ela um progresso intelectual e moral. (O Céu e o Inferno, 2ª parte: Exemplos).

V – “Após a nossa morte, o génio (daïmon, em grego) que nos fora designado durante a vida, leva-nos a um lugar onde se reúnem todos os que devem ser conduzidos ao Hades, para aí serem julgados. As almas, depois de permanecerem no Hades o tempo necessário, são reconduzidas a esta vida por numerosos e longos períodos”.

Esta é a doutrina dos Anjos da Guarda ou Espíritos protetores, e das reencarnações sucessivas, após intervalos mais ou menos longos de erraticidade.

VI – “Os demónios preenchem o espaço que separa o Céu da Terra, são os laços que ligam o Grande Todo consigo mesmo. A divindade nunca entra em comunicação direta com os homens, é por meio dos demónios que os deuses se relacionam e conversam com ele, quer durante o estado de vigília quer durante o sono”.

A palavra “daïmon”, que originou o termo “demónio”, na Antiguidade não tinha o sentido do mal, como acontece entre nós. Não se aplicava essa palavra exclusivamente aos seres maldosos, mas a todos os Espíritos em geral, entre os quais se distinguiam os espíritos superiores chamados deuses e os Espíritos menos elevados ou demónios propriamente ditos, que comunicavam diretamente com os homens. O Espiritismo ensina também que os Espíritos povoam o espaço, que Deus não comunica com os homens senão por intermédio dos Espíritos puros, encarregados de nos transmitir a sua vontade, que os Espíritos comunicam connosco durante o estado de vigília e durante o sono.
Substituindo a palavra demónio pela palavra Espírito teremos a doutrina espírita; usando a palavra anjo, teremos a doutrina cristã.

VII – “A preocupação constante do filósofo (tal como o compreendiam Sócrates e Platão) é a de ter o maior cuidado com a alma, não tanto por esta vida, que é apenas um instante, mas tendo em vista a eternidade. Se a alma é imortal, não é sábio viver para a eternidade?”

O Cristianismo e o Espiritismo ensinam a mesma coisa.

VIII – “Se a alma é imaterial, deve voltar, após esta vida, a um mundo igualmente invisível e imaterial, da mesma forma que o corpo, ao decompor-se, volta à matéria. Importa somente distinguir bem a alma pura, verdadeiramente imaterial, que se alimenta, como Deus, da sabedoria e dos pensamentos, da alma mais ou menos manchada por impurezas materiais, que a impedem de se elevar ao divino, retendo-a nos lugares da sua passagem pela Terra”.

Sócrates e Platão, como se vê, compreendiam perfeitamente os diferentes graus de desmaterialização da alma. Insistem nas diferenças que resultam da sua maior ou menor pureza. O que eles diziam por intuição, o Espiritismo prova-o, pelos numerosos exemplos que nos põe diante dos olhos (O Céu e o Inferno, 2ª parte).

IX – “Se a morte fosse o desaparecimento total do homem, isso seria de grande vantagem para os maus, que após a morte estariam livres, ao mesmo tempo, dos seus corpos, das suas almas e dos seus vícios.
Só aquele que enriqueceu a sua alma, não com estranhas ornamentações, mas com as que lhe são próprias, poderá esperar tranquilamente a hora da sua partida para o outro mundo”.

Por outras palavras: o materialismo, que proclama o nada após a morte, seria a negação de todas as responsabilidades morais posteriores e, por conseguinte, um estímulo ao mal. O malvado tem tudo a ganhar com o nada, o homem que se livrou dos seus vícios e se enriqueceu de virtudes é o único que pode esperar tranquilamente o despertar na outra vida. O Espiritismo mostra-nos, pelos exemplos que diariamente nos apresenta, quanto é penosa a passagem desta para a outra vida e a entrada na vida futura, para os que praticam o mal. (O Céu e o Inferno, 2ª parte, cap. I).

X – “O corpo conserva bem marcados os vestígios dos cuidados que se teve com ele ou dos acidentes que sofreu. Acontece o mesmo com a alma. Quando está separada do corpo conserva os traços evidentes do seu caráter, dos seus sentimentos, e as marcas que nela deixaram os atos que praticou durante a vida. Assim, a maior desgraça que pode acontecer a um homem é a de ir para o outro mundo com uma alma carregada de crimes. Tu vês, Callicles, que nem tu, nem Polus, nem Górgias, podereis provar que se deve levar outra vida que nos seja mais útil quando formos para o outro mundo. De tantas opiniões diferentes, a única que permanece inabalável é a de que mais vale receber uma injustiça do que cometê-la, e que antes de tudo devemos aplicar-nos, não a parecer, mas a ser um homem de bem”. (Conversas de Sócrates com os discípulos na prisão).

Aqui encontra-se outro ponto capital hoje confirmado pela experiência, segundo o qual a alma não purificada conserva as ideias, as tendências, o caráter e as paixões que tinha na Terra. Esta máxima: mais vale receber uma injustiça do que cometê-la, não é totalmente cristã? É o mesmo pensamento que Jesus exprime por este juízo: “Se alguém te bater numa face, oferece-lhe a outra”. (Cap. XII, nºs 7 e 8)).

XI – “De duas, uma: ou a morte é a destruição absoluta, ou é a passagem da alma para outro lugar. Se tudo deve extinguir- se, a morte será como uma dessas raras noites que passamos sem sonhar e sem nenhuma consciência de nós mesmos. Mas se a morte é apenas uma mudança de morada, a passagem para um lugar onde os mortos se devem reunir, que felicidade a de ali reencontrarmos os nossos conhecidos! O meu maior prazer seria o de examinar de perto os habitantes dessa outra morada e distinguir entre eles, como aqui, os que são sensatos dos que creem sê-lo e não o são. Mas já é tempo de partirmos, eu para morrer e vós para viver”. (Sócrates aos seus juízes).

Segundo Sócrates, os homens que viveram na Terra encontram-se depois da morte e reconhecem-se. O Espiritismo no-los mostra, continuando as suas relações, de tal maneira que a morte não é uma interrupção, nem uma cessação da vida, mas uma transformação sem solução de continuidade.
Sócrates e Platão, se tivessem conhecido os ensinamentos transmitidos por Jesus quinhentos anos mais tarde, e os que o Espiritismo nos transmite hoje, não teriam falado de outra maneira. Nisso, nada há que nos deva surpreender, se considerarmos que as grandes verdades são eternas e que os Espíritos adiantados devem tê-las conhecido antes de vir para a Terra, para onde as trouxeram. Sócrates, Platão e os grandes filósofos do seu tempo poderiam estar, mais tarde, entre aqueles que secundaram Jesus na sua divina missão, sendo escolhidos precisamente porque estavam mais aptos do que outros a compreenderem os seus sublimes ensinamentos. E pode acontecer que façam agora parte da grande plêiade de Espíritos encarregados de virem ensinar aos homens as mesmas verdades.

XII – “Não se deve nunca retribuir a injustiça com a injustiça, nem fazer mal a ninguém, qualquer que seja o mal que nos tenha feito. Poucas pessoas, contudo, admitem este princípio, e as que não concordam com ele só podem desprezar-se umas às outras”.

Não é este o princípio da caridade, que nos ensina a não retribuir o mal com o mal e a perdoar aos inimigos?

XIII – “É pelos frutos que se conhece a árvore. É necessário qualificar cada ação por aquilo que ela produz: chamá-la má quando a sua consequência é má, e boa quando produz o bem”.

Esta expressão: “É pelos frutos que se reconhece a árvore”, encontra-se textualmente repetida, muitas vezes, no Evangelho.

XIV – “A riqueza é um grande perigo. Todo o homem que ama a riqueza, não se ama a si próprio nem ao que é seu, mas ama algo que lhe é mais estranho do que aquilo que é dele”. (Cap. XVI).

XV – “As mais belas preces e os mais belos sacrifícios agradam menos à Divindade do que uma alma virtuosa que se esforce por se lhe assemelhar. Seria grave que os deuses se interessassem mais pelas nossas oferendas do que pelas nossas almas. Se tal acontecesse, os maiores culpados poderiam conquistar os seus favores. Mas não, pois só são verdadeiramente retos e justos os que, pelas suas palavras e pelos seus atos, cumprem os deveres para com os deuses e os homens”. (Cap. X, nºs 7 e 8).

XVI – “Chamo homem violento ao amante vulgar, que ama mais o corpo do que a alma. O amor está por toda a natureza que nos convida a exercitar a nossa inteligência. Encontramo-lo até mesmo no movimento dos astros. É o amor que ornamenta a natureza com os seus admiráveis adornos. Enfeita-se e fixa a sua morada onde encontra flores e perfumes. É ainda o amor que traz a paz à Humanidade, a calma ao mar, o silêncio aos ventos e o sossego à dor”.

O amor, que deve unir os seres humanos por um sentimento de fraternidade, é uma consequência desta teoria de Platão sobre o amor universal, como lei da natureza. Sócrates disse que “o amor não é um deus nem um mortal, mas um grande Daïmon”, ou seja, um grande Espírito que preside ao amor universal. Foi sobretudo esta afirmação que lhe foi imputada como crime.

XVII – “A virtude não pode ser ensinada, vem por um dom de Deus aos que a possuem”.

É quase como a graça no conceito cristão. Mas se a virtude é um dom de Deus, um favor, pode perguntar-se por que razão não é concedida a todos? Por outro lado, se é um dom, não há mérito da parte do que a possui? O Espiritismo é mais explícito, ensina que aquele que a possui já a adquiriu pelos seus esforços nas vidas sucessivas, ao livrar-se pouco a pouco das suas imperfeições. A graça é a força que Deus concede aos homens de boa vontade, para se livrarem do mal e fazerem o bem.

XVIII – “Há uma disposição natural em cada um de nós, é a de nos apercebermos muito menos dos nossos defeitos do que dos defeitos alheios”.

O Evangelho diz: “Vês o argueiro no olho do teu irmão, e não vês a trave no teu?” (Cap. X, nº 9 e 10).

XIX – “Se os médicos não conseguem debelar a maior parte das doenças, é porque tratam o corpo sem a alma, e porque, se o todo não se encontra em bom estado, é impossível que as suas partes estejam bem”.

O Espiritismo esclarece as relações entre a alma e o corpo, e prova que um atua incessantemente sobre o outro. Assim, abre um novo caminho à ciência. Mostrando-lhe a verdadeira causa de certas doenças, dá-lhe, pois, o meio de as combater. Quando a ciência levar em conta a ação do elemento espiritual no conjunto orgânico, será mais eficaz.

XX – “Todos os homens, desde a infância, fazem mais mal do que bem”.

Estas palavras de Sócrates tocam a grave questão da predominância do mal sobre a Terra, questão insolúvel sem o conhecimento da pluralidade dos mundos e do destino da Terra, onde habita apenas uma pequena parte da Humanidade. Só o espiritismo lhe dá a solução, que se encontra desenvolvida mais adiante, nos capítulos II, III e V.

XXI – “A sabedoria está em não julgares que sabes aquilo que não sabes”.

Isto vai dirigido àqueles que criticam as coisas de que, frequentemente, nada sabem. Platão completa este pensamento de Sócrates, ao dizer: “Tentemos primeiro torná-los, se possível, mais honestos nas palavras. Se não conseguirmos, não nos preocupemos com eles e busquemos nós a verdade. Tratemos de nos instruir, mas sem nos incomodarmos“. É assim que devem agir os espíritas, em relação aos seus contraditores de boa ou má-fé. Se Platão vivesse hoje encontraria as coisas mais ou menos como no seu tempo e poderia usar a mesma linguagem. Sócrates também encontraria quem zombasse da sua crença nos Espíritos e o tratasse como se fosse louco, assim como ao seu discípulo Platão.
Foi por ter professado esses princípios que Sócrates foi ridicularizado, primeiro, depois acusado de impiedade e condenado a beber a cicuta. É bem certo que as grandes e novas verdades, levantando contra si os interesses e os preconceitos que elas ferem, não podem ser estabelecidas sem lutas e sem mártires.


Para as pessoas interessadas em documentar histórico-culturalmente, identificando bem a origem destas referências a Sócrates e Platão, recomendo a leitura integral do seguinte trabalho de Reinaldo Di Lucia:

VII Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita /
São Paulo 2001
da autoria de REINALDO DI LUCIA

Sócrates e Platão: percursores do espiritismo
de REINALDO DI LUCIA – PDF


A Escola de Atenas, de Raffaello Sanzio (pintura de 1509-1511), uma das obras mais extraordinárias do Museu do Vaticano que representa grande número de pensadores, entre os quais Platão e Sócrates.
A Escola de Atenas, de Raffaello Sanzio (pintura de 1509-1511), uma das obras mais extraordinárias do Museu do Vaticano que representa grande número de pensadores, entre os quais Platão e Sócrates.

Para completar e actualizar as referências aqui expostas, nada como a palavra de ALLAN KARDEC, com a conhecida síntese:
Resumo dos ensinamentos dos Espíritos, conforme o Capítulo VI da Introdução de “O Livro dos Espíritos”:

Os seres que deste modo comunicam designam-se a si mesmos – como já dissemos – pelo nome de Espíritos ou génios, e como tendo pertencido, pelo menos alguns, a pessoas que viveram na Terra. Constituem o mundo espiritual, como nós constituímos, durante a vida, o mundo corporal. Resumimos a seguir, em poucas palavras, os pontos mais salientes dos ensinamentos que nos transmitiram:

Deus é eterno, imutável, imaterial, único, todo poderoso, soberanamente justo e bom. Criou o Universo que inclui todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais. Os seres materiais constituem o mundo visível ou corporal e os seres imateriais constituem o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos.

O mundo espírita é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente e sobrevivente a tudo.

O mundo corporal é secundário, poderia deixar de existir ou nunca ter existido sem alterar a essência do mundo espírita. Os Espíritos animam temporariamente um corpo material perecível, cuja morte os devolve à liberdade.

Entre as diferentes espécies de seres corporais, Deus escolheu a espécie humana para a encarnação dos Espíritos que chegaram a um certo grau de desenvolvimento, o que lhe dá superioridade moral e intelectual sobre as outras. A alma é um Espírito encarnado num corpo material.

Há nos seres humanos três coisas:

1º) O corpo ou ser material, semelhante ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital;
2º) A alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo;
3º) O sistema de ligação que une a alma ao corpo, o perispírito, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito.

O ser humano tem assim duas naturezas: pelo corpo participa da natureza dos animais, dos quais possui os instintos; pela alma participa da natureza dos Espíritos. O sistema de ligação entre corpo e Espírito, o perispírito, é um complexíssimo sistema semimaterial.

A morte é o falecimento do corpo mais denso. O Espírito conserva o organismo de ligação ou perispírito, que lhe serve como corpo semimaterial, de muito baixa densidade, invisível para nós no seu estado normal. O Espírito pode torná-lo circunstancialmente visível e mesmo tangível, como acontece no fenómeno das aparições.

O Espírito não é, portanto, um ser abstrato, indefinido, que só o pensamento pode compreender. É um ser real, definido, que em certos casos pode ser apreendido pelos nossos sentidos da vista, da audição e do tato. Os Espíritos pertencem a diferentes níveis, não sendo iguais em poder, inteligência, saber ou moralidade:

– Os da primeira ordem são os Espíritos superiores que se distinguem dos outros pela perfeição, pelos conhecimentos, pela proximidade de Deus, pela pureza dos sentimentos e pelo seu amor ao bem: são os anjos ou Espíritos puros.

− Os dos outros níveis distanciam-se progressivamente desta perfeição.

– Os dos níveis inferiores são propensos às nossas paixões: o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho, etc. e comprazem-se no mal.

Neste número há os que não são muito bons nem muito maus, são mais perturbadores e intrigantes do que maus. A malícia e as inconsequências parecem ser as suas características: são os Espíritos tolos ou frívolos.

Os Espíritos não pertencem eternamente à mesma ordem. Todos se vão aperfeiçoando, passando pelos diferentes graus da hierarquia espírita. Esta evolução dá-se mediante a encarnação, imposta a uns como expiação e a outros como missão.

A vida material é uma prova a que devem submeter-se repetidas vezes até atingirem a perfeição absoluta: é uma espécie de filtro purificador, do qual vão saindo mais ou menos aperfeiçoados.

Deixando o corpo, a alma regressa ao mundo dos Espíritos, do qual saíra para reiniciar uma nova existência material, após um lapso de tempo mais ou menos longo, durante o qual fica no estado de Espírito errante. Devendo o Espírito passar por muitas encarnações, conclui-se que todos nós tivemos muitas existências e que teremos ainda outras, mais ou menos aperfeiçoadas, seja na Terra, seja noutros mundos. A encarnação dos Espíritos ocorre sempre na espécie humana. Seria um erro acreditar que a alma ou Espírito pudesse encarnar no corpo de um animal. (Ver pergunta 611 e seguintes.)

As diversas existências corporais do Espírito são sempre de evolução positiva e nunca de evolução negativa ou retrógrada: a rapidez desse progresso evolutivo, contudo, depende dos esforços que fazemos para chegar à perfeição. As qualidades da alma são as do Espírito que está encarnado em nós. Assim, o homem de bem é a encarnação de um bom Espírito e o homem perverso a de um Espírito impuro.

A alma tinha a sua individualidade antes da encarnação e conserva-a após a separação do corpo. No seu regresso ao mundo dos Espíritos, a alma reencontra ali todos os que conheceu na Terra e todas as suas existências anteriores desfilam na sua memória, com a recordação de todo o bem e de todo o mal que fez. (Ver perguntas 305 a 307)

O Espírito encarnado está sob a influência da matéria. O ser humano que supera essa influência, pela elevação e purificação da sua alma, aproxima-se dos bons Espíritos com os quais estará um dia. Aquele que se deixa dominar pelas más paixões, e põe todas as suas alegrias na satisfação dos apetites mais rudes, aproxima-se dos Espíritos impuros, dando preponderância à sua natureza animal.

Os Espíritos encarnados habitam a multiplicidade dos astros do Universo.

Os Espíritos não encarnados ou errantes não ocupam nenhuma região determinada ou circunscrita. Estão por toda a parte, no espaço e ao nosso lado, vendo-nos e convivendo connosco com grande proximidade: é toda uma população invisível que se agita em nosso redor.

Os Espíritos exercem sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico uma ação incessante. Agem sobre a matéria e sobre o pensamento e constituem uma das forças da natureza, causa eficiente de uma multidão de fenómenos até agora inexplicados ou mal explicados, que só encontram solução racional no espiritismo.

As relações dos Espíritos com os homens são constantes. Os bons Espíritos estimulam-nos para o bem, apoiam-nos nas provas da vida e ajudam-nos a suportá-las com coragem e resignação. Os maus instigam-nos ao mal: para eles é um prazer ver-nos sucumbir e tornarmo-nos iguais a eles.

As comunicações dos Espíritos com os homens são ocultas ou ostensivas. As comunicações ocultas têm lugar pela boa ou má influência que exercem sobre nós sem o sabermos, cabendo ao nosso julgamento discernir as más e as boas inspirações. As ostensivas realizam-se por meio da escrita, da palavra ou de outras manifestações materiais, na maioria das vezes através dos médiuns que lhes servem de instrumentos.

Os Espíritos manifestam-se espontaneamente ou pela evocação.

Podemos evocar todos os Espíritos:

− Os que animaram homens obscuros e os das personagens mais ilustres, qualquer que seja a época em que tenham vivido;

− Os dos nossos parentes, dos nossos amigos ou inimigos e deles obter, por comunicações escritas ou verbais, conselhos, informações sobre a situação em que se acham além túmulo, sobre os seus pensamentos a nosso respeito, assim como as revelações que lhes seja permitido fazer-nos.

Os Espíritos são atraídos em função da sua simpatia pela natureza moral do meio que os evoca. Os Espíritos superiores gostam das reuniões sérias, dominadas pelo amor do bem e pelo desejo sincero de instrução e de melhoria. A sua presença afasta os Espíritos inferiores que, pelo contrário, têm acesso fácil e liberdade de ação entre pessoas frívolas guiadas apenas pela curiosidade, onde quer que predominem os maus instintos.

Longe de obter bons conselhos e informações úteis, só é possível esperar desses Espíritos futilidades, mentiras, brincadeiras de mau gosto ou mistificações, pois servem-se frequentemente de nomes veneráveis para melhor induzirem em erro.

Distinguir os bons dos maus Espíritos é extremamente fácil. A linguagem dos Espíritos superiores é constantemente digna, nobre, cheia da mais alta moralidade, livre de qualquer paixão inferior. Os seus conselhos revelam a mais pura sabedoria e têm sempre por alvo o nosso progresso e o bem da Humanidade.

A dos Espíritos inferiores, pelo contrário, é inconsequente, muitas vezes banal e mesmo grosseira; se dizem às vezes coisas boas e verdadeiras, dizem com mais frequência falsidades e absurdos, por malícia ou por ignorância. Zombam da credulidade e divertem-se à custa dos que os interrogam, lisonjeando-lhes a vaidade e alimentando os seus desejos com falsas esperanças. Em resumo, as comunicações sérias, na verdadeira aceção da palavra, só se verificam nos centros sérios, cujos membros estão unidos por uma íntima comunhão de pensamentos dirigidos para o bem.

A moral dos Espíritos superiores resume-se, como a de Jesus, nesta máxima evangélica: “Fazer aos outros o que desejamos que os outros nos façam”, ou seja, fazer o bem e não o mal. O ser humano encontra nesse princípio a regra universal de conduta, mesmo para as ações menores.

Os Espíritos superiores ensinam-nos que:
─ O egoísmo, o orgulho e a sensualidade são paixões que nos aproximam da natureza animal, prendendo-nos à matéria;
─ Aqueles que neste mundo se libertam da matéria, pelo desprezo das futilidades mundanas e pelo exercício do amor ao próximo, se aproximam da natureza espiritual;
─ Cada um de nós se deve tornar útil segundo as faculdades e os meios que Deus nos colocou nas mãos, como prova;
─ O forte e o poderoso devem apoio e proteção ao fraco, porque aquele que abusa da sua força e do seu poder para oprimir o seu semelhante viola a lei de Deus.

Ensinam-nos, enfim:
─ No mundo dos Espíritos, onde nada pode estar escondido, o hipócrita será desmascarado e todas as suas torpezas reveladas;
─ A presença inevitável e incessante daqueles que prejudicámos é um dos castigos que nos estão reservados;
─ Ao estado de inferioridade e de superioridade dos Espíritos correspondem penas e alegrias que nos são desconhecidas na Terra.

Os Espíritos superiores ensinam-nos, também, que não há faltas cujo perdão seja impossível e que não possam ser apagadas pela expiação. É nas sucessivas existências que o ser humano encontra os meios que lhe permitem avançar, segundo o seu desejo e os seus esforços, no caminho do progresso que conduz à perfeição, que é o seu objetivo final.”

Este é o resumo do espiritismo tal como resulta do ensino dado pelos Espíritos superiores.

NDE * EQM * Espiritismo – revisto e simplificado

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Desde há mais de 20 anos, em que casualmente me foi dado conhecer a existência das Experiências de Quase-Morte, convenci-me de que estava perante um fenómeno suscetível de transformar os paradigmas culturais mundiais em torno da questão da vida para além da morte.
Resolvi publicar este resumo, inicialmente em 2013, a respeito do que tinha aprendido sobre este tema.
Culturalmente julgo ter interesse ter feito agora uma breve revisão simplificativa, visto que se mantém uma possível utilidade para vasto número de leitores.

O que não está é atualizado quanto às fontes de pesquisa, visto que se trata de uma área de interesses em contínua expansão. Dizendo melhor: em contínua e explosiva expansão!
Envolvido numa quantidade de interesses culturais, não me é possível fazer melhor, peço desculpa.
Até à presente data, o tema tratado tem passado por desenvolvimentos fantásticos, que se vão alargando em todas as direções, ganhando horizontes, nomeadamente, nas áreas de nível académico, nos países cientificamente mais evoluídos.
A capacidade que qualquer de nós tem de se aperceber dessa extensão evolutiva, depende da capacidade de ler em línguas estrangeiras. A esse nível, o que está ao nosso alcance na Internet, NÃO TEM LIMITES.

Vou colocar aqui dois exemplos apenas, mas poderia acrescentar centenas de referências:

https://med.virginia.edu/perceptual-studies/our-research/near-death-experiences-ndes/

https://www.galileocommission.org/?s=nde

O presente trabalho, como o que fiz em 2013, tenta escalpelizar de modo breve as relações entre o espiritismo como área de interesses científico-filosóficos com vincadas preocupações morais e as Experiências de Quase-Morte, nas suas mais imediatas e importantes características.

As minhas melhores saudações.
José da Costa Brites
Lousã − PORTUGAL / Dezembro de 2019

A Génese de Allan Kardec, tradução de Gustavo N. Martínez

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Aqui apresentamos para todos os nossos visitantes a belíssima tradução em castelhano de “A Génese” de Allan Kardec, da autoria de Gustavo N. Martínez

Está adiantada a nossa tradução em português de Portugal.

Para aceder ao PDF do livro, é favor clicar na imagem da capa.

 

 

 

A prodigiosa mediunidade de Augustin Lesage, humilde mineiro e pintor espírita (1876-1954)

Nota para os visitantes conhecidos: este é o texto publicado aqui há vários anos,  com mais imagens e apresentação mais completa, resultante de textos traduzidos, publicados em:

Humilde e prestigiado servidor da arte mediúnica, expôs as suas telas surpreendentes de beleza e de luz, não obstante a sua avançada idade.

 

 

Deixemos que ele mesmo se nos apresente:

“…Chamo-me Augustin Lesage, nascido a 9 de Agosto de 1876, em St Pierre les Auchel, perto de Béthune, no Pas-de-Calais. O meu pai era mineiro, pois que vivia nesta região de minas. Andei na escola primária de St-Pierre-les-Auchel até à idade de 14 anos, altura em que fui trabalhar nas minas. Conheci ali o mais duro trabalho, durante 27 anos; deixei a mina a 23 de Julho de 1923.
Foi em Janeiro de 1912 que os poderosos Espíritos vieram manifestar-se-me, ordenando que desenhasse e pintasse, coisa que jamais havia feito anteriormente. Nunca tendo visto, até esse momento, um simples tubo de tinta para pintar, imaginem a minha surpresa perante tal revelação.
Ignoro completamente seja o que for a respeito de pintura.
– Não te inquietes por causa desse pormenor insignificante, responderam os espíritos. Seremos nós a conduzir as tuas mãos.
Recebi então, por escrito, o nome das cores e dos pincéis de que necessitava e comecei a pintar sob a influência dos artistas do além, sempre que chegava a casa extenuado depois do trabalho na mina. Tal fadiga, contudo, desaparecia quando me encontrava sob a influência dos espíritos.
Recebo sempre, por escrito, conselhos favoráveis a respeito dos trabalhos, que executo sem modelo, o que é uma grande facilidade para mim, por não ter de procurar compreender, visto que as composições não são de minha autoria. Sou apenas a mão que executa e não o cérebro que concebe o que faço.
Pinto sempre desperto, mas sem poder estar na presença de quem quer que seja. Represento aquilo que os vivos não podem ver, enquanto que os artistas pintores representam o que a natureza coloca perante o seu olhar. Permaneço em relação permanente com os nossos queridos amigos do além, que me trazem grandes revelações.
Raros são aqueles que concebem a fé vivida com esses espíritos, não material, mas espiritualmente.

Nada compreendo da confusão de cores diversas que aplico sobre a tela. De acordo com os conselhos que dão os meus amigos do espaço, as obras que executo representam todas as religiões associadas do passado longínquo. Tais enigmas serão por nós conhecidos um dia. De momento podemos chamar-lhe “pintura nova”…”.

Texto escrito por Augustin Lesage em Barbuse (Pas-de-Calais) a 20 de Maio de 1925
Este depoimento, de autoria do próprio Augustin Lesage foi confirmado por declarações emitidas por entidades independentes e organismos públicos, além de ser do conhecimento de muitos vizinhos e de grande quantidade de personalidades do mundo artístico e cultural com que o mesmo se relacionou ao longo da sua vida. Entre os quais, os seguintes:

“… o Presidente da Câmara da comuna de Burbure certifica que o Senhor Augustin Henri Lesage, aqui residente, nascido em Auchel no dia 9 de Agosto de 1876, exerceu sempre a profissão de mineiro e nunca frequentou nenhuma escola de desenho ou de pintura. Assinado em Burbure a 22 de Maio de 1925 pelo Maire Decroix…”

“…O abaixo assinado Emile Lacroze, engenheiro, director das minas de Ferfay-Cauchy, declara que Augustin Henri Lesage trabalhou como mineiro nas nossas explorações, de 23 de Agosto de 1890 a 14 de Novembro de 1897, (serviço militar), de 27 de Setembro de 1900 a 12 de Julho de 1913 e de 11 de Março de 1916 a 6 de Julho de 1923. Ass. 22 de Maio de 1925…”

De 7 a 14 de Junho de 1953 foram expostas na “Maison des Spirites”, situada no nº 8 da Rue de Copernic, em Paris, várias obras de Augustin Lesage, o mineiro pintor..

“…Observar-se-á nas obras qualquer coisa de completamente diferente de uma habilidade adquirida pela prática manual continuada que pudesse servir uma documentação recolhida aqui e ali e engenhosamente interpretada.
Aquilo que caracteriza a sua arte é incontestavelmente a invenção, e – em verdade – é impossível conceber de acordo com o raciocínio corrente como poderá Lesage, ao longo dos anos e isolado na localidade onde viveu, longe de qualquer fonte de informação, ter adquirido primeiro uma destreza técnica tal, e depois o conhecimento de utilização dos temas decorativos de que se serve – os quais evocam – com toda a originalidade pessoal e novidade – reminiscências persas e hindus.
Como poderá o extenuado mineiro, finda a sua jornada de trabalho, ter regressado para defronte da sua tela com capacidade para construir com pinceladas fáceis e subtis, esses pagodes fantásticos, e desenrolar seus bordados soberbos, associar harmonias cromáticas e coordenar tão enorme variedade de combinações gráficas?…”

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Quando pela primeira vez o médium se exercitou numa tarefa que ele julgava impossível, serviu-se – aconselhado pelas “vozes” e pelas mensagens escritas – de uma tela de 9 metros quadrados. Para começar era uma audácia. Estendeu-a como pôde, na sala inferior da casa, transformada em atelier. Era forçado, aliás, a tê-la parcialmente enrolada, de modo a poder avançar com o trabalho, dado que as dimensões da tela eram tais que excediam o tamanho do compartimento. As mensagens inspiradoras também lhe tinham dado instruções relativas à compra das tintas de óleo e respectivas cores, dos pincéis e dos godés nos quais diluía as cores com essência. Fora-lhe dado igualmente conselho de se ajoelhar e de orar, tal como fazia Fra Angelico, antes de iniciar o seu trabalho de pintor.

A partir desse momento o trabalho tornava-se fácil: empunhar ao acaso um pincel e erguer uma mão que um tremor súbito anima, colher tinta de um dos godés e, em gestos agora firmes, pigmentar a composição, já começada, de pequenos pontos, cuja justaposição, no seu conjunto, determina o conjunto das formas e define as gradações de cor e os detalhes da obra.

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Trabalho de uma extrema lentidão e de rigor impressionante. Labor de miniaturista, de iluminura, ocupava decorativamente vastas superfícies, porventura concebidas para um trabalho a fresco. Contudo, à força de preserverança, de dócil impassibilidade, Lesage acaba por cobrir toda a tela até ao limite das suas margens, sem esquecer, durante a execução, os retoques, repetições e rectificações que não derivam de seu motu próprio, mas da orientação do espírito artista ao qual obedece o artesão respeitoso. Estas referências e acentuações não são a parte menos extraordinária do trabalho. Sucede por vezes que o “inspirador” insatisfeito consigo mesmo, retém o pincel, durante várias semanas, sobre uma superfície de alguns centímetros quadrados, sempre, sempre rectificando as linhas e a coloração, correndo o risco de empastar ou produzir a confusão.
Não se passa nada diso. Os detalhes assim aprofundados são frequentemente os mais notáveis, pela sua estrutura de mosaico e o seu gosto cromático. É com espanto que se descobrem alusões à paleta e aos tons pastel do grande visionário que foi Odilon Redon.
Não é exagero dizer-se que no tempo presente, ninguém poderia inventar ritmos ornamentais, com tal fantasia e riqueza. Tais são os que criou o pincel de Lesage, achados com tanta felicidade, que os criadores de rendas de Calais vieram a Burbure procurar ideias para novos modelos.
Que ali não se busquem regras de composição escolástica. Nem mais ciência no equilíbrio de volumes que no jogo de valores. Poderia falar-se de valores. Ou de ramos de flores, de vagas iridiscentes e de vibrações luminosas.
Perto, arquitecturas atrevidas, acentuadamente alinhadas e fantasticamente sobrepostas; pés-direitos que sustêm arcadas, cúpulas às quais se associam galerias de onde se projectam abóbadas, recortadas por pilares incrustados de pedrarias, que conduzem a miradouros, ameias e lanternins. Nestas estruturações acontece que uma cripta sustem uma nave e os seus altares, contudo, sem obediência à realidade. Lesage (ou o espírito, mais propriamente) ultrapassa as circunstâncias, zomba da resistência dos materiais, cria a instabilidade, lança um piso imenso sobre uma cúpula central, reedifica um segundo templo por cima dum primeiro. Um arquitecto rir-se-ia. Um pedreiro diria: “é impossível!”; um decorador exclamaria: “é improvável, mas com estilo, brilhantismo e um emaranhado que encanta a vista!…”.

M. Cassiopée.
Extrait de la Revue Spirite de Mai-Juin 1953.

 

.“…Em geral as coisas são vistas em corte. O olhar do espectador mergulha no interior de um movimento prodigioso, ali se perde e se conduz no entanto através de uma multiplicidade de artérias, de capelas e naves laterais, onde se mostram – em tonalidades neutras – misteriosas neblinas nas quais flutuam cintilantes painéis, caixotões e nervuras, nas quais se dispersam em leves grinaldas – pérolas, corais, safiras, esmeraldas e rubis.
Lesage teve, pelo menos, duas fases, precedidas de uma primeira, feita um tanto às apalpadelas, que produziu painéis que se encontram expostos em diversas instituições, à maneira de estuques relevados nos quais se encontra toda a delicadeza e as cores aveludadas de um Vuillard. A primeira fase é menos sensacional que a segunda.
(…)
Como artista, “Augustin Lesage apresenta-nos um dos mais belos casos de mediunidade pictórica …”.
“…atingiu uma arte depurada, lúcida, suave, leve, onde a invenção decorativa retoma curso livre com à-vontade e variedade, extremamente sedutora, pela franqueza de toques feitos em geito de esmalte. É-se levado a pensar que talvez o artista mineiro tenha tido dois “guias” pintores, o que não é hipótese sem fundamento.
No dia em que visitámos em Burbure o atelier do médium, exprimimos essa opinião ao comparar as telas antigas com as actuais. Lesage teve imediatamente uma comunicação psicografada, cujos termos elucidavam que o pintor tinha sido conduzido na execução da sua obra por duas entidades distintas, uma delas dedicada aos temas arquitectónicos e outra para a vertente puramente decorativa. As nossas suposições foram desse modo confirmadas e bem assim o facto de os seus inspiradores serem de origem asiática, o que se encontrava esclarecido na já mencionada comunicação: a primeira entidade era Indu e a segunda vivera muito tempo no Extremo Oriente…” 

 

 

A história da Colheita Egípcia

Procurámos sem êxito uma reprodução da Colheita Egípcia…

Um facto mais do que marcante, nós diríamos revelador, é o da história da “Colheita Egípcia”.
Em Outubro de 1938, Augustin Lesage começou a tela da “Colheita Egípcia”. Terminou-a dois meses depois, em Dezembro.
As suas disponibilidades financeiras mantinham-se escassas, fiéis à definição que Allan Kardec fornecia da mediunidade de que o que é um dom da mediunidade não é para ser objecto de negócio.
Bela lição para aqueles que, nos nossos dias, se proclamam mestres em ciências do espiritismo e que fazem negócio com ele.
Sabe-se que a coberto das interpretações de tais “mestres”, a mediunidade é afastada do seu sentido espiritual. Para isso fazem uso da palavra “parapsicologia” e de outras designações,  para enganar todos aqueles que desejam compreender o sentido cristalino da alma tal como era entendido por Allan Kardec.
Saberão escutar as suas vozes interiors? Saberão o que é de facto a mediunidade?
Desejamos que sim muito fraternalmente, antes de mais por si próprios, e por uma questão de respeito por tudo aquilo que recebemos do mundo espiritual, portanto da fonte divina.
Regressemos contudo a Augustin Lessage, num dia de 1939, em que almoçava com seu amigo Fournier. Foi informado que a Associação Guillaume Budé estava a organizar um cruzeiro ao Egipto e de que esse mesmo amigo lhe oferecia a viagem.

Marie-Christine Victor conta no seu livro:.

“…Em Marselha, no dia 29 de Fevereiro de 1939, ao meio dia, Augustin Lesage embarcou com o seu amigo Fournier no navio “El Mansour” (…). Teve oportunidade de conhecer a bordo um egiptólogo de nomeada que se manifestou muito interessado na obra que descobrira por ter visto uma dúzia de quadros seus, dentre os quais a “Colheita Egípcia”.
– Porque é que atribui tanta importância a esta última tela? Perguntou ao velho mineiro.
– Porque, respondeu ele, não é apenas da última que pintei, mas porque os meus guias me revelaram que eu iria reencontrar o fresco da época egípcia que representam os trabalhos da colheita…”.
“…o egiptólogo não partilhou essa opinião, derivada mais de um acto de fé que de um processo científico, dado que apenas é científico e válido aquilo que é material e tangível. Não acreditou pois um só instante que a tela de Lesage pudesse ser outra coisa que não produto da sua imaginação ou dos seus fantasmas. O artista não ficou minimamente impressionado pelo espírito científico do seu companheiro de viagem e preferiu tomar a atitude prudente de quem está tomado pela certeza profunda, logo, fora do comum…”
“… No Domingo 26 de Fevereiro chegámos a Alexandria e no dia imediato ao Cairo. Foi a tomada de conctacto com o Egipto moderno.
…arquólogos franceses tinham por missão acompanhar e dar explicações aos turistas dos quais fazia parte Augustin, a respeito da história e do significado dos monumentos da época faraónica…”
“…Augustin viu a imensa estátua de Ramsés II caída na areia, e a esfinge de Memfis, a pirâmide de Sakkarah, construída 5000 anos antes da nossa era, no tempo do rei Toser. Por fim as grandes pirâmides de Kéops, Kefren e Mikerinos, a grande esfíngie de Gizé, conhecida em todo o mundo. Experimentou um sentimento profundo:
– Como se tudo aquilo fosse para mim mais do que uma curiosidade, como se as pedras me fossem familiares, como se esse novo país que nunca tinha visto não me fosse inteiramente desconhecido, causando-me mais um sentimento de apego que de admiração…”

Tal caso não nos surpreende, tendo sucedido o mesmo, mas com muito mais rigor e certeza no caso de Lucienne Marmonnier, igualmente uma artista médium. Para nós, espíritas, é facto adquirido que Augustin Lessage deve ter vivido uma encarnação no Antigo Egipto; de outro modo o sentimento do momento já vivido não teria em si uma tão grande ressonância.

“…Nos dias seguintes visitámos o Museu do Cairo onde se encontram expostos, em especial, todos os objectos encontrados no túmulo de Toutankhamon. No dia 4, Sábado, partimos para o Sul, até à primeira catarata, tendo a visita ao Alto Egipto começado por Assouan.
Augustin Lesage, depois de ter visitado Luxor e e visto a base sobre a qual estava colocado o obelisco que actualmente se encontra na Praça de la Concorde, em Paris, chegou ao Vale das Rainhas.

Escutemos aquilo que nos contou:
– Dois anos antes, neste vale, fora desenterrada uma pequena povoação. O arqueólogo contou-nos que no tempo de Ramsés II, da XVIII dinastia, cerca de 1.500 anos antes da nossa era, a mesma povoação era habitada por 700 a 800 operários especializados em trabalhos funerários. Tais operários eram preciosos porque os Egípcios davam mais importância à sua morada eterna que às casas em que habitavam durante a sua vida, e que não necessitavam de uma decoração tão rica, dado o curto lapso de tempo que dura a vida.
Um dos operários chamava-se Mena. Encontrámos o seu túmulo, com muitas inscrições e cenas que descrevem o que foi a sua vida. Desse modo ficámos a saber como se chamava. Nos momentos durante os quais não trabalhava na execução dos túmulos oficiais , Mena tinha sido autorizado a trabalhar no seu próprio túmulo, um pouco afastado da localidade. Visitámos esse pequeno túmulo que continha uma vintena de sarcófagos e, de repente, apercebi-me de um fresco bem pintado numa das paredes, bem conservado e – nesse mesmo fresco – reconheci a cena da “Colheita Egípcia”.
“Apoderou-se de mim uma forte e complexa emoção, que teria grande dificuldade em descrever com exactidão. Pareceu-me, de repente, sentir-me muito próximo dessa pequena cena ainda intacta, ao vê-la tão parecida com aquela que havia pintado, e pareceu-me que também eu era o seu autor.

Estabeleceu-se entre a pintura e eu uma relação indefinível, sem ser possível esclarecer se tinha acabado de pintá-la ou se apenas a encontrara. Desejei ter ficado junto daquela comovente e fresca pintura mural. Senti-me imobilizado, simultaneamente suspenso e esmagado pela surpresa.”
“…E a alegria, uma imensa alegria me invadiu, como se fosse a de um exilado de regresso ao seu povoado…”

Claro e perceptível se torna que, as coisas a que somos sensíveis, não se encontram no ensino dos livros, mas sim na mais profunda intimidade da alma.

“…Fiquei tomado de entusiasmo, o meu sangue pulsava, era puro e carregado de afecto o ar que respirava dentro do túmulo e a experiência que tivera entrava com toda a nitidez comovida nas minhas recordações, o acontecimento mais claramente marcante da minha vida, de resto, bem repleta de surpresas…”
(…)
No dizer do arqueólogo que nos acompanhava, o túmulo, descoberto havia apenas dois anos, era pouco conhecido e tinha sido até então muito pouco visitado. Acentuou, face às perguntas dos turistas, que não poderiam existir reproduções do fresco em França. O que excluiu a ideia de uma cópia a partir de qualquer revista ou uma reprodução inconsciente depois de leituras feitas sobre o assunto…”

Augustin Lesage concluiu depois esta maravilhosa revelação de uma vida anterior:

“…Compreendo enfim aquela viagem, desejada durante tanto tempo, e que fora impossível até àquele momento. Não era necessário que visitasse o Egipto antes da descoberta do fresco; era necessário que a visse para que ficasse provado que os meus quadros não são o fruto da minha imaginação, e que a minha mão é o instrumento de um cérebro que não é meu…”.

Marie-Christine Victor pensa da seguinte forma:.

“…Como poderia existir trucagem num caso somo este? Como é que um mineiro que não saiu da sua aldeia poderia ter visto e reproduzido um fresco que se encontrava a tantas léguas de sua casa, que até os próprios egiptólogos desconheciam ainda e que, por isso, nenhuma revista poderia ter publicado?…”

É bem entendido que as críticas mais preversas e mais dolorosas para Augustin Lesage não faltaram, mas amar e servir a Deus também é aprender o que está por detrás do sofrimento, e qual o motivo porque, como dizia Santa Teresa de Ávila “há tão poucos amigos”..

Augustin Lesage dizia:
“… Não quero enganar ninguém. Não odeio ninguém. Não desejo mal a ninguém… Não desejo nem a riqueza nem a celebridade. Não tenho senão o desejo ardente de ser acreditado, porque aquilo que digo é verdade, porque aquilo que vivi é autêntico. Desejo sobretudo que a mensagem do invisível seja recebida e compreendida por todo o mundo, com o respeito e a admiração que ela não pode deixar de suscitar…”

Marie-Christine Victor afirma que a prece de Lesage não ficou sem resposta (como, de resto, todas as preces sinceras). Os seus guias avisaram-no de que iriam executar um trabalho e que seria necessário convidar um público que viesse vê-lo trabalhar.

A prova seria dada dessa forma de que toda a obra do pintor tinha sido feita de forma honesta e com pureza de intenções.
Desta forma, no dia 24 de Fevereiro de 1947, em Marrocos, pintou uma tela em público. Foi feito nessa altura um abaixo-assinado com 112 assinaturas entre as quais médicos, psiquiatras, professores, jornalistas, comissários de polícia, pintores, arquitectos…”
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Composição Simbólica  do Mundo Espiritual, Augustin Lesage, 1923

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Razões válidas para ler o livro do Juiz Patterson-Hatch / Comentário 01

 

Cartas de um Espírito Vivo e Lúcido
depois da sua morte física / comentário 01

Elsa Barker foi a médium que emprestou a mão a David Patterson-Hatch para escrever as suas cartas com um resumo prático e vivido no MUNDO ESPIRITUAL, logo a seguir à sua morte física em 1912, com muitíssimas informações interessantes e valiosas, a respeito dessa sua magnífica experiência.

Elsa Barker (1869–1954)

Lá para o fim da sua Introdução da obra, diz-nos Elsa Barker:


“…O efeito que estas Cartas produziram em mim, foi o de me libertarem completamente do medo da morte, que teria tido desde sempre, fortificando a minha crença na imortalidade e fazendo da vida de além-túmulo uma viabilidade tão real e vital como a que vivemos aqui à luz do Sol.


Se estas Cartas conseguirem produzir numa única pessoa o mesmo sentido exultante da imortalidade que tiveram em mim, já me sentirei inteiramente compensada pelo meu trabalho.


Para aqueles que quiserem censurar-me, apenas posso dizer que sempre tentei dar o meu melhor ao mundo e que estas Cartas talvez sejam uma das melhores coisas que tenho para lhe dar…”

Numa das suas primeiras cartas diz-nos o verdadeiro autor:

Carta 5 – a promessa de coisas nunca ditas


Depois de certo tempo irei partilhar consigo certos conhecimentos que adquiri desde que saí daí. Vejo agora o passado como por uma janela aberta. Vejo a estrada que percorri, e posso traçar um mapa do caminho que quero seguir a partir de agora.

Tudo parece fácil agora. Poderia fazer o dobro do trabalho que faço – sinto-me forte. Até agora não me fixei em lado nenhum, ando por aqui e por ali, ao sabor da fantasia. É assim que eu gostaria de ter feito enquanto vivo no corpo, e nunca tive essa possibilidade.


Nunca tema a morte, mas fique na Terra o máximo tempo que possa. Não levando em conta as companhias que tenho aqui, lamento não ter aproveitado o mundo ao máximo. Os lamentos aqui, contudo, valem muito menos que aí – como os corpos.

Tudo está bem comigo.

Vou contar-lhe coisas que nunca foram contadas!



Este foi um primeiro comentário publicado aqui, para motivar os nossos visitantes para a utilíssima descarga e leitura da obra traduzida. Os comentários, com uma síntese prática do conteúdo do livro, não vão ficar por aqui…

O leitor/tradutor que muito aprendeu com a tarefa

José da Costa Brites
Lousã, Portugal

 

A Serra da Lousã, que eu vejo todos os dias…  (clicar…sff)

Cartas de um vivo depois de morto, de Elsa Barker, apresentação e tradução

Cartas de um vivo depois de morto

Algumas pessoas exactamente como nós têm o dom da  audição e da escrita automática, entre outros, a que se chama “mediunidade”.
São detentoras de uma sensibilidade especial, até sem o saberem em muitos casos, podendo ouvir as vozes dos seres já ausentes no mundo espiritual, por ter falecido o seu corpo, mantendo-se viva a sua consciência moral e intelectual, como nos acontecerá a todos.
É um facto que se pode comprovar experimentalmente com toda a clareza e permite-nos saber exactamente o que irá suceder-nos depois da relativamente breve viagem da vida terrena. 

A autora desta obra, Elsa Barker tinha essa capacidade e, num serão de 1912, vivendo em Paris, sentiu-se inspirada para escrever uma mensagem de alguém que de início se identificou apenas como “Senhor X”. Depois de ter revelado isso a um amigo bastante próximo, foi-lhe retorquida a pergunta se não sabia quem era o tal “Senhor X”, amigo seu, o Juiz David Patterson-Hatch. Assim começou a série de cartas enviadas “do lado de lá”, com a narrativa das aventuras do Juiz Hatch após a sua vida. Essas cartas foram publicadas numa obra com o título “Lettres from a Living Dead Man” (tradução à letra: “cartas de um vivo morto”), em 1914.

Desconhecido da Senhora Barker, ao tempo da primeira mensagem, o Juiz  tinha falecido recentemente, a muito mais do que 9.000 quilómetros, na Califórnia. Isso foi confirmado por uma carta recebida dias depois:

“Nas primeiras cartas não disse quem era o autor, por não estar ainda autorizada pela sua família. No Verão de 1914, estando eu a viver na Europa, uma longa entrevista com o Senhor Bruce Hatch publicada no New York Sunday World, exprimiu a convicção de que as “Cartas” eram comunicações autênticas de seu pai, o falecido Juiz David P. Hatch, de Los Angeles, na Califórnia.

Depois disso Elsa sentiu-se livre para revelar o seu verdadeiro nome, quando fosse oportuno.

Quem era Elsa Barker?

Elsa Barker, poetisa, novelista e escritora, nasceu em 1869 em Vermont, estado da Nova Inglaterra. O pai era pessoa interessado pelo oculto, e ela partilhava esse interesse. Tornou-se membro da Sociedade Teosófica e também se iniciou na Ordem Rosacruz. Foi professora durante um breve período, tendo passado a dedicar-se a escrever para jornais e revistas. Em determinada altura conheceu o Juiz Hatch, tendo-se tornado amigos. Por ironia do destino, nunca se tornou muito conhecida pelos livros de sua própria autoria.

“Letters from a Living Dead Man” é um conjunto de comunicações inspiradas e otimistas, feitas depois da morte que, depois de 1914 alcançaram alargada popularidade. Foram consagradas como ajuda importante para dissipar o medo da morte. O livro descreve a vida depois da morte com numerosos detalhes, incluindo as consequências do suicídio, a forma como os entes queridos se encontram e o relacionamento com os seres altamente evoluídos.

O juiz David Patterson-Hatch

David Patterson-Hatch nasceu em 1846 no Estado do Maine, numa família de agricultores. Licenciou-se em Direito na Michigan Law School, em Ann Arbor, em 1872. Em 1875 mudou-se para Santa Barbara, na Califórnia onde desenvolveu uma carreira respeitável. Em 1880 foi eleito Juiz do Supremo Tribunal.

O Juiz Hatch não era um homem vulgar. Sempre se interessou pela metafísica e pelas religiões orientais. Passava muito tempo em contacto com a natureza, meditando na floresta. Escreveu e publicou trabalhos de carácter filosófico e outros a respeito do oculto. Quando faleceu em 1912 o “Los Angeles Times” designou-o como “um homem notável” que era “extremamente versado em profundas filosofias da vida” e que obtivera “profundo conhecimento das leis universais que, embora naturais para si mesmo, tinham dimensão mística para aqueles que não tinham acompanhado o seu notável avanço mental”.

As “Cartas de um Vivo depois de Morto” foi começado a escrever em 1912 e publicado em 1914, imediatamente antes da primeira Guerra Mundial.

Depois da publicação do livro, o espírito de David fez uma viagem pelos reinos celestes, estando a preparar-se para escrever a esse respeito. O início da guerra, contudo fizeram com que mudasse de ideias, por julgar que era mais importante escrever a respeito dos efeitos que a guerra tinha sobre a realidade do mundo espiritual e das suas ligações com o mundo material.

O Espírito de David Patterson-Hatch escreveu mais dois livros, um publicado em 1915  “Cartas da Guerra de um Vivo depois de Morto” e em 1919 “Últimas cartas de um Vivo depois de Morto”.
Elsa Barker faleceu em 1954.

Os livros referidos estão amplamente divulgados na Internet,  livres de direitos de autor, pelo menos para fins de divulgação cultural, não comercial. Têm sido lidos por uma imensa quantidade de interessados.

“Cartas de um vivo depois de morto” em português, prefácio do tradutor

Para ler as CARTAS DE UM VIVO DEPOIS DE MORTO:

– Manter uma atitude de curiosidade liberta;
– Respeitar a intenção generosa e desapaixonada do autor;
– Não formalizar nem tornar definitivas as informações transmitidas;
– Não sustentar visões preconcebidas procurando “comprovar coisas”;
E principalmente:
– Aceitar a subjectividade do que é dito, atendendo que não se trata de um telefonema daqui perto…

Tendo encontrado este livro, originalmente escrito em língua inglesa, li-o numa versão americana de 1914 que me interessou imenso.
Tendo uma vaga ideia de como funciona o meio espírita, concluí imediatamente que iria permitir a algumas pessoas chegar a conclusões erróneas, quer quanto ao conteúdo das informações nele contidas, quer para justificar e “comprovar” certas teorias relativas a conveniências doutrinárias.
Trago aqui este trabalho sem intenções ocultas, para poderem alargar ideias sobre a “naturalidade” otimista e luminosa do futuro extraordinário que nos está reservado, em contexto de abertura de espírito.

Uma leitura deste como de outros livros, tem que ser aberta e lúcida. Só assim respeita o melhor que nos quer dar o autor, da forma mais proveitosa para nós próprios

José da Costa Brites
Lousã/Portugal – Julho de 2019
https://palavraluz.com/

Para ter acesso ao PDF com a tradução em português da obra acima apresentada, é favor clicar no link abaixo:

Cartas de um Vivo depois de Morto

Novo texto de recordações de Leiria, cidade de tradição espírita

Este registo de memórias é feito com uma diminuta porção das minhas magníficas recordações da cidade de Leiria, de todas as suas gentes e da sua riquíssima cultura sensível de humanidades, de que fui amplamente beneficiário.

Também quero prestar homenagem, que não ficará por aqui, a todos os portadores da filosofia espiritualista que ali conheci, entre eles os mais dedicados militantes e organizações espíritas, ali activas, pelo menos desde Maio de 1917, o antigo Centro Espírita de Leiria, encerrado pelo fascismo dogmático de 28 de Maio de 1926, e da Associação Espírita de Leiria, ali reerguida depois de 25 de Abril de 1974.

Muito perto do antigo Centro Espírita de Leiria, pintura de 70×90 cm, feita pelo autor desta página em 1990. Mostra uma das extremidades de uma espaçosa praça conhecida pelo nome de “O Terreiro”. Col. Agostinho de Almeida Santos

– As raízes da cultura espírita na minha família;

– O Centro Espírita de Leiria, fundado em 2 de Maio de 1917;

Augusta Pereira Brites; contactos com a Dª Adolfina Carriço Portugal e trabalho no Centro Espírita de Leiria;

– A intolerância dos tempos passados;

– A minhas percepções e primeiros entendimentos do fenómeno espírita; fenómenos benévolos e experiências dolorosas; O auxílio da Dª Adolfina e os apoios de minha avó Cristina e tia Augusta;

– A Senhora Dª Adolfina Carriço; memória breve e longínqua;

– A minha amizade e contactos com o Senhor Delfim Luís Pires;

– memórias de Leiria; o Senhor Vasconcelos (Joaquim Inácio Zapata de Vasconcelos).


Nota de lembrança muito agradecida inserida na nossa tradução de “O Livro dos Espíritos”, pelo imenso valor que teve para nós a mensagem que nos deixou:

Saudações espirituais, com votos da mais intensa LUZ para o nosso querido amigo Joaquim Inácio Zapata de Vasconcelos que, por iniciativa generosa, nos entregou com entusiasmo espontâneo uma nova e maravilhosa imagem do mundo e da vida.

Já lá vão uns bons sessenta anos, passeando à noite, ao longo das margens do Rio Lis.

JCB/MCB


As raízes da cultura espírita na minha família derivam das iniciativas de contactos estabelecidos pela minha avó paterna Cristina Pereira Brites (n. 1884) e suas duas irmãs Maria Pereira Brites (um pouco mais velha) e Augusta Pereira Brites (n. 1888). Eram filhas de  Joaquina de Jesus Brites, da Martinela, freguesia do Arrabal, e de Paulino Pereira, da Abadia, freguesia de Cortes.
Foram eles que fundaram a casa situada na Martinela onde viveu até ao seu falecimento recente, uma filha de Augusta, Celeste do Rosário Brites Soares Pinto, e onde fundaram um pequeno negócio, na Ribeira da Martinela junto do Padrão, na estrada que vai de Tomar a Leiria (EN. 113), no tempo em que ainda não havia carros e o local era paragem para muitos viajantes, apenas a 7 km de Leiria.
Os maridos das duas irmãs de Augusta, Maria (com três filhos muito pequenos) e Cristina (à espera de um menino que viria a ser meu pai, José Pereira da Costa Brites) emigraram para Moçambique tendo, por grande desgraça, falecido ambos por enfermidades ali contraídas.
Traumatizadas por esse facto e desejosas de se aproximarem da vida do Além, onde acreditavam encontrar-se, bem vivos, os seus amados maridos, estabeleceram contactos em Leiria (nos fins dos anos 20 do século passado) onde facilmente se integraram na comunidade espírita, dado que eram – apesar de gente modesta – pessoas de fino trato, com educação ainda assim preciosa nesse tempo. A minha tia Maria tinha feito a quarta classe e a minha avó Cristina tinha estudado dois anos em Moçambique num colégio de freiras, por ali ter vivido em companhia de seu pai.

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Família de Joaquina de Jesus Brites (n. 1855) e Paulino Pereira. Joaquina está sentada ao centro rodeada, à sua direita pelas suas filhas Cristina e à sua esquerda, Augusta Pereira Brites. As duas figuras masculinas do lado direito da foto, foram acrescentados a esta imagem, por estarem noutra fotografia, feita em Lourenço Marques. Sentado está o meu bisavô Paulino Pereira e seu filho Alfredo Pereira Brites, jornalista e Cônsul de Portugal na Rodésia. De pé, da esquerda para a direita filhos de Joaquina: Albina, Maria, Conceição e José Pereira Brites.

– Augusta Pereira Brites; contactos com a Dª Adolfina Carriço Portugal e trabalho no Centro Espírita de Leiria;

A minha tia Augusta Pereira Brites, no dizer de sua filha Celeste do Rosário, era pessoa “visitada pelos espíritos”. Tinha uma elevada receptividade e possuía uma fina sensibilidade literária. Sob a orientação doutrinária da Senhora Dª Adolfina Carriço Portugal, com quem manteve contactos de confiança e proximidade, exerceu as suas capacidades mediúnicas no Centro Espírita de Leiria, situado perto do Terreiro, como esclareceu a minha prima Celeste. Em criança, acompanhava a mãe e as tias a essas sessões, tendo a ideia da existência de um salão espaçoso onde decorriam as sessões de doutrinação e encontros vários. Lembra-se de ser acarinhada pelo professor Nicolau Ferreira, que mais tarde – na sua adolescência – colocou à disposição dela a sua bem nutrida biblioteca, por ser muito interessada pela leitura.

J. Nicolau Ferreira, entre outras funções e actividades, foi director de “O Sol do Porvir”, belíssimo e bem documentado jornal publicado durante bom número de anos pelo Centro Espírita de Leiria, que teve largo número de leitores e assinantes, espalhados por Portugal e pelo mundo, como pode ser documentado.

Lembrava-se Celeste, e deu-me confirmação do facto de que era a Dª. Adolfina Carriço Portugal que dirigia os trabalhos e era a médium superior. Ouvia as mensagens do além e transmitia-as.
Num maço de antigos papéis que a minha mãe guardou de forma reservada, disponho de vários documentos de alguma importância evocativa, um dos quais contém alusões específica à “irmã Adolfina” e ao “irmão Pinto” (muito certamente Joaquim Mateus Ramos Pinto) e que é uma cópia escrita pelo próprio punho de minha mãe, de uma comunicação de 26 de Janeiro de 1929, feita ao Grupo Luz da Verdade, no qual participaria minha avó e minhas tias.

A intolerância dogmática dos tempos passados

A tia Augusta, integrando um grupo familiar, depois da proibição governamental e do encerramento do Centro Espírita de Leiria, passou a usar os seus dotes mediúnicos, fazendo uso deles para ajudar pessoas que a procuravam. Estes auxílios, como é norma da doutrina espírita, eram sempre dados de forma gratuita.
As irmãs Maria e Cristina que viviam em Leiria não tiveram problemas, dado que havia uma maior tolerância mas na Martinela o meio era hostil, tanto por parte dos padres católicos como em geral das pessoas a eles afectas.
Tiveram de deixar de frequentar a Igreja Católica que não as admitia. A Celeste e a Mãe foram postas de parte e até o telhado lhe apedrejavam de noite, com grande transtorno que sofreram, sendo como eram uma mulher só e uma filha ainda criança, que tinham ficado ali devido à exploração do pequeno negócio que haviam herdado de seus pais.
As miúdas, na escola, diziam à minha prima Celeste: “Tu quando morreres vais para o Inferno, com a tua Mãe, porque vocês falam com o diabo”. Sofreram muito e a Celeste decidiu afastar-se do espiritismo.

Ainda criança, Celeste do Rosário decidiu candidatar-se à primeira comunhão e declarou ao padre da freguesia do Arrabal que era essa a sua vontade. Narra igualmente o episódio da conversa havida com ele, a entrega do livro com a teoria da catequese e o dia dessa comunhão, em que sua mãe a acompanhou à igreja e a partir do qual passou a ir à missa com ela. Comenta a propósito não ter sido a mãe que a levou à missa, e sim ela que levou a própria mãe.
Mas as dificuldades e barreiras da intolerância duraram tanto que, quando a minha avó Cristina faleceu na Martinela, já em Janeiro de 1968, nenhum padre quis acompanhar o funeral, apesar da solicitação insistente da nora Maria de Lurdes Brites, minha mãe. Nessa mesma altura foi a minha prima Celeste que teve a iniciativa de se substituir ao padre, fazendo as orações de encomendação da alma da defunta conforme eu próprio mantenho em memória viva e sensibilizada.

A minha querida tia-avó, Augusta Pereira Brites, nascida em 26 de Fevereiro de 1888

A menção que faço da minha tia Augusta Pereira Brites não tem por objectivo glorificá-la como personalidade ligada ao antigo Centro Espírita de Leiria.
O que faz justiça, sim, é a um grande número de pessoas simples, que – de forma altamente modesta e abnegada – foram alimentando a chama de uma cultura e de uma percepção das realidades de aquém e de além vida, que dessa forma foram atravessando o tempo e a sociedade em que vivemos, como facho de luz apontado a um futuro esclarecido e repleto de justas esperanças.
Mais me ocorre certificar, pelo conhecimento que tenho das adversidades que enfrentou e das muitas dores que padeceu – no corpo e no espírito – que tais pessoas arderam nas chamas de uma inquietação sem refrigérios de paz, tolerância e sem o devido apoio da sociedade que as rodeava.
As minhas preces, ainda hoje se elevam em preito de gratidão e memória que tenho da sua abnegada solidão, de que fui conhecedor ainda em sua vida, e permanece nas recordações da filha Celeste, muito recentemente falecida, já com 93 anos de idade, e que tão elegantemente exprime nas suas palavras ditas e na sua vasta obra escrita, por ter herdado de sua mãe um cristalino talento poético e um invulgar bom gosto literário.

Eu, José da Costa Brites e a minha prima Celeste do Rosário Brites Soares Pinto, em Setembro de 2012, no Padrão/Martinela/Leiria.

As minhas percepções e primeiros entendimentos do fenómeno espírita; fenómenos benévolos e experiências dolorosas; o auxílio da Dª Adolfina Carriço e os apoios de minha avó Cristina e tia Augusta;

Uma fase marcante na minha própria assimilação intuitiva das realidades da vida dos espíritos teve lugar entre os meus sete e nove anos, logo após o falecimento de meu pai, no dia 15 de Dezembro de 1949, por desastre de automóvel, por terem ocorrido comigo alguns episódios de hipersensibilidade.
Tinha-se dado com a minha mãe, por essa altura, o mesmo fenómeno que se havia passado com a sua sogra Cristina e tia Augusta (por afinidade): um desejo de aproximação do Além. Conservo dessa altura em meu poder, escrito pelo próprio punho de minha Mãe, o texto de uma comunicação espírita efectuada por intermédio dos dotes mediúnicos da minha tia Augusta, datado de 7 de Fevereiro de 1950 e que reputo – pela claridade da linguagem e pela contida elaboração das ideias – um documento de preciosidade espiritual.
Os fenómenos por que passei a que acima aludo foram de vária ordem, alguns de carácter benévolo (e até inspirador), mas outros foram de tipo acentuadamente negativo. Aqueles que eram de tipo benfazejo fazem parte de um grupo que eu chamo as minhas “memórias do céu”. Ocorriam quando eu estava acordado, e surgiam – teria eu cerca de 5 anos, ainda era vivo meu pai – como visões de paisagens, cores, nuvens e horizontes abertos por sobre a vastidão do “céu”. O disparador dessas visões era a contemplação de qualquer imagem ou figura que tivesse cores ou sugestões figurativas de certo tipo.
Quando eu folheava uma qualquer revista, e a minha visão captava uma dessas imagens, sentia abrir-se perante o meu olhar como um “prolongamento”, ou uma amplificação de horizontes sugestivos que eu aceitava com vaga admiração a que a frescura da infância tornava quase natural, mas que comunicava uma certa vertigem.
Há um termo na pintura (que vim a praticar mais tarde) ou na poesia – o das “paisagens interiores” – que, tenha o sentido que tiver para quem a usa, ficou – no que me toca – para sempre ligado a essa vertigem feita de luz, espaço coroado de nuvens coloridas que abrem para a altitude sem margens, nem chão, num cenário que é um convite ao voo, infinito além.
Quanto às minhas vivências negativas, só num documento específico para esse efeito, dada a sua complexidade e consequências respectivas.

Nessa altura, foi a Senhora Dona Adolfina Carriço, solicitada por intermédio de minha avó Cristina e de minha tia Augusta, que exerceu o seu ministério espiritual em minha defesa e aconselhamento
Foram também preciosos os ensinamentos carinhosos de minha avó Cristina e de minha tia Augusta, que me ensinaram a aplicar a vontade, a exercer o direito de recusa da abordagem dos espíritos que frequentemente me abordavam mediunicamente.
Esse sentimento experimentei eu ainda, de quando em vez, até à minha adolescência, em episódios cada vez mais espaçados, de uma certa “distracção” que conduzia à vulnerabilidade.
A idade adulta varreu (ou não…) o acesso a essa angústia. Julgo que alguma coisa porventura ficou e que persiste em mim, algures, em espaços de inquietação da mente objectiva e subjectiva.

A Senhora Dª Adolfina Carriço; memória breve e longínqua;

Da Senhora Dona Adolfina, a cuja presença fui levado, com menos de dez anos, na companhia de minha mãe, à sua casa na Rua Comandante João Belo, guardo uma memória cheia de respeito e grande mistério.
Era uma pessoa por cuja fisionomia e por cujas palavras não passava a mínima aragem de frivolidade ou de alegria leve. Era duma serenidade grave, interiorizada e – nos breves encontros que me foi dado ter com ela, em sua casa ou em raras abordagens na companhia de minha mãe, recolhi a percepção de que carregava sobre os seus ombros o peso imenso de uma profunda responsabilidade.
A sua presença física era de uma enorme fragilidade, dir-se-ia quase imponderável. Quando passava por mim na rua, olhava-a com o receio das pessoas muito jovens que vêem alguém todo feito de respeitabilidade intocável. Ou era de desgostos porque tivesse passado, ou porque não ia ali nada que fosse superficialmente natural, ou fácil ou sem o artifício complexo do que é sabiamente oculto.
Fosse outro porventura o seu feitio perante pessoas da sua intimidade, foi este a impressão sensibilizada que me foi dado captar, em encontros já muito longínquos.

A minha amizade com o Senhor Delfim Luís Pires

Anos mais tarde, teria eu doze anos (portanto 1954 e daí por diante) a minha mãe dirigiu-se ao Senhor Delfim Luís Pires, conhecidas que eram as afinidades entre ele e minhas tias e avó e a consideração que tinha tido pelo meu pai, para lhe pedir auxílio nos meus estudos. Eu não tinha má vontade no trabalho, mas era comandado por uma fragilidade hipersensível a que a viuvez deprimida da minha mãe não era alheia.

casa onde morava o Senhor Delfim Luís Pires, situada no “Largo do Sete” ou seja, o largo que confinava com o Regimento de Infantaria Sete, junto da Igreja de Stº Agostinho. A porta por onde entrava para as minhas explicações era aquela que se vê do lado direito, ao fundo.

A casa do Senhor Pires passou, portanto, a ser destino assíduo de visitas minhas, tendo-se a sua sala de explicações e de convívios diversos transformado na minha sala de estudo e de interessantíssimas conversas.
Julgo que a minha mãe terá pago alguma coisa por essas explicações, mas coisa muito modesta, dado que o principal da ajuda que me deu foi pela consideração e pelo sentido de solidariedade.
O Senhor Delfim Pires era um empenhado e metódico pesquisador de todos os saberes da idade moderna, de todas as disciplinas principais do conhecimento, dentro do espírito universal duma procura aberta à transcendência. Já nessa altura era muito conhecido e respeitado em Leiria, tendo-se afirmado mais tarde, no dealbar do regime democrático instaurado a 25 de Abril de 1974, como uma das figuras tutelares da comunidade espírita de Leiria, e era carinhosamente apelidado de “Pai Pires”, nome porque era conhecido em sua casa.
Vi e tive acesso à sua larga biblioteca, foi-me explicando os variadíssimos passos do seu método de busca do conhecimento, ao mesmo tempo que me ia dando, sim senhor, explicações a respeito das minhas “coisas da escola”.
Eu diria, contudo, que o mais importante que fui recebendo da parte dele, foi o desvelar de um alargado universo de interesses sem tabus, sem margens e sem inibições. Falou-me e ensinou-me de tudo, como um mestre no mais clássico sentido do termo, generosidade a que eu correspondia com grande interesse e toda a atenção.
Os temas escolares eram mais essencialmente do domínio da matemática e da língua portuguesa; mas daí facilmente se passava a uma grande largueza de temas culturais que eu estimulava com perguntas e a que ele correspondia sempre com respostas cativantes.
A moral e os seus critérios eram o paralelo condutor de todos os temas, as origens da vida e as estruturas da matéria (foi ele que me falou pela primeira vez e em detalhe sobre os átomos, as células e as moléculas); os factos da vida, o casamento, a ética dos afectos, a música (era maestro numa banda muito conhecida, por ter sido sargento músico), os domínios da filosofia, etc. tudo com a simplicidade acessível de quem é capaz de dizer o fácil e o transcendente, parando ao meio das frases para dar lugar à reflexão, ou entremeando graças, pequenos episódio raros, uma pequena anedota, e tantas expressões escolhidas que ficaram – aqui e ali – na minha recordação.
Falou-me da sua amada primeira esposa e explicou-me com interioridade sentimental como se tinha casado, depois de enviuvar, com uma mulher mais simples – e tão simpática – que eu tive o prazer de conhecer. Confidências raras para um rapazito de doze ou treze anos como eu, mas que não caíram em cesto roto, porque tudo guardei com atenção e respeito, e o grave sentimento de estar a receber de longe e do alto, uma serena mensagem de códigos seguros para o entendimento real da vida.

Outra visita que o Senhor Pires costumava ter, de que me lembro bem, era a de um senhor já de cabelos brancos, muito experimentado na pesquisa e na colheita de ervas aromáticas e plantas medicinais. Não me recordo do seu nome. Recordo sim da meticulosa paixão de ambos em analisar e discutir as características e propriedades de cada planta. E da, para mim, confusa e remota ciência das plantas recordo-me dum nome só, que ficou nos resquícios da memória, com cheiro a flores: a “inca pervinca” ou “vincapervinca” como agora certifiquei na internet!
O Senhor Pires (como era conhecido em minha casa) agraciou-me com a sua confiança e sempre que passava pelo seu modesto escritório onde trabalhava, numa recauchutagem ali numa esquina ao lado da Fonte Grande, ia cumprimentá-lo e trocar com ele breves palavras.
Tudo isto foi muitíssimo antes do 25 de Abril, estava inactivado pela polícia política o antigo Centro Espírita de Leiria.
Eu conhecia as suas inclinações espíritas, de várias coisas me falou a esse respeito, mas sem se sentir muito livre para o fazer, creio que pensando nas preocupações de minha Mãe. A meu pedido chegou a emprestar-me, por exemplo, “O Conceito Rosacruz do Cosmos”.
O livro era bastante antigo, e não não tinha nada a ver com uma organização de que mais tarde tive conhecimento, por intermédio de um colega mais velho que se associara a uma entidade residente nos EUA e dali recebia abundante material que chegou a mostrar-me, mas que não exerceu sobre mim qualquer interesse sugestivo, apesar do entusiasmo que esse colega me tentou comunicar.
Nesse tempo a aprendizagem das coisas do espiritismo era praticamente clandestina e, quando comecei a ir a Lisboa, fui algumas vezes a uma livraria semi-clandestina situada num andar de um prédio (sem montra para a rua) onde se vendiam livros dessa orientação na Rua do Salitre, e outros de temáticas semi-ocultas com grande mescla de orientações.
Outro livro também da vertente teosófica a que tive acesso foi “O Homem condenado a ser Deus”, de Félix Bermudes, livro que li com interesse. Já não sabendo ao certo se foi nessa dita livraria que o comprei.
Apesar de ter nessa altura uma vida menos estável, sempre guardei comigo e ainda o possuo como recordação. Também em relação ao seu autor recolhi entretanto referências diversas que o mostram deslocado da doutrina espírita. Na altura o livro foi interessante para mim, porque – além de estar bem escrito – esclarecia muita coisa, nomeadamente a respeito da reencarnação e tinha um longo poema doutrinário, que li com sentimento e de que nunca me esqueci.

Leiria, vista parcial / nanquim s/ papel / 35,5 x 49,5 / Costa Brites 1990

Memórias de Leiria; o Senhor Vasconcelos (Joaquim Inácio Zapata de Vasconcelos)

Vivendo em Coimbra e nas suas proximidades há cinquenta anos não consigo dizer, em lado nenhum, que sou dali. Nasci em casa do meu avô em Cernache do Bonjardim, mas toda a apreensão do mundo e da vida se foi construindo em Leiria e no seu universo de relações pessoais e culturais, que reconhecia como fortemente estimulante e valioso.

Gente de cultura espírita era fácil de encontrar e a abordagem do assunto não estava sujeita a constrangimentos, certamente pelo elevado prestígio social e cultural de que gozavam muitos dos aderentes e participantes na vida espírita, de cujos elementos destacados ainda conheci mais alguns, já para não falar no Senhor Capitão Ribeiro e na Srª Dª Joaninha, pais de um condiscípulo meu de ensino primário, o José Jaime Fernandes.
Houve entretanto uma pessoa de grande abertura cultural que igualmente me prodigalizou a sua simpatia, o Senhor Vasconcelos, que já faleceu há muito, que era tipógrafo compositor na Gráfica de Leiria e músico (clarinetista, saxofonista e flautista) e ensaiador no Orfeão, de que eu fui membro.

Entre muitas conversas que travei com ele, saliente-se um enorme serão que passamos, acompanhados ainda por terceiro elemento, colega meu de escola e igualmente 2º tenor do orfeão (naipe ensaiado pelo Senhor Vasconcelos).
Por uma serena noite de Verão passeámos lentamente ao longo de todo o enorme “Marachão”, abaixo e acima, desenvolvendo ele uma apresentação bem detalhada de todo o conceito das ideias do espiritismo, a organização do cosmos, a reencarnação, etc.
Não me esquecerei jamais da fórmula com que deu início à longa e para mim inesquecível conversa havida:

“…Caros amigos, talvez não seja por acaso que nos encontrámos hoje, pelo que vou aproveitar, se não recusam a oportunidade, para vos falar de um assunto bastante interessante…”

Encontrei muito mais tarde o terceiro presente nessa ocasião (o meu amigo EMC), que disse nada ter retido de aproveitável dessa conversa, o que lamentei sem dramatismos, certo que para ele também chegará a hora de entender.
No que me toca a mim, devo confirmar com imensa gratidão espiritual e a maior alegria de alma, que não foi de facto “por acaso” que o Senhor Vasconcelos teve aquela generosa ideia e desenvolveu toda a sua convicta eloquência.

Tenho-o recordado com imensa fraternidade nas minhas preces e espero um dia reencontrá-lo, para passear de novo com ele, longamente, por veredas frondosas inundadas de luz, recordando com imenso carinho a fresca humidade nocturna das margens do Rio Lis, de um serão iluminado por revelações generosas e descobertas surpreendentes.

Fins de Junho de 2011 (redacção inicial, com algumas actualizações).

José da Costa Brites

Lindíssimo soneto de minha querida Tia Augusta Pereira Brites:

Feliz por ir nascer noutro lugar

Subi ao monte, aonde os olhos meus
Viram o dia já no entardecer;
Viram a luz do Sol ruborescer,
Dourados dedos a dizer-me adeus!

Ia cantar alvores noutros céus,
Dar cor às rosas; vida a todo o ser.
Eu fico em treva, até amanhecer…
Até nascer em mim a luz de Deus.

Com dedos de ouro e alma de luar
Feliz por ir nascer noutro lugar,
O Sol, quando se esconde, vai sorrindo!

O corpo frio desce à terra mãe,
A alma feliz vai acordar além,
Cheia de luz, sorri, ao céu subindo.

Augusta Pereira Brites

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O livro “Já estive clinicamente morto”, de Stephan von Jankovich

Estamos a querer recordar-nos de alguns artigos aqui já antes publicados, porque a seu interesse não perdeu a actualidade…

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Tradução em português da parte do livro acima referido, que descreve a experiência de Stephan von Jankovich e todos os seus acontecimentos antecedentes e consequentes:.

 

(…) Um homem de negócios amigo meu (M.) telefonou-me para solicitar os meus serviços de arquitecto num negócio imobiliário. Combinámos uma visita ao terreno da obra, nos arredores de Lugano, para o dia 16 de Setembro de 1964. Lá nos encontraríamos no Café Federale, na Praça Riforma, às duas da tarde. Tirei bilhete para o comboio que seguia de manhã de Zürich para Lugano, para estar disponível com pontualidade para o encontro. Mais lá para o fim da tarde tinha um encontro marcado em Morcote. Ao serão estava combinada a visita a minha casa, em Cadro, do conhecido cantor de ópera Alexander Sved e da esposa. Era meu intuito aproveitar a oportunidade para fazer algumas gravações. Estava tudo portanto muito bem planeado.

Contudo, os desígnios de Deus tinham destinado para mim algo de diferente. Era tempo de levar um abanão no meu curso de vida neste mundo material, lançando-me num itinerário evolutivo completamente diferente. “Lá em cima” as agulhas já tinham sido mexidas. Nada entretanto me passava pela cabeça. Passou-se que o meu amigo me telefonou para Zürich na véspera do nosso encontro, perguntando como é que eu pensava ir para Lugano. Convidou-me para que, em vez de comboio, fosse com ele de automóvel. Fazia pouco sentido que nos deslocássemos por separado e poderíamos ir conversando pelo caminho a respeito do negócio.

(…) Depois da troca de razões e porque não queria ser indelicado, concordei aceitar a boleia. No dia imediato de manhã veio buscar-me às nove horas num rápido cabriolet Alfa Romeo, vermelho. Era dia 16 de Setembro de 1964 e pusemo-nos em marcha. Acenei ainda longamente pela janela à minha mulher. Tinha frequentemente viajado desportivamente pelo Gotthard , tão velozmente quanto era possível. Ultrapassava grande quantidade de viaturas e não tinha por isso a oportunidade de observar a paisagem.

A estrada de Tremola dava-me sempre imenso prazer. A emoção desportiva, a performance, os tempos, o número de carros ultrapassados eram nesse tempo uma alegria para mim. Desta vez, contudo, admirei o conhecido trajecto, as montanhas ainda coroadas de neve, os bosques e os rios Reuss e Ticino. Não íamos exageradamente depressa, de modo a podermos conversar comodamente. Perto de Claro, antes de Bellinzona, seguíamos no nosso caminho para o Sul, com bastante tráfico na direcção oposta. Olhei descontraído à direita enquanto o meu amigo conduzia o seu Alfa pela recta, a cerca de 110 km/h.

Subitamente ouvi-o invectivar em voz alta. Virei o rosto e dei com um enorme camião que vinha na nossa pista de encontro a nós. A intenção era a de ultrapassar a coluna militar que se cruzava lentamente connosco, a cerca de 60 km/h. Comecei eu próprio então a invectivar. O meu motorista fez sinal de luzes, buzinou, gritando, e como o camião não tivesse aproveitado o intervalo entre duas viaturas da coluna para se desviar, resolveu travar a fundo. Derrapámos para a esquerda com toda a força, de rodas bloqueadas. Na via da esquerda vinham mais viaturas militares e na nossa direcção o camião desvairado. Tudo se passou em breves instantes.

O camião disparava na nossa direcção, no intento de se escapar pela frente do primeiro carro da coluna militar, mas não conseguiu. Apercebi-me do iminente perigo de morte e gritei como último sinal de desespero. Uma mescla de visões da guerra, da vela e de Budapeste, fechando com a face transtornada da minha mulher, bailaram repentinamente perante o meu olhar, projectadas de forma surpreendente pela passagem vertiginosa do enorme guarda-lamas do camião. Fui projectado contra o painel de instrumentos (nesse tempo não se usava ainda cinto de segurança), gritando a plenos pulmões. Seguiu-se um enorme estrondo e um poderoso impulso arrastou-me para a frente. Despedacei o pára-brisas com a testa. Nessa altura fez-se um completo silêncio e não ouvi mais nada.

(…) O meu falecimento deve ter tido início no momento em que o meu coração parou, isto é, após a cessação da circulação sanguínea. Durante esse processo não registei nenhuma percepção, pelo menos que me recorde. O consciente bem como o subconsciente estavam completamente desactivados. Estava insensível: era uma pessoa viva com a percepção desligada.

No instante do início da morte clínica, separou-se da parte grosseira do meu corpo ferido um outro, a parte mais subtil e elevada do meu ser, abrindo-se perante mim uma cortina como se fora de um teatro.

Uma apresentação teve o seu início que me permitiu reviver a vida terrena e o lado de lá da sua projecção sobrenatural. Tal apresentação englobava actas, etapas ou fases. Desse número desconhecido de fases pude participar das três primeiras, o que fez perdurar em mim uma tão profunda impressão que me tornei desde então numa pessoa completamente diferente.

A partir da morte clínica passei a existir “fora do corpo”, numa situação que se caracterizava por um permanente e acentuado alargamento do EU e dos sentidos. Este alargamento teve lugar, contudo, no âmbito imaterial, que não no aspecto material.

As três fases de que atrás falei foram as seguintes:

1. Consciencialização da morte;
2. Contemplação da minha própria morte;
3. Revisão da vida e julgamento.

Entre elas situaram-se algumas transições que eu designei como “Intervalos”.

Consciencialização da morte (Fase 1)

Teve o seu início quando o coração parou motivada pela carência de oxigénio no cérebro, impedido de funcionar como agente da consciência pessoal, ao que se seguiu a separação entre o meu corpo material e a sua componente não-material.


Imediatamente recuperei a consciência de mim mesmo, o que me libertou de uma assustadora, opressiva e constrangedora situação. Muitos reanimados relataram ter transposto um túnel que os conduziu à liberdade. Com alívio tomei conta de uma readquirida consciência: “consegui sobrevir ao acidente!” foi a minha primeira impressão.

O “despertar”, contudo, não foi como esperava, dado que logo me apercebi claramente de que o que estava a passar-se era a minha própria morte!

Espantava-me imenso o facto de que morrer não era de modo nenhum desagradável. Aliás a iminência da morte em nada me assustava. Era tudo tão natural, tão evidente, deixar esta vida e abandonar a presença neste mundo. Nunca tinha pensado antes que as pessoas se separassem de modo tão simples e natural desta vida, deixando de estar crispadamente apegados a ela. O desconhecimento é a razão pela qual tanto nos apegamos à vida. A nossa religião cristã oferece-nos muito poucas perspectivas a respeito daquilo que nos espera depois da morte.

Devido ao acidente não tive, felizmente, que travar uma arrastada luta com a morte. No seguimento da colisão viram-se a minha percepção do EU, o meu corpo astral, a minha alma e o meu espírito instantaneamente separados do meu corpo material. Por isso me senti pessoalmente muito aliviado, numa situação plenamente agradável, natural, engraçada, até. Senti-me perfeitamente liberto e tive a sensação: “Até que enfim!”

Sem medo nenhum pensei: “é uma felicidade, estar a morrer”. Contudo fiquei à espera, com certa curiosidade, do que viria a seguir. Estava feliz, descontraído e ansioso como uma criança em noite de Natal.

Senti-me a deslizar ao mesmo tempo que se fazia ouvir uma música maravilhosa, que sugeria a correspondência harmónica com formas, movimentos e cores. Tinha de certa forma a percepção de que não estava sozinho, embora não visse vivalma. Senti-me invadido por uma paz divinal e por um sentimento de harmonia jamais experimentado. Estava completamente feliz e sem problema algum. Estava só: nenhum ser terreal (pais, esposa, filhos amigos ou inimigos) estorvava a minha divina tranquilidade.

Tenho pensado frequentemente no facto de não me ter vindo naquela altura à ideia qualquer espécie de problema ou ser do nosso mundo; mas era coisa que não me passava pela cabeça. Encontrava-me, como já disse, inteiramente só, completamente feliz e numa situação de harmonia sem precedentes. Apenas um outro sentimento estava comigo, comparável ao coro da melodia “Näher mein Gott zu Dir” (para mais perto de ti, Meu Deus, de Sarah F.Adams,1805-1848).

E continuava a deslizar sempre para mais perto da Luz.
Esta primeira fase da feliz morte, do encantamento, transformou-se num dos primeiros acima mencionados “Intervalos”.

Invadia-me um sentimento crescente da divina harmonia. Os sons musicais tornavam-se ainda mais transparentes, mais sonoros e belos submergiam tudo acompanhados de cores, formas e movimentos. As cores, resplandecentes e luminosas, surgiam envolvidas de tons suaves e eram inacreditavelmente belas. Posso vagamente compará-las àquelas que contemplei ao pôr do sol, a grande altitude, no voo que fiz de Geneva para Nova York. Achei tão belas essas cores que pude presenciar que desde então procuro consegui-las na arte do vitral a que me dediquei. As tonalidades dos fragmentos usados para compor vitrais, nos seus pontos de ruptura e se inundados de luz, trazem-me à lembrança esses surpreendentes reflexos coloridos.

2. Contemplação da minha própria morte;

Depois deste maravilhoso “Intervalo” abriu-se o pano de novo repentinamente, e nova fase teve o seu início. Era bastante estranho que me sentisse flutuando. De facto, levitava por sobre o local do acidente rodoviário, podendo observar o meu próprio corpo, gravemente ferido e sem vida, exactamente no mesmo sítio do qual mais tarde tive conhecimento por intermédio dos médicos e do relatório de polícia. Pude contemplar toda a cena simultaneamente de vários lados, com rigor e transparência. Vi também o carro em que seguíamos e as pessoas aglomeradas em torno do acidente, e a própria coluna militar que ficara retida pelo aglomerado de pessoas.

As pessoas agrupavam-se à minha volta. Observei um homem baixo e encorpado, aí pelos 55 anos, que tentava reanimar-me. Pude ouvir claramente aquilo que as pessoas diziam umas às outras, embora “ouvir” não seja o termo adequado, dado que flutuava por cima de todos e o meu corpo estava estendido no chão. Pude aperceber-me daquilo que as pessoas diziam e mesmo das coisas que pensavam, provavelmente por intermédio de uma espécie de transmissão de pensamento, mediante uma percepção fora dos princípios do mundo material. O homem ajoelhou do meu lado direito e deu-me uma injecção no braço esquerdo. Duas outras pessoas seguravam-me do lado oposto e libertaram-me do vestuário. Vi como o médico me abriu a boca com uma espátula para me livrar de estilhaços de vidro. Além de outras coisas também me apercebi de que o médico, quando me segurou, notou que eu tinha os membros partidos e de que a meu lado se formava uma poça de sangue. Depois observei as tentativas que o médico fez para me reanimar, e do modo como concluiu que tinha as costelas quebradas. “Não posso fazer-lhe massagem cardíaca”, observou. Alguns minutos depois levantou-se e disse: “Não dá, não é possível fazer mais nada, está morto”. Falava em dialecto suíço misturado com um italiano um tanto esquisito.

Tive quase vontade de rir da estranha cena, porque sentia que estava “vivo”, ao contrário de “morto”. O que ali jazia por terra era o meu anterior corpo físico. Achei tudo muito estranho, mas de forma alguma perturbador. Ao contrário: era bastante divertido poder observar os esforços de toda aquela gente. Desejaria dizer-lhes “lá de cima”: “Olá, estou aqui, e bem vivo! Deixem lá o meu corpo como está; sinto-me vivo e perfeitamente bem”. Porém, embora me sentisse bem, ninguém me ouvia e não conseguia produzir som que fosse audível, porque não tinha garganta nem boca para falar.

Extraordinário era entretanto que pudesse entender, não apenas as palavras proferidas em voz alta pelos presentes, mas entender os seus próprios pensamentos. Uma mulher de Tessino, por exemplo, com uma menina de cerca de sete anos, sua filha, ficou muito chocada quando viu o meu cadáver. A menina quis imediatamente fugir, mas a senhora segurou-a com a mão esquerda durante alguns minutos e rezou em pensamento um “padre nosso” e uma “avé Maria”, orando em seguida pelo perdão dos pecados do infeliz acidentado. Fiquei profundamente impressionado com essa desinteressada prece, que muito me alegrou. Senti conjuntamente a radiação de um sentimento cheio de afecto.

Ao contrário um homem idoso, de bigode, teve pensamentos negativos a meu respeito: “Ora aí está; já apanhou! Mas deve ter sido culpado. Deve ser daqueles que anda sem cuidado por aí com carros de corrida”. Bem quis dizer-lhe “lá de cima” : “Deixa-te lá de disparates, eu nem sequer vinha a conduzir, era o pendura!” Foram nítidas para mim as radiações dos seus sentimentos negativos e desagradáveis.

Em suma era bastante interessante ver-me morto “de cima”, como espectador, sem emoções, e tudo poder observar com a maior nitidez de uma posição celestial, posto que “sobrevivera”. Os meus órgãos imateriais funcionavam bem e o meu pensamento registava tudo. Podia aliás tomar decisões sem qualquer limitação própria da vida terrena. Vogava a cerca de três metros por cima de toda a cena, num espaço multidimensional.

Sucedeu então um segundo “Intervalo”. A cena anterior chegara ao fim e a aparição que surgira anteriormente, começava a desenvolver-se.

Afastei-me do local do acidente, porque tinha deixado de me interessar. Desejava voar dali, e assim fiz. Tudo estava tranquilo, radioso e belo. As sonoridades, os jogos de luz, iam ganhando expressão, cada vez mais fortes, invadindo-me bem como toda a região envolvente. Chegou até mim uma harmónica vibração. Vi então o Sol algures em cima, pulsante, do lado direito, mas não directamente por cima de mim. Voei por isso naquela direcção. O Sol tornava-se cada vez mais claro, cada vez mais esplendoroso e vibrante. Percebo finalmente a razão pela qual tantas pessoas e tantas religiões encaram o Sol como símbolo divino, chegando a adorá-lo.

Ao prosseguir no meu voo tive, contudo, a sensação de que não estava só, ao contrário, senti-me rodeado de espíritos bondosos. Tudo era tranquilo, aprazível e admirável.

A experiência da condição de imponderabilidade e do voo livre impressionou-me de tal forma que, depois da minha convalescença, matriculei-me numa escola Suíça de pilotagem. Quando tenho tempo, ainda voo por cima dos vales envoltos pelas nuvens, em cujas profundidades vivem pessoas oprimidas pelos seus problemas. Sigo de Lugano, sobrevoando a planície do rio Pó, até ao Mediterrâneo. Ao fim da tarde, quando o Sol se põe lá ao fundo, à direita, revivo o modo como tudo fica envolto pela divina luz, e resplandece, inundado de energia e de verdade. Se tenho problemas, faço essa esotérica terapia, de modo a reunir novas forças.

3. Revisão da vida e julgamento

Este “Intervalo” durou relativamente pouco, começando de seguida uma fantástica e pluridimensional peça de teatro, que reproduziu cenas da minha vida mediante inúmeras associações de imagens. Para configurar uma ordem de grandeza, posso referir terem sido duas mil, ou qualquer coisa entre as 500 e as 10.000 imagens.

Na primeira semana logo após o acidente conseguia ainda lembrar-me de algumas centenas. Infelizmente é impossível registá-las a todas no gravador.

A sua quantidade não é, em si mesma, importante. Cada cena era profundamente bem torneada. O “realizador” dessa “peça de teatro” desenrolou-a de modo estranho, de forma que a primeira cena que observei foi a do acidente de automóvel na estrada, sendo o último acto revisto o do meu nascimento à luz das velas na minha casa de Budapeste.

Comecei então por reviver o meu falecimento. Na segunda cena vi-me como acompanhante de viagem através do Gotthard. Sob um sol resplandecente revi os cumes orlados de neve. Senti-me descontraído e feliz. Tive também a ocasião de presenciar cenas não na qualidade de protagonista, mas sim na de observador, por outras palavras:

Observava-me a mim mesmo e tudo em redor numa pluridimensionalidade espacial, de todas as direcções, revivendo por completo os acontecimentos. Com todos os órgãos dos sentidos registava o que via e ouvia, além de me aperceber dos meus próprios pensamentos. Os pensamentos tornados realidade!…

A minha alma avaliava o meu comportamento e os meus pensamentos instantaneamente e fazia de imediato o seu julgamento, designando como bom ou mau aquilo que fizera.

Era notável que eram salientadas como positivas lembranças cuja apreciação fora considerada negativamente pela sociedade ou tidas como pecado (mesmo mortal) pela religião do seu tempo.

Pelo contrário são tidas como negativas certas “boas acções” deliberadamente cometidas, consequência dos erros contidos na sua origem, como é o caso de actos conduzidos com finalidades egoístas.

Os maus actos que não passaram no exame foram “apagados” por mim, depois de uma tomada de consciência e profundo remorso, quer dizer, deixaram de contar – ficando apenas comigo os bons pensamentos e os bons actos, que foram aprovados, de que pude desfrutar logo de seguida como um grande ramo de flores.

Também poderá dizer-se que só radicaram em mim as cenas relativamente às quais fiquei feliz, bem como todos os que nelas estiveram envolvidos; as cenas nas quais permaneceu reinante a harmonia não apenas em mim, mas junto de todos, participantes na positiva intenção da minha parte.

Encaro a terra desde esse momento como um campo de treinos ou uma instituição de aprendizagem onde as pessoas vivem condições provavelmente semelhantes ao purgatório. Caso não sejamos bem sucedidos nas provas a que somos sujeitos nesta vida, é sabido que a ela tornaremos para repetir as mesmas. Tal apenas pode acontecer nas mesmas condições de espaço-tempo e dimensões do nosso mundo na terra. Reencarnaremos para fazer algo melhor do que antes. É nisto que se manifesta a infinita misericórdia de Deus.Entretanto nada existe de mau além disto. Tudo não passa de uma carência do bem; tal como a escuridão é a ausência de luz. Nada existe que não tenha o seu sentido próprio.

O bem e o mal são avaliados no além mediante uma escala completamente diferente. Absoluta e, por isso, não limitada a opinições humanas e formas de pensar preconcebidas , de modo nenhum sujeitas a formulações ou interpretações confusas – como as de certas pessoas que acreditam estar na posse da verdade única de que se sentem autorizadas a ser “pregadores”. Quantas ideologias, religiões, seitas e grupos filosóficos ou religiosos, que proliferam como cogumelos por entre aqueles que perderam a sua fé originária, reclamam a posse dessa única verdade. Verifiquei que “lá em cima”, nenhum modelo de pensamento tem garantia de validade, e que apenas ali vigora uma invulgar lei cósmica geral do amor. A dificuldade reside em não termos dela conhecimento, de modo a podermos formulá-la para nosso uso próprio.

Creio que esta é uma das características de Deus, nomeadamente, o amor absoluto; o perdão mediante o perfeito bem e a infinidade positiva. Sigamos pois este princípio com firmeza, no dever de libertarmos a nossa consciência de todos os actos e pensamentos negativos, para podermos unir-nos a Ele inteiramente.

Esta estranha avaliação judicativa dos actos praticados em vida pareceu-me de início extraordinária, mas depois de pensar durante vários anos reconheci que é nisso que se manifesta o admirável sentido da justiça divina, em concordância com os princípios da criação do universo.

Depois da apresentação atrás descrita da minha “Revisão de Vida e Julgamento “ no fantástico ambiente de pluridimensionalidade em que decorreu, surgiu um balanço final que foi efectuado por mim próprio, cuja formulação exacta já não me é possível reproduzir. Na circunstância consegui aperceber-me entretanto que novas oportunidades de evolução me seriam ainda reservadas.

O terceiro “Intervalo” seguiu-se finalmente. O banho de luz que me inundava de felicidade tomou-me de novo ao som de uma música magnífica de ressonância espacial. O Sol pulsava, dando-me a ideia de um símbolo representativo do princípio de todas as coisas e fonte de toda as energias, que suponho ser o próprio Deus.

O que eu via não era de facto o sol que na terra nos aquece, mas sim uma aparição de luz maravilhosa e quente que se lhe pode comparar, princípio originário do Universo que por sobre nós se estende. Crescentemente vibrante, pulsava com harmonia, ao qual começava a adaptar-se a minha alma incorpórea, o meu espírito, crescentemente repletos de felicidade, à medida que a capacidade perceptiva se alargava a esta nova Dimensão.

Penso hoje que isso era o sinal de que se aproximava a minha morte cerebal, e que todo o processo tinha chegado ao ponto em que era irreversível o meu ingresso no além.

(…) De acordo com registo temporal na terra, teriam decorrido durante a minha morte clínica apenas alguns minutos. Nessa outra dimensão, contudo, não vigoram as nossas leis do tempo e do espaço. Como tal, a percepção que tive foi a de ter vivido o equivalente a vários dias ou semanas, dada a enorme extensão dos acontecimentos pelos quais passei.

A minha vida terrena no mundo a quatro dimensões, no plano espacio-temporal, com percepção da matéria tal como é por nós entendida, estava a terminar nos instantes do acidente. Encontrava-me num estádio de travessia, de nascimento num outro mundo de mais vastas dimensões, onde a vibração energética já não produz o que é entendido como matéria. Por outras palavras, estava a dar entrada numa nova esfera onde espírito e alma, livres do corpo, passavam a reger-se por novas leis.

O regresso à Vida

A eufórica experiência ia infelizmente a caminho do seu termo. Vi, agora no local do acidente, um jovem magro, de calção de banho preto, descalço, com uma bolsa na mão, correr direito ao meu corpo sem vida. Exprimia-se com clareza e vigor em bom alemão com o outro médico. A cena deixara já de me interessar, pelo que não prestei muita atenção. O jovem manteve uma breve troca de impressões com o médico a meu respeito. Ajoelhou e certificou-se de que estava morto, desenhou com um pedaço de giz a minha silhueta no chão e deixou-me ser levado. Fui colocado na beira da estrada e o militar que presenciava perguntou se não haveria algures um pano com que o meu cadáver fosse coberto.

O jovem, que ali permanecia dirigiu-se de novo ao médico: “Se o caro colega não tiver nada contra…” e resolveu dar-me uma injecção de adrenalina directamente no coração.

Pude nessa altura fixar a atenção no seu rosto, cuja lembrança guardei comigo.

Alguns dias mais tarde, veio visitar-me ao Hospital em Bellinzona. Vestia um facto completo. Reconheci-o imediatamente e cumprimentei-o, cheio de dores:

– Bom dia senhor doutor, porque razão me deu o diabo daquela injecção?

Consegui reconhecer com toda a clareza a sua voz clara. Ficou supreendidíssimo e perguntou-me como podia conhecê-lo. Contei-lhe tudo. Tornámo-nos mais tarde bons amigos. Recebeu até a condecoração dos “cavaleiros da estrada” por me ter feito regressar a este mundo, digo eu, infelizmente.

Depois da injecção de adrenalina, provavelmente no momento em que o meu coração foi estimulado a bater de novo, aconteceu-me uma coisa horrível: caí num abismo de negrume. Com um safanão esquisito e um choque senti-me escorregar para dentro do meu corpo. Toda a beleza se dissipou. Percebi que estava de regresso. Recuperei o conhecimento e passei a sentir dores indescritíveis. Acabei por desmaiar de dor, embora já na condição de sobrevivente.

Com a perícia de um bom médico tinha sido feito regressar à força, porque “por acaso” se encontrava no exacto local do acidente e “por acaso” trazia consigo o tipo exacto de injecção.

A sobrevivência fora conseguida “casualmente”, portanto. Os socorristas foram chamados e fui conduzido em corpo e alma, com sirenes e luzes azuis ao Ospedale San Giovanni, em Bellinzona.

“Por acaso” era lá que se encontrava presente na altura o brilhante cirurgião Clemente Mob, regressado recentemente de férias, nem de propósito, de visita ao seu gabinete. Começou logo a operar-me e salvou de novo a minha vida. Por esse motivo, no entanto, recomeçou de novo a minha penosa história.

Desde essa altura é meu cuidado dizer que o mais belo acontecimento da minha vida foi… a minha morte!

Nunca fui tão feliz em vida como fui durante a minha episódica morte, embora tenha que colocar aspas na palavra “morte”, pois que – tal como agora sei – não passava de uma situação clínica.

Decidi então registar tudo o que se tinha passado comigo, como sendo um autêntico “caso de experiência de morte”.

 

NOTA: para as pessoas que desejem, por qualquer razão, ter acesso ao documento na sua língua original, clicar aqui:

Ich war klinisch tot

>

Peço aos leitores que entrarem nesta tradução de parte do livro acima que, para efectuarem uma necessária contextualização do seu conteúdo, leiam primeiramente a notícia:

O primeiro caso de Experiência de Quase-Morte (EQM) de que tive conhecimento detalhado

Além das outros trabalhos aqui publicados a respeito do mesmo tema, nomeadamente o livro:

Livro sobre NDE * EQM * Espiritismo

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LEIRIA, 25 de Dezembro de 1925 – SOL do PORVIR

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Com a generosa cedência de alguns documentos do seu acervo de obras espíritas, a Associação Espírita de Leiria permite-nos colocar à disposição dos nossos leitores  a digitalização de algumas obras históricas do Movimento Espírita Português, que irão sendo aqui publicadas por nós com o máximo gosto.

Foi naquela cidade que tivemos a dita de encontrar, já há muitos anos, os primeiros conhecimentos a respeito da doutrina espírita, sendo a culta e dinâmica “cidade do Lis” -como é conhecida entre nós – um alfobre histórico muito rico de referências culturais a esse respeito.

Pessoas da família do fundador deste blogue foram activos participantes do Centro Espírita de Leiria nos anos vinte do século transacto, antes do seu encerramento obrigatório, a partir de determinada altura, pelo regime pró-dogmático e fascista, instituído após o 28 de Maio de 1926.

Os conteúdos gráficos consultáveis que vamos publicar, são todos produtos genuínos da cultura espírita, cuja linguagem enaltece e abre horizontes a todos os seres humanos, agora e sempre.

Demonstram que em Leiria, há quase 100 anos, a cultura espírita estava no seu melhor, em termos da afirmação vertical dos seus princípios, da sua independência intelectual e da sua riquíssima sensibilidade espiritual.

 

Para ler os originais aqui apresentados de forma fácil, é favor clicar uma vez para abrir, outra para ampliar.

 

Leiria, Largo 5 de Outubro / Castelo – Acrílico s/ tela – 100 x 70 cm – Costa Brites; Col. Banco de Portugal

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Estatística 03

Mantém-se em bom nível o interesse de pessoas que consultam e descarregam os ficheiros de vários trabalhos de nossa autoria, nomeadamente o ficheiro PDF da tradução de “O Livro dos Espíritos”, com prefácio de autores e alargado conjunto de Notas finais para pessoas espíritas e não espíritas, todas interessadas em conhecer a sua origem e o seu destino como seres superiormente dotados de livre arbítrio e largamente dotados cultural, intelectual e moralmente.
Esse facto encontra-se claramente demonstrado pelas estatísticas de visitas e descargas em grandes plataformas de publicação internáuticas, tal como a Academia.edu, a Kardecpedia, o Archive.org, entre outras.

Abaixo publicamos dados apenas relativos à Academia.edu, que é a plataforma que melhor documenta esse movimento de visitas.
Em cada um dos elementos gráficos, é favor clicar para ver maior, devendo ser tidos em conta os valores e níveis de interesse registados antes. No primeiro gráfico aqui inserido há uma quebra percentual, dados o pico de interesse registado imediatamente antes, mas o número de interessados continua significativo.

Estatística 02

https://www.academia.edu/
https://independent.academia.edu/DacostaBrites

 

 

O nosso blogue na plataforma académica ACADEMIA.EDU e as várias publicações que ali inserimos encontram-se muito destacadas no seu volume de visitas, por pertencerem a uma minoria de 4% de todos os visitantes daquela prestigiada plataforma científico-cultural, como podemos ver a seguir:

 

 

 

Para ver em tamanho maior, é favor clicar nas imagens

Amistosas saudações a todos os nossos visitantes;
Façam o favor de se inscreverem como seguidores dos nossos blogues. Em cima, do lado direito:

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Estatística 01

 

Nunca me tinha lembrado de publicar estes elementos de importância relativa. Não vale a pena acrescentar comentários, as figuras falam por si.
Os mapas abaixo referem os núcleos de visitantes durante o período dos últimos 2 meses.

 

Os mapas acima foram retirados do site  estatístico “Statscounter” (gratuito, portanto incompleto e sujeito a falhas)
As indicações abaixo, rigorosamente exactas, foram retiradas da estatística da “WordPress”.

Ano de 2017

50 LikesPEDIMOS AOS VISITANTES INTERESSADOS COM EMPENHO CULTURAL QUE FAÇAM O FAVOR DE DIVULGAR E PROMOVER ESTA PÁGINA E SUAS ASSOCIADAS, SE JULGAREM QUE SE JUSTIFICA.

A ADESÃO COMO SEGUIDORES (ACIMA À DIREITA) COM REGISTO DE E.MAIL, PARA NOTIFICAÇÃO IMEDIATA POR PUBLICAÇÕES É MUITO INTERESSANTE.

FELICIDADES E PROVEITOS CULTURAIS A TODOS

20 Follows!

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Espiritismo Cultura desde 2012:

para ver maior: clicar e ampliar sff
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Terezinha Colle / IPEAK – Reuniões Espíritas Familiares 01 e 02

Aqui se apresentam duas obras de imenso interesse da autoria de TEREZINHA COLLE que tratam do importantíssimo tema das Reuniões Espíritas Familiares da forma como foram desenvolvidas por Allan Kardec, no momento histórico em que fundou o espiritismo.
O tema é muito vasto, vamos por isso dar a palavra à autora dos livros, fazendo uma citação substancial de um capítulo da sua primeira obra, chamando ao fim a Vossa atenção para a segunda.

Para descarregar o ficheiro PDF, basta carregar na imagem

4. As vozes do céu – necessitamos delas e as desejamos

Em nossos dias ainda pensa-se que apenas alguns médiuns têm o privilégio de se comunicar com os Espíritos, ou melhor, receber deles “mensagens”. Fala-se que somente se pode conversar com os Espíritos em determinados lugares, tidos por únicos a receber a “proteção do Alto”. Diz- se que as evocações, as instruções solicitadas aos Espíritos superiores “foram importantes no tempo de Kardec” para estruturação do Espiritismo, e que hoje em dia não se tem mais necessidade delas, ou até mesmo que seria perigoso alguém dedicar-se a tal prática.

Para ilustrar o que acabamos de dizer reproduzimos aqui pequenos trechos de orientações dadas por Espíritos, e que notoriamente são contraditórias com os ensinos de Kardec, mas tidas como verdadeiras por boa parte dos espíritas atuais:

“Coibir-se de evocar a presença de determinada entidade, no curso das sessões, aceitando, sem exigência, os ditames da Esfera Superior no que tange ao bem geral. (André Luiz, Conduta Espírita, cap. 11, “No templo”.)
“Abolir a prática da invocação nominal dessa ou daquela entidade, em razão dos inconvenientes e da desnecessidade de tal procedimento em nossos dias, buscando identificar os benfeitores e amigos espirituais pelos objetivos que demonstrem e pelos bens que espalhem.”
(André Luiz, Conduta Espírita, cap. 25, “Perante os mentores espirituais”.)

369 – É aconselhável a evocação direta de determinados Espíritos?
– “Não somos dos que aconselham a evocação direta e pessoal, em caso algum. Se essa evocação é passível de êxito, sua exequilibilidade somente pode ser examinada no plano espiritual. Daí a necessidade de sermos espontâneos, porquanto, no complexo dos fenômenos espiríticos, a solução de muitas incógnitas espera o avanço moral dos aprendizes sinceros da Doutrina. O estudioso bem-intencionado, portanto, deve pedir sem exigir, orar sem reclamar, observar sem pressa, considerando que a esfera espiritual lhe conhece os méritos e retribuirá os seus esforços de acordo com a necessidade de sua posição evolutiva e segundo o merecimento do seu coração.
Podereis objetar que Allan Kardec se interessou pela evocação direta, procedendo a realizações dessa natureza, mas precisamos ponderar, no seu esforço, a tarefa excepcional do Codificador, aliada a necessidade de méritos ainda distantes da esfera de atividade dos aprendizes comuns.”
(Emmanuel, O Consolador, pergunta 369.)

Preferimos, no entanto, nos embasar, quanto a esses pontos, nas próprias instruções de nosso mestre Allan Kardec, espalhadas por diversos lugares de sua obra, inclusive em uma das mais folheadas pelos Espíritas dos nossos dias: “O Evangelho segundo o Espiritismo”.

Vejamos o que escreveu Kardec:

“Esta obra é para uso de todos. Dela podem todos haurir os meios de conformar com a moral do Cristo o respectivo proceder. Aos espíritas oferece aplicações que lhes concernem de modo especial. Graças às comunicações estabelecidas doravante e de maneira permanente entre os homens e o mundo invisível, a lei evangélica, ensinada a todas as nações pelos próprios Espíritos, não será mais letra morta, porque cada um a compreenderá, e será incessantemente solicitado a colocá-la em prática, a conselho de seus guias espirituais.  As instruções dos Espíritos são verdadeiramente as vozes do céu que vêm esclarecer os homens e convidá-los à prática do Evangelho.” [1]

Kardec deixa claro que as comunicações com os Guias espirituais, para fins de instrução, é para ser estabelecida doravante e permanentemente, e por todos aqueles que desejem viver de conformidade com a moral do Cristo e não se julguem autossuficientes para consegui-lo sem o auxílio dos bons Espíritos.
Ainda a esse respeito, encontramos as respostas dadas por Kardec ao interlocutor que ele denominou “O Visitante”, em seu opúsculo intitulado “O que é o Espiritismo?”

O Visitante – Solicito-vos uma última questão. O Espiritismo tem poderosos inimigos; não poderiam eles fazer interditar seu exercício e as sociedades e, por esse meio deter sua propagação?

Allan Kardec – Seria um modo de perder a partida um pouco mais rápido, pois a violência é o argumento daqueles que não têm boas razões. Se o Espiritismo é uma quimera ele cairá por si mesmo, sem que para isso precise tanto esforço; se o perseguem é por que o temem, e só se teme o que é sério. Se é uma realidade, ele está, como eu disse, em a Natureza, e não se revoga uma lei natural com um traço de pena [caneta].
Se as manifestações espíritas fossem privilégio de um homem, não há dúvida que, colocando-se de lado esse homem, se poria um fim às manifestações; infelizmente para os adversários, elas não são um mistério para ninguém; não contém nada de secreto, nada de oculto, tudo se passa às claras; elas estão à disposição de toda gente, e se produzem desde o palácio até a mansarda. Pode-se proibir seu exercício público, mas sabe-se precisamente que não é em público que elas melhor se produzem; é na intimidade; ora, podendo cada pessoa ser médium, quem pode impedir uma família em seu lar, um indivíduo no silêncio do seu gabinete, o prisioneiro em seu cárcere, de obter comunicações com os Espíritos, mesmo nas barbas da polícia e sem que ela saiba?
Admitamos, entretanto, que um governo fosse forte bastante para impedi-las em seu território; impediria também nos territórios vizinhos, no mundo inteiro, pois não há país algum, nos dois hemisférios, onde não haja médiuns?
O Espiritismo, além disso, não tem sua fonte entre os homens; ele é obra dos Espíritos, que não podem ser queimados nem encarcerados. Ele consiste na crença individual, e não nas sociedades que absolutamente não são necessárias. Se se chegasse a destruir todos os livros espíritas, os Espíritos ditariam outros. (…)[2]

[1] O Evangelho segundo o Espiritismo – Introdução – I – Objetivo desta obra.
[2] O que é o Espiritismo?, cap. I – Pequena conferência Espírita – Segundo diálogo – O céptico – Interdição do Espiritismo.

Mediunidade Limitada – Sandro Fontana / Revista Ciência Espírita Março 2016

Sandro Fontana

– REVISTA CIÊNCIA ESPÍRITA – Março 2016 (Ver abaixo)

ESPAÇO DO EDITOR
MEDIUNIDADE NO “CATIVEIRO”

MEDIUNIDADE LIMITADA

Por que será que muitos dos Centros Espiritas brasileiros limitam tanto os médiuns e a mediunidade?

É de conhecimento básico do espiritismo que a mediunidade é seu principal “agente”, ou seja, sem a mediunidade não existiria o espiritismo, principalmente porque a fonte base de informações é proveniente do trabalho beneficente dos médiuns, afinal, são eles quem transmitem a informação proveniente do mundo espiritual.

Também é de conhecimento geral espirita que, “a opinião de um espírito é somente uma opinião”, sendo assim esse pressuposto garante (e entende) que um espírito, ao se comunicar, está passando as informações que lhe são tangíveis baseada nas suas próprias percepções e seu grau evolutivo.

Tanto é assim que Kardec havia elaborado um método que “cruzava” informações de vários médiuns e espíritos para poder chegar a alguma conclusão sobre um assunto ou tema, lembrando que isso nunca foi, e nem deve ser definitivo, como muitos idólatras e dogmáticos pretendem, isso porque a conclusão final ainda é humana e condicionada ao tempo (Era) do observador/pesquisador, que é limitada.

Então, se toda a fonte básica de conhecimento (e ajuda em muitos casos) é proveniente da mediunidade, por que muitos Centros Espíritas limitam o desenvolvimento mediúnico?

A resposta é simples e o atual cenário mundial a que passamos é o mesmo: Excesso de padronização!

Esse “mal ” não atinge somente o espiritismo, mas empresas onde tem se implantando um sistema de padronização e metodologia de processos que parece, em muitos casos, tender a perdermos os propósitos básicos e a essência do que somos ou devemos fazer.

A padronização não é de toda ruim, melhor dizendo, é necessária, mas parece que esta, ao entrar fortemente num meio, passa a sufocar ou aniquilar a razão básica por excesso. Devido a isso, é possível percebermos que o problema não reside na padronização em si, mas sim nas pessoas que as impõe dentro de um grupo.

Na prática, referindo-me ao meio espirita atual (especificamente aos Centros Espíritas confederados e federados), podemos ver um excesso de controles, tanto de médiuns como de âmbito geral, parecendo que os princípios básicos tem ficado de lado.

Tal fato parece direcionar o entendimento de que os espíritos e médiuns é que trabalham num Centro Espirita e não que este foi criado para permitir o trabalho dos médiuns e dos mentores.

Esse tema vem sendo discutido em diversos grupos e, dias atrás, foi tema num grupo fechado sobre espiritismo.

Quem defende a ideia do controle, argumenta a necessidade e responsabilidade que as entidades possuem perante a sociedade e a Doutrina (dentro de um entendimento restrito do grupo), por outro lado, temos os que defendem maior liberdade aos médiuns e aos trabalhos.

Essa liberdade, por exemplo, é a de exercer a mediunidade de forma plena e não controlada como exigem certos CEs.

Médiuns reclamam de não ser permitido ficarem inconscientes durante as sessões, ou de terem que atuar conforme rege ou organiza-se o mundo encarnado, ao invés de ouvirem os mentores sobre como deveriam ser feitos os trabalhos.

Independente de ambas as opiniões, o fato é que o espiritismo kardequiano brasileiro tomou um rumo arriscado, onde muitos jovens desistem de atuar e onde muitos médiuns preferem abrirem seus próprios estabelecimentos (ou atuar em suas casas) e dai já passam a serem excluídos e chamados de espiritualistas.

Com isso perdemos todos nós, pois assim surge o preconceito, as separações e deixamos de ser uma grande família onde poderíamos avançar juntos, com um desenvolvimento pleno da mediunidade e, consequentemente, de um aprimoramento no conhecimento e na moralidade mais exata.

Não é incomum eu visitar muitos lugares e encontrar os médiuns ostensivos fora dos CE federados, me pergunto então:

Será que os médiuns que permanecem nos CEs Federados, em sua absoluta maioria, não são ostensivos ou não os permitem serem?

É prudente refletirmos sobre isso.

Sandro Fontana

Revista Ciência Espirita – 2016 – Março

 

O Espiritismo na sua expressão mais simples, de Allan Kardec

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Exposição sumária do ensino dos Espíritos e da natureza das suas manifestações

Allan Kardec

Sem caridade não há salvação;
Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei; Fé inquebrantável, só aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade.

Tradução a partir de um texto original francês ao gosto pessoal de leitura do autor deste blogue e conforme a língua portuguesa de Portugal

“O Espiritismo na sua Expressão mais simples”

 Este é um começo ideal no estudo dos textos base mais importantes e legítimos do espiritismo. O livrinho que Allan Kardec escreveu em 1862, ainda não estava completa a série de obras da codificação, poderá constituir – conforme aqui se procura demonstrar – um precioso auxiliar na divulgação rápida do Espiritismo.
Chamou-se em francês “Le Spiritisme à sa plus Simple Expression”.

Por ser um texto muito rico, recheado de ideias fundamentais e momentos fortes, tomei a iniciativa de criar um encadeado de sub-títulos que servirão para individualizar esses momentos, criando um ritmo de leitura propício à reflexão.
Com a boa-vontade com que foram colocados, tenho a ideia que o professor Hipólito Leão não iria zangar-se…
José da Costa Brites

RESUMO HISTÓRICO DO ESPIRITISMO

O início das comunicações organizadas com os espíritos

Por volta de 1848, começou a prestar-se atenção nos Estados Unidos da América a certos fenómenos estranhos, ruídos, pancadas e movimento de objectos sem causa conhecida.
Esses fenómenos sucediam com frequência de modo espontâneo, com uma intensidade e uma persistência singulares; notou-se também que se produziam especialmente sob influência de certas pessoas designadas como “médiuns”, que podiam provocá-los à sua vontade, ou seja, podiam repetir as experiências.
Foram usadas para isso mesas; não por serem objectos mais práticos do que outros, mas unicamente porque é o móvel mais cómodo para alguém se sentar à sua volta.
Obteve-se, dessa maneira, a rotação das mesas, depois movimentos em todos os sentidos, sobressaltos, quedas, levantamentos, pancadas com violência, etc.

Foi o fenómeno designado a princípio, como das “mesas girantes” ou “dança das mesas”

Até aí o fenómeno podia perfeitamente explicar-se por razões electromagnéticas, ou por acção energética desconhecida, e essa foi mesmo a opinião que se formou.
Não tardou porém a reconhecer-se nesses fenómenos a categoria de efeitos inteligentes.
Isso porque o movimento obedecia ao que era solicitado; a mesa movia-se para a direita ou para a esquerda em direcção à pessoa designada e, uma das pernas da mesa levantava-se podendo dar o número certo de pancadas no chão, a compasso, etc., tudo conforme fosse pedido.

As mesas falavam porque eram controladas por seres inteligentes

Desde então tornou-se evidente que a causa não era puramente física e, de acordo o axioma de que:  “Se todo o efeito tem uma causa, todo o efeito inteligente deve ter uma causa inteligente”.
A conclusão que se tirou foi de que o fenómeno deveria ser provocado por uma vontade inteligente.
Qual era a natureza dessa inteligência?
O primeiro pensamento foi que isso poderia ser um reflexo da inteligência do médium ou dos assistentes, mas a experiência logo demonstrou ser impossível; os resultados obtidos eram completamente alheios ao pensamento e aos conhecimentos das pessoas presentes, e mesmo contrários às suas ideias, à sua vontade e ao seu desejo.

A origem da ação inteligente só podia pertencer a um ser invisível.

O meio para averiguar isso era muito simples: Era necessário entrar em conversação com o ser que provocava os efeitos observados, o que se fez por meio de pancadas da perna da mesa.
De acordo com o número combinado, as pancadas significariam um SIM ou um NÃO a certas perguntas, ou ajudariam a designar certas letras do alfabeto para com elas formar palavras. Inventou-se assim uma forma de fazer perguntas e de obter respostas do ser que provocava os fenómenos.

Os seres inteligentes eram os espíritos e a sua mensagem era coerente

A partir desse momento as mesas deixaram de ser “dançantes” ou “girantes” e passaram a chamar-se MESAS FALANTES porque comunicavam deliberadamente mensagens.
Os seres que comunicavam tais mensagens, interrogados sobre a sua natureza, declararam ser Espíritos e pertencerem a um mundo invisível.
Tendo-se repetido os mesmos efeitos em grande número de localidades, por intermédio de pessoas diferentes e testemunhados por pessoas sérias e esclarecidas, tornou-se impossível aceitar que todos fossem vítimas de ilusão.

Dos Estados Unidos para vários países na Europa

Da América o fenómeno passou para a França e para o resto da Europa onde, durante alguns anos, as mesas girantes e falantes estiveram em moda nos salões onde se buscava entretenimento. Deixando de ser novidade, foram postas de lado em benefício de novas distrações.
O fenómeno não tardou a assumir um novo aspeto, deixando de ser uma mera curiosidade. Dado que a brevidade deste resumo não nos permite descrever todas as fases desse processo, passamos a descrever quais os aspetos que passaram a atrair, sobretudo, a atenção dos mais sérios interessados.
Digamos à partida e de passagem que a realidade do fenómeno encontrou numerosos contradictores; Alguns, sem levarem em conta o desprendimento material e a honradez dos experimentadores, apenas viram neles malabarismo hábil e passes de ilusionismo.
Aqueles que nada admitem para além da matéria, que só acreditam no mundo visível, que pensam que tudo morre com o corpo, os materialistas, numa palavra: aqueles que, por se sentirem “espíritos fortes”, imunes a patranhas, rejeitam a existência dos espíritos invisíveis que arrumam na classe de fábulas absurdas; classificaram de loucos aqueles que levavam essas experiências a sério e tentaram acabrunhá-los com sarcasmos e troça.
Outros, não podendo negar os fatos, e sob o império de uma certa ordem de ideias, atribuíram esses fenómenos à influência exclusiva do diabo e procuraram, por esse meio, atemorizar os tímidos.
Actualmente o medo do diabo perdeu o estatuto que possuía; tanto dele se falou, foi pintado de tão variadas formas que se trivializou, tendo muita gente ficado com a ideia que talvez não fosse pior ideia acabar por conhecê-lo para ver como de facto é.
O resultado disso é que, à parte um pequeno grupo de mulheres receosas, o anúncio de chegada do verdadeiro diabo não deixava de causar sensação junto dos que apenas o tinham visto pintado na tela ou às piruetas no palco.
Tornou-se por isso um atractivo que pregou uma partida aos que quiseram servir-se dele para colocar uma barreira frente a novas ideias, tendo acabado de desempenhar – contra vontade – o papel de eficazes denunciadores dos disparates de que foram inventores.
Os outros críticos não tiveram maior sucesso, porque perante os fatos concretos e os raciocínios categóricos, só puderam opor desmentidos.
Lede o que publicaram e por toda parte encontrareis a prova da ignorância e da falta de observação séria dos fatos, jamais tendo conseguido demonstrar a sua impossibilidade.
Tudo o que afirmaram se resumia a dizer que “não acredito, por isso, nada existe”; “todos os que acreditam são parvos”; “só nós é que temos o privilégio da razão e do bom-senso”.
O número dos adeptos produzidos pela crítica séria ou brincalhona é incalculável, porque por todo o lado só se encontram opiniões pessoais vazias de provas de impossibilidade. Prossigamos, pois, com a nossa apresentação.

A evolução das técnicas de comunicação com os espíritos

As comunicações por pancadas eram lentas e incompletas; Verificou-se que adaptando-se um lápis a um objecto móvel: cesta, prancheta ou outro qualquer que se segurasse com os dedos, esse objecto punha-se em movimento e desenhava letras.
Mais tarde concluiu-se também que tais utensílios eram dispensáveis, demonstrando a prática que o o espírito podia actuar directamente por intermédio dos membros do médium, que escrevia a mensagem pela sua própria mão. Isso deu origem aos médiuns de escrita, isto é, pessoas que escrevem involuntariamente sob a influência dos espíritos de quem se tornam instrumentos ou intérpretes.

Finalmente: falar em direto com os espíritos

A partir daí as comunicações tornaram-se mais fáceis e a troca de pensamentos pôde começar a fazer-se como entre pessoas vivas, com rapidez e fluência. Foi um vasto campo que se abriu à exploração e descoberta de um mundo novo: o mundo dos invisíveis, da mesma forma que o microscópio tinha revelado o mundo das coisas ínfimas.
O que são esses espíritos? que papel desempenham no universo? Com que propósito comunicam com os mortais? Eram essas as primeiras perguntas que era necessário esclarecer. Em breve se soube, por eles mesmo, que não eram seres à parte na criação, mas sim as próprias almas dos que tinham vivido sobre a terra ou noutros mundos; almas que, libertas do seu veículo, ou envoltório corporal , povoavam e percorriam ainda o espaço.

Os espíritos dão provas porque são pessoas conhecidas ou de família

Deixou de poder duvidar-se da proximidade dos espíritos quando, dentre as várias entidades contactadas, foi possível reconhecer amigos e familiares; Quando estes mesmo vieram dar provas de existirem, demonstrando:

− que neles apenas haviam falecido os corpos;
− que os espíritos continuavam vivos, que estavam ali junto de nós, observando-nos e vendo-nos como quando viviam ainda materialmente, rodeando de atenções os seus entes queridos cuja recordação continuava a ser para eles a mais doce satisfação.

A constituição científica de todos os seres humanos como nós

Tem-se geralmente dos espíritos uma ideia completamente falsa. Não são, como é vulgar imaginá-los, seres abstractos, vagos e indefinidos, nada que se pareça com uma mancha luminosa ou uma centelha. Pelo contrário são seres bem reais, individualizados e com formas definidas. Pode-se ter uma ideia aproximada a seu respeito da seguinte maneira:

As pessoas enquanto materialmente vivas são constituídas por três elementos essenciais:

1º − a alma ou espírito, princípio inteligente no qual reside o pensamento, a vontade e o sentido moral;
2º − O corpo, parcela, ou invólucro material, pesado e comparativamente mais denso, que serve para que o espírito se relacione dom o mundo exterior;
3º − o perispírito, parcela ou sistema energético, muito leve, que serve de elemento de ligação e intermediário entre o espírito e o corpo.

A morte não existe

Quando a parcela ou invólucro material, o corpo, se gasta e deixa de funcionar, o espírito desembaraça-se dele como fruto da casca ou como quem despe um fato já usado.
A morte é só a destruição desse elemento mais denso se comparado com o espírito e que lhe serve de veículo durante a vida terrena.
Durante toda essa vida o espírito está constrangido às limitações da matéria à qual é transitoriamente associado e que condiciona parte significativa das suas faculdades.
A morte do corpo liberta-o desse constrangimento, do qual se vê livre recuperando a liberdade natural que lhe é própria, tal borboleta que se desprende da crisálida.
Mas só se liberta do corpo material, mantendo a seu serviço e levando consigo para o mundo espiritual o já falado perispírito, que passa a ser o seu corpo etéreo e vaporoso, cuja imponderabilidade conserva o aspecto humano, sua forma-tipo.

As propriedades do perispírito

No seu estado normal o perispírito é invisível para nós, podendo o espírito imprimir-lhe modificações que o tornam momentaneamente acessível à vista e ao tacto, como se passa com o vapor condensado. É sob essa forma que pode revelar-se-nos em aparições.
Com a ajuda do perispírito, o espírito pode actuar sobre a matéria, produzindo ruídos, movimentando objectos e provocando actos de escrita.

As manifestações dos espíritos

Certos ruídos e movimentação de objectos são meios de que os espíritos se servem para dar provas da sua presença e chamarem a atenção, da mesma forma que fazemos para revelar a nossa presença. Em certos casos não se limitam a ruídos moderados, indo ao ponto de simular grande barulheira de louça partindo-se, portas abrindo e fechando-se, ou móveis que caiem ao chão.
Pelas pancadas e movimentos combinados puderam começar a revelar os seus pensamentos, oferecendo-lhes a escrita um processo mais rápido e cómodo. Foi esse o que preferiram. Do mesmo modo que puderam traçar letras passaram a guiar as mãos executando desenhos, compondo música, e tangendo instrumentos musicais. Numa palavra, não dispondo já de corpo activo, serviram-se do corpo dos médiuns para se manifestar aos homens de forma perceptível.
Há ainda outras formas pelas quais se podem manifestar os espíritos, entre outras pela vista e pela audição. Certas pessoas, chamados médiuns auditivos têm a faculdade de ouvir, e podem por isso conversar com eles.

Os médiuns videntes

Outras pessoas podem ver os espíritos, são os médiuns videntes. Os espíritos que se manifestam dessa forma apresentam-se geralmente de forma análoga àquela que tinham em vida, embora vaporosa.
Certas vezes, porém, esse aspecto reproduz exactamente um ser vivo, ao ponto de provocar a ilusão completa das pessoas em carne e osso com as quais foi possível conversar e apertar a mão, sem reparar que se tratava de espíritos, senão no momento da sua desaparição súbita.
A visão permanente e geral dos espíritos é raríssima, mas as aparições individuais frequentes, sobretudo no momento da morte.  Os espíritos que se libertam da vida material parece terem urgência de ver os seus familiares e amigos, como para avisá-los de que deixaram a terra e que continuam vivos.
(NT.: ter em atenção o fenómeno das “visões no leito de morte” estudado e recenseado por especialistas de diversas áreas, mesmo sem ser espíritas).
Se as pessoas em geral fizerem um inventário de recordações ver-se-á ao certo qual o número de factos deste género a que não se deu atenção e que sucederam não apenas de noite, durante o sono, mas em pleno dia no estado mais completo de vigília. Outrora entendiam-se tais fenómenos como sobrenaturais e maravilhosos, e atribuíam-se à magia ou à feitiçaria. Os incrédulos levam-nos à conta de imaginários, mas, desde a altura que a ciência espírita esclareceu as suas causas, sabemos como se produzem e que são acontecimentos da ordem dos fenómenos naturais.

Os espíritos nem são todos bons nem são todos sábios

Acreditou-se além disso que os espíritos, pela simples razão de o serem, dominariam toda a ciência e toda a sabedoria. É um erro que a experiência não tardou a revelar. Dentre as comunicações dos espíritos há as que têm uma sublime profundidade, eloquência, sabedoria, moral e que só respiram bondade e benevolência. Paralelamente há as que mostram vulgaridade, ligeireza, trivialidade e mesmo grosseria, revelando que o espírito comunicante revela instintos os mais perversos. É evidente que esta diversidade de comunicações não deriva das mesmas fontes e que tanto existem espíritos bons como espíritos maus.
Os espíritos, que não passam de almas humanas, não podem tornar-se perfeitos no momento em que deixam o corpo físico. Até que se não dê a sua evolução, conservam todas as imperfeições da vida corporal. É por esse motivo que existem espíritos de todos os graus de bondade e de maldade, de sabedoria e de ignorância.

Quem fundou o espiritismo foram os espíritos, que são almas dos homens

Os espíritos comunicam com as pessoas deste mundo com prazer, sendo para eles uma satisfação ver que não foram esquecidos. Descrevem com boa vontade as suas impressões a respeito da partida para o mundo espiritual e da sua nova situação, a natureza das suas alegrias e dos seus sofrimentos no mundo em que se encontram,
Uns são muito felizes, outros infelizes, alguns passam mesmo por tormentos horríveis, segundo a maneira como viveram e de acordo com o bom ou mau emprego, útil ou inútil, que fizeram da sua vida. Observando-os em todas as fases da sua nova existência, de acordo com as posições que ocuparam na terra, o género de morte pelo que passaram, os seus caracteres e hábitos enquanto homens chega-se a um conhecimento, senão completo, pelo menos bastante exato do mundo espiritual, o que nos permite avaliar as nossas futuras condições e pressentir que sorte nos espera, feliz ou infeliz.
As instruções dadas por espíritos de ordem elevada a respeito dos assuntos que interessam à humanidade, as respostas que deram às perguntas que lhe foram apresentadas, tendo sido recolhidas e coordenadas com cuidado, constituem toda a ciência, toda a doutrina moral e filosófica que tem o nome de Espiritismo.

O Espiritismo É, POIS, a doutrina fundada sobre a existência, as manifestações e o ensinamento dos espíritos.

Essa doutrina encontra-se exposta de maneira completa em:

− “O Livro dos Espíritos” nos seus aspectos filosóficos;
− “O Livro dos Médiuns” nos aspectos da sua prática experimental;
− “O Evangelho segundo o Espiritismo” nos seus aspectos morais;

(Nota do tradutor: ao tempo da publicação desta pequena obra – em 1862 – não estavam ainda publicados os restantes livros da codificação espírita, a saber: “O Céu e o Inferno” e “A Génese”.)
Podemos ajuizar, pela análise que fornecemos conjuntamente dessas obras da variedade, da extensão e da importância das matérias que a doutrina referida abarca.
Tal como foi dito acima o Espiritismo teve o seu início no fenómeno vulgar das mesas girantes, que falava mais aos olhos que à inteligência e estimulava mais a curiosidade que o sentimento.
Uma vez esgotada a novidade, no caso de nada se ter compreendido, o interesse morria.
Esse panorama mudou por completo quando foram tiradas as devidas conclusões a respeito dos factos e se atingiram as causas respetivas.
Sobretudo quando se concluiu que essas “mesas girantes”, que tinham servido serões de divertimento, tinham a capacidade de produzir uma doutrina moral dirigida às almas;
− dissipando a dúvida angustiante da origem e do futuro das nossas vidas;
− e preenchendo o enorme vazio provocado pela falta de esclarecimento sobre o destino da humanidade;
as pessoas sérias receberam de braços abertos o benefício dessa nova doutrina que, desde logo, longe de declinar, se viu progredir na sociedade com incrível rapidez.

(…)

O Espiritismo, contudo, não é uma descoberta moderna. Os factos e os princípios sobre os quais se apoia perdem-se na noite dos tempos, encontrando-se os seus vestígios nas crenças de todos os povos, em todas as religiões e na maior parte dos escritores dos textos sagrados e profanos. Somente os factos, incompletamente observados foram frequentemente interpretados de acordo com as superstições da ignorância, e deles não se tinham retirado as respetivas conclusões.
Com efeito o Espiritismo fundou-se na existência dos espíritos, que eram exatamente as almas dos homens.
Desde que há homens, há espíritos; o Espiritismo nem os descobriu nem os inventou.
Se as almas, ou espíritos podem manifestar-se aos vivos é porque isso está na própria natureza e é por isso que tais manifestações se verificaram desde sempre.
Por esse facto, são de todos os tempos e de todos os lugares as provas de tais manifestações, especialmente abundantes sobretudo nos textos bíblicos.

O Espiritismo: a verdade comprovada pelos fatos

O que é moderno é a explicação lógica dos factos, o conhecimento mais completo da natureza dos espíritos, do seu papel e das suas formas de agir, da revelação do nosso estado futuro, enfim, da constituição de um corpo científico e doutrinário e suas aplicações.
Os antigos conheciam os princípios e os modernos conhecem os detalhes.
Na antiguidade o estudo destes fenómenos era privilégio de certas castas que só os revelavam aos iniciados em tais mistérios. Na Idade Média aqueles que se dedicavam ostensivamente a tais estudos eram olhados como feiticeiros e eram queimados nas fogueiras.
Hoje não há mistérios para ninguém, já não se mandam pessoas para as fogueiras. Tudo se passa às claras e todos têm o direito de aprender e de fazer experiências, porque os médiuns abundam.
A própria doutrina que é hoje ensinada pelos espíritos nada tem de novo. Encontra-se fragmentada pela maior parte dos filósofos da Índia, do Egito e da Grécia, e por inteiro nos ensinamentos do Cristo.

Os efeitos do Espiritismo

A que vem agora o Espiritismo?
Vem confirmar novos testemunhos, demonstrados pelos factos verdades desconhecidas ou mal compreendidas e colocar no seu devido lugar ideias que têm sido mal interpretadas.
O Espiritismo não ensina nada de novo, é certo. Mas é muito importante provar de modo claro e inegável a existência da alma, a sobrevivência e a conservação da individualidade depois da morte, a imortalidade, as penas e recompensas futuras!…
Imensa gente acredita nessas coisas, mas com uma vaga reserva de incertidão, dizendo de si para consigo: “Se calhar, as coisas não são bem assim!” Muitos terão sido levados à incredulidade por lhes ter sido apresentado o futuro de maneira que não podiam conceber racionalmente.
Para o crente duvidoso é fundamental poder dizer para si próprio de uma vez por todas: “Agora, tenho a certeza!” Tanto como para o cego é fundamental poder ver claramente de novo.

Pelos factos e pela sua lógica o Espiritismo vem

− dissipar a ansiedade da dúvida e trazer à fé aqueles que dela se tinham afastado;
− revelando-nos a existência do mundo invisível que nos rodeia, e no meio do qual vivemos sem disso fazer a mínima ideia, dá-nos a conhecer, pelo exemplo daqueles que deixaram de viver, as condições que nos cabem da felicidade ou da infelicidade que nos espera.
− Explica-nos a causa dos nossos sofrimentos na vida terrena e os meios que de que dispomos para aliviá-los.

A propagação do Espiritismo terá como consequência inevitável a destruição das doutrinas materialistas que não podem resistir à evidência dos fatos.
O homem, convencido da grandeza e da importância da sua existência futura, que é eterna, compara-a à incertidão da vida terrestre, que é tão curta, e eleva-se pelo pensamento acima das questiúnculas humanas.
Conhecendo a causa e o propósito das suas misérias, suporta-as com paciência e resignação, porque sabe que são um meio para alcançar um estado de melhor evolução.
O exemplo daqueles que vêm de além-túmulo descrever o seu júbilo e as suas dores, como provas da vida futura, prova de igual modo que nenhum vício fica impune e nenhuma virtude fica sem recompensa.
Acrescentemos enfim que as comunicações com os entes queridos que nos deixaram são causa da doce consolação de que eles existem, e que mais próximos deles nos encontramos que se – estando vivos – tivessem ido morar para qualquer país estrangeiro.

Em resumo o Espiritismo abranda a a amargura dos desgostos da vida,

− acalma os desesperos e as agitações da alma,
− dissipa as incertezas e os receios do futuro,
− desencoraja o intuito de encurtar a vida pelo suicídio; por isso mesmo torna felizes aqueles que à vida e ao futuro se entregam; e é esse o grande segredo da sua rápida propagação.

Sob o ponto de vista religioso o Espiritismo tem por base as verdades fundamentais de todas as religiões : Deus, a alma, a imortalidade, as penas e recompensas futuras, mas é independente de qualquer espécie de culto.
A sua finalidade é a de provar àqueles que negam ou que duvidam que a alma existe, não só que ela existe como sobrevive ao corpo; que, após a morte, sofre as consequências do bem e do mal que tenha feito durante a vida corporal. Isso, é de todas as religiões.
O Espiritismo, como crença nos espíritos é igualmente de todas as religiões e de todos os povos, porque onde há homens há almas e espíritos e de todos os tempos são as manifestações cujos relatos em todas se podem encontrar sem exceção.
Pode ser-se católico, grego ou romano, protestante judeu ou muçulmano, e acreditar-se nas manifestações dos espíritos e, por conseguinte, ser-se espírita; a prova é que o Espiritismo tem aderentes de todas essas correntes religiosas.
Como moral é essencialmente Cristão, porque a moral que ensina é justamente o desenvolvimento e a aplicação da moral de Jesus, a mais pura de todas e cuja superioridade não é contestada por ninguém, o que faz dela a lei de Deus. A moral está ao serviço de todos os homens.

O Espiritismo não é uma religião

O Espiritismo, sendo independente das formas de culto, não prescreve nenhum; não se ocupando de dogmas, não é religião, dado que nem tem padres nem templos. Aos que lhe perguntam se fazem bem em seguir esta ou aquela prática, responde: “Se acreditais que a vossa consciência nisso vos empenha, fazei-o”: Deus leva sempre em conta as intenções.
Numa palavra, o Espiritismo não se impõe a ninguém nem se dirige aos que têm fé, e aos que com a fé se satisfazem, mas à categoria numerosa dos inseguros e dos incrédulos; não os tira da Igreja da qual se separaram moralmente no todo ou em parte; obriga-os a fazer três quartas partes do caminho para nela entrar – cabendo-lhe a ela fazer a parte restante da tarefa.
É certo que o Espiritismo combate algumas ideias como a das penas eternas, a do fogo do inferno e da figura do diabo, etc. Algumas destas crenças impostas como indiscutíveis produziram incrédulos ao longo dos séculos, tal como ainda hoje o fazem.
O Espiritismo, dando destes dogmas e de alguns outros uma explicação racional, devolve desse modo a fé aos que a haviam abandonado, prestando à religião um serviço de valor. A esse respeito afirmava um venerando membro do clero: “O Espiritismo faz com que se acredite em algo. E é melhor isso do que não acreditar em nada”.
Sendo os espíritos propriamente almas, não podemos negar uns sem negar as outras.
Admitindo-se a existência das almas e dos espíritos na sua expressão mais simples, a questão que se coloca é esta: as almas daqueles que já morreram podem comunicar com os que ainda estão vivos na carne?
O Espiritismo dá a essa pergunta uma resposta afirmativa baseado em factos materiais. Que provas podem dar-se de que tal não é possível?
Se tais comunicação são um facto, nem todas as negações do mundo podem pô-las em dúvida. Essas comunicaçóes não são um sistema ou uma teoria. São uma lei da natureza, contra a qual a vontade do homem nada pode. De boa ou de má vontade é preciso aceitar as suas consequências, acomodando a ela crenças e hábitos.

RESUMO DO ENSINAMENTO DOS ESPÍRITOS

Deus

  1. Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas.
    Deus é eterno, único, imaterial, imutável, todo-poderoso, soberanamente justo e bom. Deve ser infinito em todas as suas perfeições, porque supondo-se um único de seus atributos imperfeito, já não seria Deus.
  2. Deus criou a matéria que constitui os mundos; criou também seres inteligentes, que chamamos Espíritos, encarregados de administrarem os mundos materiais segundo as leis imutáveis da criação, os quais podem ser aperfeiçoados na sua própria natureza, aproximando-se por isso da divindade.

O espírito

  1. O espírito propriamente dito é o princípio inteligente. A sua natureza íntima é-nos desconhecida; para nós é imaterial porque não tem nenhuma analogia com o que chamamos matéria.
  2. Os Espíritos são seres individuais; têm um envoltório etéreo, imponderável, chamado perispírito, complexíssimo sistema energéticoflui com configuração semelhante à da forma humana. Povoam os espaços, que percorrem com a rapidez do relâmpago e constituem o mundo invisível.
  3. A origem e o modo de criação dos Espíritos são desconhecidos; sabemos apenas que foram criados simples e ignorantes, quer dizer, sem ciência e sem conhecimento do bem e do mal mas com igual aptidão para tudo porque Deus, em sua justiça, não poderia isentar uns do trabalho que tivesse imposto a outros para chegarem à perfeição. Ao princípio estão numa espécie de infância, sem vontade própria e sem consciência perfeita de sua existência.
  4. Tendo-se desenvolvido o livre arbítrio nos Espíritos ao mesmo tempo que as ideias, disse-lhes Deus: “Podeis todos aspirar à felicidade suprema quando houverdes adquirido os conhecimentos que vos faltam e cumprida a tarefa que vos imponho. Trabalhai, pois, para o vosso aperfeiçoamento. O objectivo é este:  atingi-lo-eis seguindo as leis que gravei na vossa consciência.”

O livre arbítrio e o Mal

Em consequência de seu livre arbítrio, uns tomam a estrada mais curta, que é o do bem, outros a mais longa, que é a do mal.

  1. Deus não criou o mal; estabeleceu leis e essas sempre boas, porque ele é soberanamente bom; aquele que as observasse fielmente seria perfeitamente feliz; mas os Espíritos, tendo seu livre arbítrio, nem sempre as observaram e o mal resultou, para eles, da sua desobediência. Pode dizer-se, pois, que o bem é tudo o que está conforme com a lei de Deus e o mal tudo o que é contrário a essa mesma lei.

A encarnação

  1. Para contribuir, como agentes do poder divino, para a edificação dos mundos materiais, os Espíritos revestem-se temporariamente de um corpo material. Pelo trabalho que sua existência corpórea necessita, aperfeiçoam a sua inteligência e adquirem, observando a lei de Deus, os méritos que devem conduzi-los à felicidade eterna.
  2. A encarnação não foi imposta ao Espírito, de início, como punição; ela é necessária ao seu desenvolvimento e à realização das obras de Deus, e todos devem passar por ela, tomem o caminho do bem ou do mal; somente aqueles que seguem a rota do bem, avançando mais rapidamente, demoram menos a atingir o objetivo e alcançam-no em condições menos penosas.
  3. Os Espíritos encarnados constituem a Humanidade, que não é circunscrita à Terra, mas que povoa todos os mundos disseminados no espaço.
  4. A alma do homem é um Espírito encarnado. Para ajudá-lo no cumprimento da sua tarefa, Deus deu-lhe como auxiliares, os animais que lhe são submissos e cuja inteligência e caráter são proporcionados às suas necessidades.

A evolução do espírito

  1. O aperfeiçoamento do Espírito é fruto do seu próprio trabalho; não podendo, numa só existência corpórea, adquirir todas as qualidades morais e intelectuais que devem conduzi-lo ao objetivo, faz isso por uma sucessão de existências, em cada uma das quais dá alguns passos em frente no caminho do progresso.
  2. Em cada existência corpórea, o Espírito deve dedicar-se a uma tarefa proporcional ao seu desenvolvimento; quanto mais rude e laboriosa for, mais mérito tem em cumpri-la. Cada existência, assim, é uma prova que o aproxima do objetivo. O número dessas existências é indeterminado. Depende da vontade do Espírito encurtar o seu número, trabalhando ativamente pelo seu aperfeiçoamento moral; do mesmo modo que depende da vontade do obreiro que tem uma tarefa reduzir o número de dias que leva para cumpri-la.
  3. Quando uma existência foi mal empregada não terá proveito para o Espírito, que deve repeti-la em condições mais ou menos penosas, em função da sua negligência e da sua má vontade; assim é que, na vida, pode ser-se constrangido a fazer no dia seguinte, o que não se fez na véspera, ou a fazer de novo o que se fez mal.

Os espíritos são imortais − a vida normal é passageira

  1. A vida espiritual é a vida normal do Espírito: é eterna; a vida corpórea é transitória e passageira: é apenas um instante na eternidade.
  2. No intervalo de suas existências corpóreas, o Espírito é errante. A erraticidade não tem duração determinada; nesse estado, o Espírito é feliz ou infeliz, segundo o bom ou o mau emprego que fez de sua última existência; estuda as causas que apressaram ou retardaram o seu adiantamento; toma as resoluções que procurará pôr em prática na sua próxima encarnação e escolhe, ele mesmo, as provas que julga mais ajustadas para progredir: algumas vezes engana-se ou sucumbe, não assumindo como homem as resoluções que tomou como Espírito.
  3. O Espírito culpado é punido por sofrimentos morais no mundo dos Espíritos e por penas físicas na vida corpórea. As suas aflições são consequência das faltas cometidas, quer dizer, das infrações à lei de Deus; São por isso, ao mesmo tempo, uma expiação do passado e uma prova para o futuro; o orgulhoso pode vir a ter uma existência de humilhação, o tirano uma de servidão e o mau rico uma de miséria.

A pluralidade dos mundos habitados

  1. Há mundos apropriados para diferentes graus de adiantamento dos Espíritos e onde a existência corpórea se encontra em condições muito diferentes. Quanto mais atrasado é o Espírito, mais os corpos que reveste são pesados e espessos; à medida que se purifica, passa para mundos moral e fisicamente superiores. A Terra não é nem dos primeiros nem dos últimos, mas é do grupo dos mais atrasados.
  2. Os Espíritos culpados encarnam nos mundos menos avançados, onde expiam as suas faltas pelas atribulações da vida material. Esses mundos são para eles verdadeiros purgatórios, mas depende deles saírem dali, trabalhando pelo seu adiantamento moral. A Terra é um desses mundos.

Não existem as penas eternas – a evolução será completa e igual para todos

  1. Deus, sendo soberanamente justo e bom, não condena suas criaturas a castigos perpétuos por faltas transitórias; oferece-lhes permanentemente meios de progredir e de reparar o mal que tenham podido fazer. Deus perdoa mas exige o arrependimento, a reparação e o regresso à prática do bem. A duração do castigo é proporcional à persistência do Espírito no mal; donde se conclui que o castigo seria eterno para aquele que permanecesse eternamente no mau caminho. Se a qualquer momento um clarão de arrependimento entrar no coração do culpado, Deus estende sobre ele a sua misericórdia. A eternidade das penas deve também ser entendida no sentido relativo e não no sentido absoluto.
  2. Os Espíritos, ao virem à carne, trazem com eles o que adquiriram nas suas existências anteriores; é a razão pela qual os homens mostram, instintivamente, aptidões especiais, inclinações boas ou más que parecem inatas.
    As más tendências naturais são os restos das imperfeições do Espírito das quais não está inteiramente despojado; são também os indícios das faltas que cometera anteriormente, que devem ser entendidas como o verdadeiro pecado original. E cada existência deve servir para os homens se irem lavando de algumas impurezas.

O esquecimento das vidas anteriores

  1. O esquecimento das existências anteriores é um benefício de Deus que, na sua bondade, quis poupar ao homem lembranças tantas vezes penosas. Em cada nova existência, ele é aquilo que fez anteriormente de si mesmo; um novo ponto de partida para aquele que conhece os seus defeitos atuais; sabe que esses defeitos são a consequência daqueles que tinha antes e que lhe dá a conhecer o mal que pode ter cometido cometer e isso lhe basta para trabalhar a fim de se corrigir. Se tinha outrora defeitos já vencidos, nada tem a se preocupar com isso; as imperfeições presentes são quanto lhe basta.
  2. Se a alma não viveu antes é porque é criada ao mesmo tempo que o corpo. Supondo isso não pode ter nenhuma relação com as almas que a precederam. Pergunta-se então como é que Deus, que é soberanamente justo e bom, pode tê-la feito responsável por culpas do pai do género humano, manchando-a com um pecado original que não cometeu?
    Dizendo, pelo contrário, que que ela carrega consigo ao nascer o germe das imperfeições de existências anteriores; que ela sofre na existência actual as consequências dos erros cometidos antes, dá-se do pecado original uma explicação lógica que todos podem compreender e aceitar, porque a alma só é responsável pelas suas próprias falhas.

A lógica da Criação confirma-se a si própria

  1. A diversidade das aptidões inatas, morais e intelectuais, é a prova que as almas já tiveram vidas anteriores. Se fossem criadas ao mesmo tempo que o corpo, seria contrário à bondade de Deus ter feito umas mais avançadas que as outras. Como explicar a existência dos selvagens e das pessoas civilizadas, dos bons e dos maus, dos parvos e das pessoas de espírito? Essas diferenças só se explicam dizendo que uns viveram mais do que outros e por isso mais evoluídos se encontram.
  2. Se a existência actual fosse única e determinasse o futuro da alma para todo o sempre, qual seria o destino das crianças que morrem na sua infância? Não tendo feito nem o bem nem o mal, não merecem nem recompensas nem punições. Segundo a palavra do Cristo, sendo cada um recompensado pelas suas obras, não têm direito à felicidade perfeita dos anjos, nem merecem ser privados dela. Digamos que poderão, noutra existência, realizar aquilo que não puderam fazer naquela que foi abreviada, e não há mais excepções.
  3. Pelo mesmo motivo, qual seria a sorte dos cretinos e dos idiotas? Não tendo nenhuma consciência do bem e do mal, não têm nenhuma responsabilidade pelos seus atos. Teria sido Deus justo e bom se criasse almas estúpidas para votá-las a uma existência miserável e sem frutos?
    Se admitirmos, pelo contrário, que o caso da alma de um cretino ou de um idiota se trata de um espírito em punição, vivendo aprisionado num corpo incapaz de pensar, já não haverá motivo nenhum para pensarmos que algo estará em desarmonia com a justiça de Deus.

O fim das existências corpóreas e ajuda para todos na evolução

  1. Na sucessão das encarnações, ficando o Espírito pouco a pouco liberto das suas impurezas e aperfeiçoado pelo trabalho, chega ao fim das suas existências corpóreas; pertence, então, à ordem dos Espíritos puros ou dos anjos e goza ao mesmo tempo, da vida completa de Deus e de uma felicidade sem mácula pela eternidade.
  2. Aos homens em expiação sobre a terra, Deus − como um bom pai − não os deixou entregues a si próprios, sem o amparo de um guia. Em primeiro lugar têm os seus espíritos protectores ou anjos guardiões, que velam por eles e se esforçam por conduzi-los ao bom caminho. Têm ainda os espíritos em missão sobre a terra, espíritos superiores que encarnam em certas alturas entre eles, para iluminarem o caminho pelos trabalhos que realizam e fazer avançar a humanidade. Embora Deus tenha gravado a sua lei na consciência dos homens, entendeu dever formulá-la de uma forma explícita; enviou-lhes primeiro Moisés, cujas leis foram apropriadas para os homens do seu tempo. Só lhes falava da vida terrestre, das penas e recompensas temporais. O Cristo veio de seguida completar a lei de Moisés com ensinamentos mais elevados. A pluralidade das existências, a vida espiritual, as penas e recompensas morais. Moisés conduziu os homens pelo temor, O Cristo conduziu-os pelo amor e pela caridade.
  3. O Espiritismo, melhor compreendido actualmente, associa para os incrédulos as provas à teoria; prova o futuro por meio de factos concretos, diz em termos claros e inequívocos aquilo que Jesus disse por parábolas; explica verdades mal conhecidas ou falsamente interpretadas; revela a existência do mundo visível, ou dos espíritos, e inicia os homens nos mistérios da vida futura; vem combater o materialismo que é uma revolta contra o poder de Deus; vem enfim instaurar entre os homens o reino da caridade anunciada pelo Cristo. Moisés lavrou, o Cristo semeou e o Espiritismo vem fazer a colheita.
  4. O Espiritismo não é uma luz nova, mas uma luz resplandecente, porque surgiu por toda a terra por intermédio das palavras daqueles que já viveram. Tornando claro o que era obscuro, elimina as falsas interpretações ligando os homens em torno de uma mesma crença, porque só existe um Deus, sendo as leis as mesmas para todos os homens; demarca enfim a era dos tempos previamente anunciados pelo Cristo e pelos profetas.
  5. Os males que afligem os homens sobre a terra têm por origem o orgulho, o egoísmo e todas as más paixões. Pelo convívio com os seus vícios os homens tornam-se reciprocamente infelizes e agridem-se uns aos outros. A caridade e a humildade devem substituir o egoísmo e o orgulho, deixando de se causar dano. Respeitarão os direitos de cada um e farão reinar entre si a concórdia e a justiça.
  6. Como destruir o egoísmo e o orgulho que parecem ser inatos no coração do homem? O orgulho e o egoísmo estão no coração do homem, porque os homens são espíritos que seguiram desde o princípio o caminho do mal e foram exilados na terra para punição dos seus vícios; aí reside ainda o seu pecado original do qual muitos ainda não se libertaram. Pelo Espiritismo Deus vem efectuar um último apelo à pratica da lei ensinada pelo Cristo, a lei do amor e da caridade.
  7. Tendo a Terra chegado ao momento marcado para se tornar estância de felicidade e de paz, Deus não quer que os espíritos encarnados continuer a trazer distúrbios em prejuízo dos que são bons. É por isso que devem desaparecer. Irão expiar o seu endurecimento em mundos menos avançados onde continuarão a trabalhar para a sua evolução numa série de existências ainda mais infelizes e penosas que na Terra.
    Formarão nesses mundos uma nova raça mais esclarecida cuja tarefa será de fazer progredir os seres atrasados que ali habitam, com o auxílio dos conhecimentos adquiridos. Só sairão para mundos melhores quando tenham o devido mérito, e assim por diante até terem atingido a purificação completa. Se a Terra fora para eles um purgatório, esses mundos serão o seu inferno, um inferno, contudo, de onde a esperança nunca estará ausente.
  8. Considerando que a geração proscrita vai desaparecer rapidamente, uma nova geração aparecerá, cujas crenças estarão fundadas no Espiritismo cristão. Assistimos à transição que se opera, prelúdio da renovação moral cuja chegada é marcada pelo Espiritismo.

NORMAS DERIVADAS DO ENSINAMENTO DOS ESPÍRITOS

  1. O objectivo essencial do Espiritismo é o aperfeiçoamento dos homens. Essencialmente nos domínios do progresso moral e intelectual.
  2. O verdadeiro espírita não é aquele que acredita nas manifestações, e sim o que tira proveito dos ensinamentos dos espíritos. De nada serve a crença se não servir ao homem para avançar no caminho do progresso e se não o tornar melhor para o seu próximo.
  3. O egoísmo, o orgulho, a vaidade, a ambição, a cupidez, o ódio, a inveja, o ciúme e a maledicência são para a alma as ervas daninhas que é preciso todos os dias ir desbastando, e que têm por antídoto: a caridade e a humildade.
  4. A crença no Espiritismo só é proveitosa para aqueles de quem possa dizer-se: Vale mais hoje do que valia ontem.
  5. A importância que o homem atribui aos bens temporais está na razão inversa da sua fé no mundo espiritual; é a dúvida a respeito do futuro que o leva a procurar as alegrias deste mundo, satisfazendo as suas paixões, nem que seja à custa do próximo.
  6. As aflições sobre a terra são os remédios da alma; tratam-na para o futuro como uma operação cirúrgica salva a vida de um doente. É a razão pela qual o Cristo disse: “bem aventurados os aflitos, porque serão consolados.
  7. Nas vossas aflições, olhai abaixo de vós e não acima; pensai naqueles que sofrem ainda mais que vós.
  8. O desespero é natural naquele que acredita que tudo acaba com a vida do corpo; é um contra-senso naquele que tem fé no futuro.
  9. O homem é, frequentemente, o artífice de sua própria infelicidade neste mundo; Pense na fonte dos seus infortúnios e verá que na sua maior parte são resultado da sua imprevidência , do seu orgulho e da sua avidez e, por conseguinte das suas infracções às leis de Deus.
  10. A prece á um acto de adoração. Orar a Deus é pensar n’Ele, é aproximar-se d’Ele e colocar-se em comunicação com Ele.
  11. Aquele que ora com fervor e confiança fica mais forte contra as tentações do mal e Deus envia bons espíritos para ajudá-lo. É um pedido de ajuda que nunca é recusado quando é feito com sinceridade.
  12. O essencial não é orar muito, mas orar bem. Certas pessoas julgam que todo o mérito está no tamanho da prece, enquanto que ignoram os seus próprios defeitos. A prece é para elas uma ocupação, um passatempo, mas não um estudo de si mesmas.
  13. Aquele que pede a Deus perdão das suas faltas, só o obtêm mudando de conduta. As boas ações são a melhor das preces, porque os atos valem mais do que as palavras.
  14. A prece é recomendada por todos os bons Espíritos; ela é, por outro lado, pedida por todos os Espíritos imperfeitos como um meio de aliviar seus sofrimentos.
  15. A prece não pode mudar os decretos da Providência; mas, vendo que alguém se interessa por eles, os Espíritos sofredores sentem-se menos abandonados; são menos infelizes; a sua coragem é reforçada, aumenta o desejo de se elevarem pelo arrependimento e pela reparação das faltas, e pode desviá-los dos maus pensamentos. É nesse sentido que ela pode não somente aliviar, mas abreviar seus sofrimentos.
  16. Orai, cada um, segundo suas convicções e da maneira que acredita a mais conveniente, porque a forma não é nada, o pensamento é tudo; a sinceridade e pureza de intenção são essenciais; um bom pensamento vale mais que numerosas palavras, que se assemelham ao ruído de um moinho e de onde o coração está ausente.
  17. Deus fez homens fortes e poderosos para serem o sustentáculo dos fracos; o forte que oprime o fraco é maldito de Deus; frequentemente, recebe castigo disso ainda nesta vida, sem prejuízo de possíveis penas futuras.
  18. A fortuna é como um depósito em dinheiro de que o titular não tem mais do que o usufruto temporário. Não o levará para o túmulo e com toda a certeza terá de prestar contas rigorosas do uso que fez com ele.
  19. A fortuna é uma prova mais arriscada do que a miséria porque é uma tentação para cometer abusos e excessos. As pessoas de fortuna têm muito mais dificuldade em ser moderado do que em ser resignado.
  20. O ambicioso que triunfa e o rico que se deleita com prazeres materiais são mais de lastimar do que de invejar, porque é necessário olhar às consequências. O Espiritismo, pelos exemplos terríveis daqueles que viveram e que nos vêm falar da sua sorte, revela a verdade destas palavras do Cristo: “Aqueles que se exalta será humilhado e aquele que se humilha será exaltado”.
  21. A caridade é a lei suprema de Cristo: “Amai-vos uns aos outros como irmãos, amai o vosso próximo como a vós mesmos, perdoai aos vossos inimigos; não façais aos outros o que não quereis que vos façam”, tudo isso se resume numa palavra: caridade.
  22. A caridade não está somente na esmola, porque há caridade em pensamentos, em palavras e em atos. Aquele é caridoso em pensamentos porque é indulgente com as faltas do seu próximo; caridoso em palavras porque nada diz que possa agravar o seu próximo; caridoso em atitudes porque ajuda o próximo na medida das suas possibilidades.
  23. O pobre que reparte o seu pedaço de pão com alguém ainda mais pobre do que ele é mais caridoso e tem mais mérito aos olhos de Deus do que aquele que dá do que lhe é supérfluo sem de nada se privar.
  24. Quem quer que alimenta contra o seu próximo sentimentos de animosidade, ódio, ciúme e rancor não é caridoso, mente se se diz cristão e ofende a Deus.
  25. Homens de todas as castas, de todas as ideologias e de todas as cores, todos vós sois irmãos, porque Deus a todos chama para si; estendei a mão a toda e qualquer pessoa, qualquer que seja a vossa forma de culto ou a vossa maneira de adorar a Deus e não lanceis maldições sobre ninguém, porque a maldição é a violação da lei da caridade proclamada pelo Cristo.

SEM CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO

  1. Com base no egoísmo os homens estão em luta perpétua, com base na caridade viverão em paz.
    Apenas a caridade, como base das instituições, pode garantir a felicidade aos homens neste mundo; de acordo com as palavras do Cristo apenas a caridade pode garantir a felicidade futura, porque encerra em si mesma todas as virtudes que podem conduzir à perfeição.
    Com a verdadeira caridade tal como a ensinou e praticou o Cristo, deixará de haver egoísmo, orgulho, ódio, ciúme e maledicência, além de deixar de haver apego desordenado aos bens materiais deste mundo. É essa a razão pela qual para o Espiritismo cristão tem por lema o seguinte princípio: FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO.

Os incrédulos podem rir dos espíritos e fazer troça daqueles que acreditam nas suas manifestações; Riam se se atrevem do princípio que ele acaba de ensinar e que é a vossa própria salvaguarda, porque se a caridade desaparecesse da face da Terra os homens matavam-se uns aos outros e vós seríeis talvez as primeiras vítimas.
Não está longe o tempo em que esta regra, proclamada abertamente em nome dos Espíritos, será uma garantia protetora e um título de confiança em todos aqueles que a trouxerem gravada no seu coração.
Um Espírito disse: “Troçaram das mesas girantes; não se troçará jamais da filosofia e da moral que delas derivaram”.
Já estamos longe desses primeiros fenómenos que serviram de distração passageira do ócio e da curiosidade. Essa moral é antiquada, dizem alguns: “Os espíritos deveriam ter bastante mais espírito para nos dar realmente novidades”  foi dito por graça por mais de um crítico.
Se é antiquada, tanto melhor, isso prova que é de todos os tempos. Aos homens cabe a culpa de não a ter praticado, porque só as verdades eternas é que são autênticas.   Os Espíritos vêm chamar-vos, não por uma revelação isolada feita a um único homem, mas pela voz dos próprios Espíritos.
Esta, como trombeta final, vêm proclamar: “Podem acreditar  que aqueles que chamam mortos, estão mais vivos que vós, porque eles vêem o que não vedes e ouvem o que não ouvis.
Será fácil reconhecer naqueles que vos vêm falar, os vossos pais, os vossos amigos e todos aqueles que amastes na Terra e que acreditastes perdidos sem regresso.
Infelizes aqueles que julgam que tudo acaba com o corpo, porque serão cruelmente desenganados; infelizes aqueles que tiverem falta de caridade, porque sofrerão o que tiverem feito os outros sofrerem!
Escutem a voz daqueles que sofrem e que vêm dizer: “Nós sofremos por termos ignorado o poder de Deus e por ter duvidado da sua infinita misericórdia; sofremos pelo nosso orgulho, pelo nosso egoísmo, pela nossa avareza e por todas as más paixões que não soubemos  reprimir; sofremos por todo o mal que fizemos aos nossos semelhantes por termos esquecido a caridade”.
Incrédulos! Será para rir uma doutrina que ensina semelhantes coisas? Será boa ou má?

Encarando-a do ponto de vista da ordem social, dizei se os homens que a pratiquem seriam melhores ou piores, felizes ou infelizes!

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O Amor à Família e aos Amigos, reforço da confiança nos nossos ANJOS…

O percurso pela vida, a prática do carinho devotado, a solidariedade liberta de interesses, o AMOR incondicional, em suma, fazem parte da simplicíssima regra fundamental da vida: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos…

A cultura mais elaborada, a busca incessante de razões, a canseira das letras, nada disso é melhor do que isto que fica dito.

ora visitem e leiam, se fazem favor:

O MEU AVÔ NA AMÉRICA

é favor clicar para ter acesso

 

Itinerário de vida e recordações pessoais

A vida esforçada de Sebastião de Matos Gomes e de sua família, descrita à maneira de narrativa ficcional, forneceria matéria para uma obra muito rica de factos emblemáticos duma epopeia portuguesa de tantas gerações de emigrantes que encontraram na aventura de partir aquilo que não encontraram, de outro modo, na sua pátria de origem.
Tantos são os livros que se não escrevem, tantas as memórias que se perdem, tantos os trabalhos e sacrifícios que ficam por contar que a falta de mais um nada importa no largo oceano dos sonhos ignorados.

A breve resenha que aqui apresento das memórias que tenho da passagem de meu avô pelos Estados Unidos da América é apenas um registo simples de natureza afetiva.

Um conjunto de circunstâncias pessoais fez com que eu tenha sido um dos seus mais íntimos companheiros de conversas no derradeiro período da sua vida. A diferença de idades e o distanciamento no tempo das experiências de cada um, contudo, fazem com que Providence, para mim, não passe de um lugar fora de todos os mapas possíveis deste mundo que contemplo de longe com a saudade inexplicável das coisas que nunca vimos.

 

O percurso pela vida, a prática do carinho devotado, a solidariedade liberta de interesses, o AMOR incondicional, em suma, fazem parte da simplicíssima regra fundamental da vida: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos…

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A não perder… entrevista com LUCAS OLLES

AFINAL, O QUE SOMOS NÓS? / AFTER ALL, WHAT ARE WE?

Uma conversa lindíssima:
quem conta o sucedido, quem pergunta e quer saber; vozes serenas sem palavras demais…

Ouvir os três episódios, a não perder
revelações de ontem, de hoje e de sempre.

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Esta ligação dá acesso ao primeiro dos vídeos, que transita automaticamente para o segundo e para o terceiro. Tem todo o interesse ver e ouvir os três vídeos.

Antigas e modernas visões do mundo

Esta é a continuação do trabalho iniciado há dias, de publicação de um conjunto de estudos de divulgação dos diversos capítulos de A Génese de Allan Kardec, para estimular o interesse nessa importantíssima obra, recentemente envolvida em problematizações complexas, que também iremos abordar, depois de publicada toda a série destes PowerPoints.

De autoria de uma grande amiga e colaboradora deste blogue, que construiu este interessante conjunto de trabalhos, para divulgação num numa sala de estudos da nossa terra.

Nesta semana trazemos aos nossos leitores o
Capitulo V – Antigas e modernas visões do mundo

O PowerPoint respectivo pode ser descarregado no link abaixo inserido:

A Génese Cap V Antigas e modernas
visões do mundo

O papel da Ciência na Génese

 

 

Uma aplicada colaboradora de “espiritismo cultura” tem estado a realizar um importante trabalho pedagógico num activo centro cultural espírita dirigido por pessoas muito dedicadas e competentes, nossas amigas.

Temos o prazer de iniciar essa proveitosa colaboração, que irá prosseguir, com a publicação do Capítulo IV de A Génese de Allan Kardec, que tem por subtítulo “O Papel da Ciência na Génese”.

O PowerPoint respectivo pode ser descarregado no link abaixo inserido:

 

A Génese Cap IV – O papel da Ciência na Génese

 

Uma maravilhosa prenda de Natal para todos

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BOAS FESTAS E UM ANO NOVO DE 2019 MUITO FELIZ PARA TODOS OS NOSSOS VISITANTES;

Para nos ajudarem na tarefa de divulgação da cultura espírita pedimos que divulguem palavraluz.com e espiritismocultura.com junto de todos os Vossos amigos e conhecidos.
Com o favor de militância espírita de se inscreverem como SEGUIDORES destas duas páginas  e o pedido de que o façam também todos os Vossos amigos e conhecidos.
Já temos mais de 100 seguidores (hoje 121…) mas gostaríamos de chegar AOS MIL  !....

FICAVA A SER O MAIOR CENTRO CULTURAL ESPÍRITA DE TODO O MUNDO… com objectivo na plena liberdade de pensamento e na visão optimista da vida

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PARA ESCUTAR A PORTENTOSA OBRA DE JOHANN SEBASTIAN BACH, A PAIXÃO DE SÃO MATEUS, BWV 244, É FAVOR CLICAR NESTA FRASE

 

Desculpem, estamos a traduzir “O Livro dos Médiuns”, para publicação no primeiro semestre de 2019 (uma novidade de vésperas de Natal…), por isso não há tempo para traduzir o texto abaixo…

MATTHEW-BASICS

Betrayal, judgement and death, but above all love; although most of the words of the St Matthew Passion are almost 2000 years old, the message is still relevant today.

The St Matthew Passion tells the story of the last days of Jesus. He is betrayed, tried, crucified and buried. The lyrics were compiled by Picander (the pseudonym of Christian Friedrich Henrici), probably in close consultation with Bach himself. For their theme, they took the story as told by St Matthew the Evangelist. As different groups or people have their say, the singers get different roles – Christ, Judas, Peter, a slave girl, the pupils, the high priests, the people and the soldiers, etc.

At key moments in the story, Bach and Picander added chorales and arias as a reflection of the biblical story. The action is suspended and the events are placed in the theological context of Bach’s day.
The chorale lyrics and melodies come from the Lutheran hymn book, and were well known to the congregation in Leipzig. Even though Bach’s harmonies were new, everyone would have recognised the melody and the words. The lyrics for the opening and closing choruses and the arias were brand new, however. Both the arias and the chorales often link up seamlessly with the evangelical words.

In his lyrics, Picander distinguishes between two groups of people: the ‘Daughters of Zion’ (Jerusalem) on the one hand, and the faithful souls on the other. Picander often puts these two groups in dialogue with one another. Bach reinforces this dialogue effect by having two separate ensembles of singers and instrumentalists, which he refers to as coro I and coro II. Each of the two ensembles has its own function. The first choir is part of the story and provides the most important emotional reactions, as in the arias ‘Erbarme dich’ and ‘Aus Liebe’. The second choir asks questions, provides commentary and draws conclusions.

In the chorales, Bach combines the two ensembles, and the whole group supports the spoken word. He also uses both choirs together where he wants to portray the furious crowd to maximum effect, as in ‘Lass ihn kreuzigen’. The first choir always takes the lead, and the second follows.

The ‘Dutch’ passion
Whether or not they are lovers of classical music, practically everyone in the Netherlands knows the St Matthew Passion. Every year, there is a real ‘Matthew madness’ in the month before Easter. Each town has its own performance and any reasonably large concert hall has at least two or three. The first performance of the St Matthew Passion in the Netherlands was in Rotterdam in 1870. Amsterdam followed suit in 1874. With the Concertgebouw orchestra, Willem Mengelberg then instituted a Passion tradition in Amsterdam that still continues today. In reaction to the Mengelberg performances, the Netherlands Bach Society was formed in 1921. The founders thought that the St Matthew should be performed where it belonged – in a church. The annual performance by the Bach Society in Naarden grew to become ‘the’ Dutch St Matthew Passion

Publicação de “A Génese” e o Instituto Canuto de Abreu

A FEAL, em Junho de 2018  lançou edição especial de “A Génese” e anunciou o projeto do Instituto Canuto Abreu

Em 8 de Junho de 2018, a capital paulista foi palco de um importante evento espírita promovido pela FEAL – Fundação Espírita André Luiz, com o lançamento de uma edição do livro A Génese de Allan Kardec, que, aliás, está num ano jubilar . Esta publicação da Editora FEAL consagra a campanha de resgate do texto original da obra kardequiana, sendo então traduzida para o nosso português a partir da 1ª edição francesa em alternativa às tradições tradicionais feitas da 5ª edição, que ficou demonstrada, conforme intenso trabalho de pesquisas históricas, ser uma obra adulterada.

O evento contou com a presença da diplomata brasileira e pesquisadora espírita Simoni Privato Goidanich, autora do marcante livro O Legado de Allan Kardec. Na sua exposição, Simoni apresentou um resumo da sua pesquisa na evidenciação da adulteração da obra de Kardec a partir da 5ª edição, de 1872, quando o codificador espírita já tinha desencarnado (31 de março de 1869).

Em seguida, o pesquisador Paulo Henrique de Figueiredo (de São Paulo) discorreu sobre alguns pontos doutrinários atacados nas alterações feitas com a 5ª edição, em prejuízo ao entendimento espírita. Logo após foi a vez do advogado Júlio Nogueira (de Salvador, Bahia) fazer uma leitura técnica sobre a adulteração considerando as normas jurídicas vigentes inerentes aos direitos autorais da obra. E, fechando o ciclo programado da exposição, Marcelo Henrique (Florianópolis, SC), mestre em ciência jurídica, fez palestrou sobre a necessidade de os espíritas tomarem de forma efetiva o legado deixado por Allan Kardec em face do projeto espírita de promover a evolução espiritual da humanidade.

Grande surpresa: projeto Instituto Canuto Abreu
Além do lançamento oficial desta obra histórica, a FEAL fez um anúncio importantíssimo para o Movimento Espírita: o projeto de instauração do Instituto Canuto Abreu, em parceria com familiares herdeiros do emérito médico, advogado e grande pesquisador espírita Canuto Abreu.
Neste espaço será exposto ao público o seu valioso acervo espírita, contando, dentre outras preciosidades, com cartas pessoais e artigos doutrinários originais — muitos dos quais inéditos até então — escritas por Allan Kardec e outros memoráveis colaboradores da primeira geração do Espiritismo, por exemplo, Léon Denis e Gabriel Delanne.
Os participantes do evento da FEAL também tiveram a satisfação de conferir uma pequena amostra do acervo do Dr. Canuto: livros raros, manuscritos de Kardec e Léon Denis, além de algumas fotografias forma exibidas a todos.
Amostra do acervo do Instituto Canuto de Abreu
Essa novidade foi uma surpresa e nos encheu de alegria com a possibilidade de resgatar verdadeiros tesouros históricos e doutrinários do Espiritismo que foram salvos pelo Dr. Canuto Abreu. O material do Instituto, que é de milhares de peças, está sendo catalogado e a promessa é a de que todo o seu conteúdo será disponibilizado ao público.
É FAVOR  CLICAR NA IMAGEM PARA DESCARREGAR PDF

João Donha – Espiritismo / 9 anos / 88 reflexões importantes

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Sem comentários, recomenda-se visita e leitura atenta

Diz-nos João Donha, com toda a razão de sempre:
O inusitado dos blogs é que, tal como nos mangás, os primeiros textos que vemos são, na verdade, os últimos. Assim, quem quiser acompanhar o pensamento do bloguero na sequência em que surgiu, deve começar pelo fim, para encontrar o início.

Hoje Domingo, bom dia a toda a Humanidade….

Johann Sebastian Bach vai começar a visitar assiduamente palavraluz.com e espiritismocultura.com, com as palavras e os sons que nos aguardam, cantadas, quem sabe se por nós mesmos, aprendizes da paz, do progresso e da beleza sem fim da obra de Deus… Vá lá, comecem, cantando connosco e… Charles Daniels… Bist du bei mir… Bach, com a inspiração sublime de Stölzel, não é bom esquecer….

A token of love

Bach gave the second Notenbüchlein to his wife as a gift. If Bach wrote one singalong tune, it was surely Bist du bei mir? Unfortunately not. Although Bach did have a hand in it, the song itself is by… Stölzel. The theme was a wonderful choice to open his gift music book to Anna Magdalena: a simple song of gratitude, trust, faith in God and faith in his second wife. We do not know how the couple were familiar with the aria from Stölzel’s Diomedes, but maybe the opera was so fashionable that tout Leipzig was humming the melody. The Notenbüchlein für Anna Magdalena Bach Shortly after their arrival in Leipzig in 1723, Johann Sebastian and Anna Magdalena Bach revealed themselves as a cultural power couple. Although Anna Magdalena gave up her successful public singing career, she joined her husband in running a thriving music business, alongside looking after a large and growing family. We have at least two tangible traces of their married life in the form of two Notenbüchlein from 1722 and 1725. Whereas the first Notenbüchlein was still a sort of notebook, containing things like early versions of five ‘French Suites’ (and who knows what else, as two-thirds of the pages are missing), the second one was definitely intended as a gift from Johann Sebastian to his wife. In fair copy, he notated two Partitas and all sorts of other music of Anna Magdalena’s own choosing, such as the aria from the Goldberg Variations and the song Dir, dir Jehova, BWV 452, as well as music by composers like Couperin and Bach’s stepson Carl Philipp Emanuel. Together, the Notenbüchlein form a colourful mix of arias, chorales and suites.

Vocal Texts

Original Bist du bei mir, geh’ ich mit Freuden zum Sterben und zu meiner Ruh’. Ach, wie vergnügt wär’ so mein Ende, es drückten deine lieben schönen Hände mir die getreuen Augen zu!

Translation Be thou with me and I’ll go gladly To death and on to my repose. Ah, how my end would bring contentment, If, pressing with thy hands so lovely, Thou wouldst my faithful eyes then close.

Translation: Z. Philip Ambrose

 

 

A VERDADE INDUBITÁVEL DAS COMUNICAÇÕES MEDIÚNICAS

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Gaveta de núvens, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 2001

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Conheci em tempos uma pessoa que transcrevia comunicações mediúnicas das reuniões espíritas que frequentava.
Com as responsabilidades familiares que tinha, a tarefa fazia-se longa e cansativa.
Sendo de minha amizade muito próxima permiti-me dizer-lhe um dia:
Olha, sendo assim, não tens que transcrever tudo. Dos apontamentos, passa a limpo só as coisas que tiverem história, que sejam aproveitáveis. Com o resto, não te cansas.

Olhou-me a minha serena e confiante amiga, com aquele silêncio perturbado e suspenso com que olhamos temerosamente as coisas que achamos que podemos perder por descuido, e disse-me:

OBRIGADO QUERIDO AMIGO
com essa bem intencionada proposta com que querias sossegar-me
descobri porque são verdades invencíveis as coisas que nos contam os Espíritos nossos amigos:
Nunca nos contam duas coisas iguais, ou ditas da mesma forma.

As comunicações dos espíritos, além de corresponderem a factos comprováveis pela própria vida vivida,
nunca repetem as mesmas verdades da mesma forma, porque,
como a vida vivida, são sempre diversos, variam como
a água de uma fonte, que a cada instante se renova.
As comunicações dos espíritos são de uma verdade que não ilude e não simulam a realidade
são exatamente como a realidade – irrepetível e infinitamente diversa;
é fundamental aproveitá-las todas
da primeira à última letra

379 ap

Carlos Lobo, um olhar aberto no meio da multidão ; Publicado no “Diário de Coimbra” de 7 de Dezembro de 2001

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Um convite, para desafiar os leitores…

Quem puder ler a página aqui em baixo reproduzida (que nem está completa…) também poderá ler o livro todo.
Primeiro todos o podem descarregar livremente.
Lê-lo, é só começar, continuar até ao fim, não custa nada…

Trata-se da nossa leitura de “O Livro dos Espíritos”, se não adivinharam já…

Nós, para traduzir e rever 3 edições, já o lemos, em várias línguas, mais de 100 vezes. E cada vez que o lemos, custa-nos sempre menos!…
Ora façam-nos o favor:
terceira edição da tradução de “O Livro dos Espíritos” para português de Portugal, 2018 (clicar nesta frase).

para ver maior, clicar na imagem, depois ampliar

como é evidente, a primeira página do Prefácio dos tradutores não acaba aqui….

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Prefácio de JOÃO XAVIER DE ALMEIDA

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A ideia de prefaciar esta tradução de O Livro dos Espíritos para Português luso, por deferente convite dos Editores, quase intimidou a desvalia inteletual do convidado. Com fortes razões: a grandiosidade da Obra original de 1857, pelo conteúdo e metodologia inovadores; a sua tradução esmerada, fiel, valorizada com notas dos eruditos Tradutores a contextualizar cultural e semanticamente, nos nossos dias, alguns termos de há século e meio.
Jamais nos demitamos do dever de gratidão ao Brasil, pelas diversas traduções (totalizando, todas, muitos milhões de exemplares editados) que facultaram ao leitor português a obra colossal de Allan Kardec; convenhamos porém: a tradução que ora ouso prefaciar supre finalmente uma nada lisonjeira omissão editorial lusitana, tão longa e desconfortável aos nossos brios.

Dizer grandiosa e transcendente a obra traduzida, O Livro dos Espíritos, nada tem de exagero. Ela integra um pentateuco hodierno de que é o volume basilar, e configura um relevante marco civilizacional judaico-cristão de cultura universal. Sagra-se como a terceira dum ciclo de grandes revelações, iniciado com Moisés e aperfeiçoado por Cristo.
Mas… revelação agora em estilo direto, lógico, assertivo, coerente com a profundeza latente das duas precedentes; uma revelação já não necessitada de alegorias e formalismos requeridos outrora pelo verdor evolutivo do Homem. Enfim, uma revelação sobre factos e leis naturais sistematizados com inatacável metodologia científica. Consistente, elucidativa, ela emerge vigorosa duma época onde o racionalismo, inebriado pela emancipação da opressiva tutela eclesiástica, derrapava no materialismo presunçoso que decretou “a morte de Deus” e entronizou a Deusa Razão.


Ante cenário tão perturbador, a religião instituída reagia infantilmente. Em 1861, em Barcelona, a Santa Inquisição cremava piamente, em público, uma remessa de trezentos livros espíritas oriundos de França (demência repressiva que só promoveria a Doutrina dos Espíritos, onde revive pujante a Boa Nova de Jesus).
Em 1870, Pio IX, com o desastrado Concílio Vaticano I blindou em dogma a sua “infalibilidade”, e calou minaz, autoritário, a sensata oposição do bispo Joseph Strossmayer e dezenas dos seus pares.
Entretanto a imparável Terceira Revelação alastrava na Europa e no Mundo, luz serena de bom senso e racionalidade, vergando à eloquência dos factos a dura cerviz do paradigma mecanicista-materialista, tal como o não menos duro paradigma religioso da fé cega e sectária (Tertuliano: credo quia absurdum, creio porque é absurdo), que pontificou por mais de mil anos até ao primeiro questionamento, o saudável princípio do livre exame luterano.


Da contradição dialética entre a tese tertulianista da fé cega e a antítese materialista do racionalismo cartesiano-newtoniano, a Terceira Revelação extrai fecunda síntese: a fé raciocinada, luz que de algum modo vemos fulgir também, cem anos depois, no princípio da liberdade de consciência estatuído no refrescante Concílio Vaticano II (1962-1966, convocado pelo ecumenismo salutar do bom papa João XXIII, cristianíssimo, sequioso de converter a sua igreja para Cristo, audaz empreendedor dos primeiros passos nesse sentido. Brutalmente impedido João Paulo I de os continuar, só os retomou o também grande cristão Papa Francisco, um resoluto e cativante Mikhail Gorbatchev do Vaticano).
O poderoso impulso benfazejo da Terceira Revelação não deixaria incólume a quase sacralidade da ciência convencional. Muitos académicos prestigiosos (ao contrário da maioria deles) compreenderam e acolheram individualmente a surpreendente Revelação, depois de a testarem com rigor.

Um dos maiores do século 19, Sir William Crookes, empenhou-se de 1870 a 1874 em exaustiva e frutuosa investigação à mediunidade da então famosíssima Florence Cook, com intenção inicial de dissecá-la e explicá-la à luz da ciência académica. Mas, rendido à límpida evidência dos factos, verificados e reverificados, relatou em sucessivos números do Quarterly Journal of Science as minúcias da experimentação rigorosa que conduzia.
Estarreceu os seus pares na London Royal Society com a declaração tornada célebre, acerca da fenomenologia espírita investigada: “Já não digo que tais factos são possíveis, afirmo que eles são reais”.


O sadio abalo ao mundo científico não poupou o núcleo duro do materialismo: Engels, culto e perspicaz parceiro inteletual de Karl Marx, não pôde ignorar na Dialética da Natureza a impecável investigação espírita de Sir William.
É certo, não a aceitou nem abonou; mas não tendo como refutá-la, abandonou airosamente o assunto (que desconstruía pela base a sua paixão intelectual, o materialismo histórico), alegando possibilidade duma porta secreta no recinto das experiências, a qual poderia permitir à equipa de Crookes enganar ou ser enganada.
Os artigos científicos deste, sobre a mediunidade que investigou, foram mais tarde compilados e editados em livro pela Federação Espírita Brasileira (Factos Espíritas – em Português, Castelhano, Esperanto e outras línguas). Nunca antes ou depois disso, que se saiba, alguém lhes impugnou a veracidade ou sequer pôs em dúvida a probidade intelectual do laureado sábio britânico, falecido em 1919.
Há porém que reconhecer um mérito a Frederico Engels: a sua tímida abordagem à Terceira Revelação foi feita num contexto de natureza (não de religião nem filosofia), e implicitamente assim acompanhava uma noção básica do Espiritismo, que encara sempre como naturais (sem nada de sobrenatural) os fenómenos espíritas.


Com o impacte salutar da Terceira Revelação e ante a evidência de fenómenos que não podia negar, nem conseguia explicar, a ciência convencional viu-se compelida a investigá-los.
Ainda no século 19, surgia na França a disciplina científica da Metapsíquica, com Charles Richet; e no século seguinte: a Parapsicologia, na Universidade de Duke, USA (professores Joseph e Louise Rhine); a Psicotrónica, Universidade de Leninegrado, URSS (professores Raikov e Vasiliev).
Tais ciências, mesmo quando teimam em situar no cérebro humano a razão e fonte da fenomenologia paranormal, constituem sem dúvida um progresso para a Humanidade.

Em 13 de março de1971, com chamada na primeira página, o “Diário de Notícias”, de Lisboa, informava sobre uma cadeira de paranormologia regida pelo padre Andrea Resch, no Instituto de Latrão.
Em rápida visita à Internet com a chave “paranormologia + prof andrea resch”, constata-se por exemplo que Paulo VI criou em 1970 a Pontifícia Universidade Lateranense (de Latrão) e a cátedra Paranormologia; que o termo paranormalidade foi introduzido pelo redentorista Andrea Resch, docente de psicologia clínica e paranormologia; e ser o referido padre um “convicto espiritista”. (Disto, permita-se-me duvidar: um espírita medianamente culto distingue bem entre afincado estudo ou mesmo docência dos fenómenos paranormais, e ser-se convicto espiritista, ou espírita).
Não se deixa porém de cismar: Roma sabe hoje muito mais sobre tal matéria, do que permite imaginar o historial de proibições e condenações, mais o galardão aos livros da Doutrina Espírita, que relegou ao Index librorum prohibitorum de triste memória (suprimido – louvado seja Deus! – após o fecundo Concílio convocado por João XXIII).

Estas pinceladas de historiografia contemporânea, e também mais recente, procuram dar alguma ideia da grandiosidade providencial e ativa da Terceira Revelação, chave para tantos “enigmas” e para entendermos a atual fase de óbvia transição vivida pela Humanidade terrena.
Apresentado agora em Português de Portugal o livro-base de tão significativa Revelação, feliz augúrio dum labor a continuar – bem hajam, senhores Tradutores e senhores Editores, pelo relevante préstimo à nossa comunidade.

de João Xavier de Almeida − Gaia, PORTUGAL
1 de Março de 2017

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João Xavier de Almeida:

Curso complementar dos liceus (equiv. atual 12º ano);
Aposentado do Estado (Finanças Públicas);
Aderiu ao Espiritismo em Angola, anos 60;
Serviu em centros de: Grande Porto, Grande Lisboa,
desde 1976; na direção da Federação Espírita
Portuguesa, de 1984 a 31/12/1998;
Como presidente da mesma, de 1993 a1998;
Serve atualmente na:
ADEP e na
Associação Espírita Fraterna Francisco de Assis (Porto).

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Prefácio de JOÃO DONHA

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Na observação da História costumamos dar mais atenção às revoluções violentas, abruptas, distraindo-nos, amiúde, em relação àquelas despretensiosas, quase invisíveis, que desenrolam seus efeitos lentamente ao longo do tempo, quebrando velhos paradigmas e erigindo novos. Ousamos dizer que o presente livro, lançado em sua primeira versão no dia 18 de abril de 1857, representa uma dessas revoluções silenciosas: a Revolução do Espírito. Pois os fatos, também demonstrados pela História, estão a nos dizer que durante muitos séculos, milênios mesmo, a ênfase dos interesses humanos foi, ao menos pretensamente, direcionada a Deus. Era um paradigma teocrático, que gerava um Estado teocrático, sustentado por uma poderosa instituição sacerdotal, com sua hierarquia sólida, seus ritos mágicos e sua capacidade de sugestão controlando as massas. O comportamento era subordinado à suposta vontade divina e, a adoração aos seus desejos. E, muito sangue foi derramado pelas religiões em nome da Divindade. Depois, com a evolução humana, chegamos ao mundo moderno, no qual a filosofia universalizou-se e foi construída uma ciência baseada na dúvida, na observação, na pesquisa e experimentação, mas, principalmente, na ausência do medo de pensar. Construiu-se, assim, o paradigma humanista, onde a ênfase é retirada da Divindade e passa a ser dada ao Homem, suas necessidades, seus direitos, suas aspirações e suas destinações. E, novamente, muito sangue foi derramado pelas revoluções em nome da Humanidade. Com este livro, e a consequente elaboração de uma nova mundividência, podemos enxergar no horizonte a emersão de um novo paradigma, onde a ênfase que já foi exclusiva da Divindade e, depois do Homem, transcende o imediato e passa a ser dada ao Espírito, ou seja, à nossa individualidade que sobrevive à extinção do corpo físico. Esperamos, pelas próprias características desta revolução e, com um pedido de desculpas pela irreverência da comparação, que nenhum sangue venha a ser derramado em prol da Espiritualidade ou de suas possíveis interpretações.


Neste novo paradigma, a própria Teologia deixa de ser dependente da crença, tornando-se um conhecimento conseguido pela razão, onde se retira de Deus suas conformações antropomórficas para redesenhá-lo em nossas mentes e em nossos corações através dos atributos que consigamos lhe conferir. A Cosmologia não é mais ditada pela mitologia, mas construída a partir do método experimental das Ciências, tão falível quanto perfectível. A Psicologia passa a contemplar um ser inter-existente, que existia antes do próprio nascimento, existe durante a vida e, continua a existir após a morte, retornando à História quantas vezes necessárias para o seu pleno desenvolvimento e progresso; além de manter constante comunicação entre as diferentes etapas da existência permanente. A Sociedade deixa de ser concebida como resultado da simples soma dos esforços das várias gerações, e passa a ser entendida como o resultado da sinergia entre essas diversas gerações, pois que, elas não mais apenas se sucedem, como convivem, ainda que em situações existenciais diferentes. E as angústias do homem quanto ao seu futuro, quanto às penas e gozos que eventualmente o esperem após a passagem solitária pela morte, são-lhe delineadas pelo testemunho mesmo dos que se foram, através do mecanismo da mediunidade, experimentado e testado sob os rigores da observação científica. Este é o novo paradigma que o presente livro e as obras subsequentes que o completam está construindo. O Paradigma do Espírito, da imortalidade, da responsabilidade individual pelos próprios atos e, da multiplicação ao infinito das oportunidades de correção e progresso.


Com este caráter e destinação, “O Livro dos Espíritos” mereceu várias traduções em diferentes idiomas, permitindo a extensão de sua influência a diversos povos e países. Aos falantes da língua de Camões (última flor colhida no canteiro da latinidade, parodiando os poetas), têm sido oferecidas, até então, traduções feitas por brasileiros. Traduções bem esmeradas; elegantes umas, simples e práticas outras. Porém, agora, somos brindados com uma tradução feita diretamente para o português europeu, enriquecendo a bibliografia espírita com uma versão na expressão genuína de um idioma que, por estender- se em vasto território, de quatro continentes, não poderia deixar de gerar suas diferenças regionais. Mas, não é somente neste ineditismo que se assentam as qualidades da presente tradução. Existem outras; e, para falarmos delas, é mister que teçamos algumas considerações sobre os rumos tomados pelo Espiritismo em sua história.


Apesar de ser um movimento de ideias que apela constantemente à razão, ao bom senso, à pesquisa e à experimentação, o Espiritismo não logrou livrar-se das imperfeições daqueles que tomaram para si a tarefa de levá-lo ao conhecimento de todos os agrupamentos humanos. Allan Kardec deixou um roteiro seguro para que os novos conhecimentos científicos ou as novas informações porventura transmitidas pelos Espíritos passassem a compor com segurança o rol dos fundamentos doutrinários. Foi o método que ele próprio usou e que detalhou na Introdução de uma de suas Obras, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, chamando-o de “Controle Universal do Ensino dos Espíritos”. Entretanto, seus continuadores negligenciaram o método, e o Espiritismo começou a sofrer desde os primórdios, logo após o desencarne do Mestre, de enxertias místicas tributárias de velhos atavismos religiosos. E tal misticismo, ressurgido das profundezas do inconsciente coletivo das massas, agregou-se de tal modo às práticas espíritas que até hoje influencia as opiniões de seus adeptos, ainda que de forma subjacente e de difícil conscientização, gerando toda uma literatura e um conjunto de crenças, quase sempre incompatíveis com a simplicidade e pureza dos princípios originais identificados pelo fundador do movimento.


É precisamente neste ponto que ressaltam as qualidades da presente tradução. Por um lado, há a preocupação com a linguagem. A língua é uma substância viva, em evolução permanente, gerando novos falares, alterando significados, sempre ao sabor dos acontecimentos fortuitos vividos pela coletividade dos falantes dos diferentes idiomas. Os tradutores investiram seu “engenho e arte” na apreensão dos significados contextualizados no momento do surgimento da obra, traduzindo-os, o mais fielmente possível, não somente para outro idioma, mas, também, para outra época. Além disso, enriqueceram a edição com preciosas Notas, nas quais são trazidas, para ampliar a compreensão da obra, tanto informações valiosas sobre novas descobertas ou conceituações científicas, quanto conjeturas de cunho interpretativo e esclarecedor, seja da própria lavra dos tradutores, seja garimpada na contribuição de diversos outros pensadores espíritas. Em sua busca pela fidelidade ao pensamento do autor, pela simplicidade na exposição do conteúdo, e pelas Notas referidas, os tradutores conseguiram construir um texto que contribui, sem dúvida nenhuma, para o retorno do próprio pensamento espírita às suas origens racionais e sóbrias, dignas de um movimento científico e filosófico.


Eis a tradução que ora se coloca à disposição não apenas dos portugueses, mas de todos os habitantes do oceano lusófono. Uma tradução viva, no dizer dos próprios autores. Uma contribuição valiosa para a compreensão do Espiritismo conforme o pensamento do seu fundador. Oxalá, sirva de exemplo para outros trabalhadores desta promissora seara.

de João Donha, 3 de Abril de 2018

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João Alberto Vendrani Donha

Nasceu no Estado de São Paulo, Brasil, em 1950.
Reside em Curitiba, Estado do Paraná, onde, desde 1969, frequenta o Centro Espírita Luz Eterna, casa conhecida pela elaboração do COEM -Centro de Orientação e Educação Mediúnica.
Foi professor de Português e História para crianças e jovens.
Publicou livros de literatura infantil e juvenil.
É casado, pai e avô.

 

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Prefácio dos tradutores

Prefácio dos tradutores

(Da tradução de O Livro dos Espíritos para português de Portugal, aqui oferecido a todos os visitantes) 

Com sugestões de leitura e requisitos essenciais para entender a obra

Esta nova tradução de O Livro dos Espíritos, da autoria de Hipólito Leão Denisard Rivail, sob o pseudónimo de Allan Kardec, foi feita pelos abaixo-assinados diretamente da língua francesa, conforme a segunda edição original de 1860, de modo a torná-lo acessível a todas as pessoas que falam a língua portuguesa dos dias de hoje, isto é, do ano de 2018.

Destina-se tanto a leitores espíritas como não espíritas, tendo sido este pre­fácio especialmente redigido para pessoas não espíritas, dando a conhecer as condições essenciais para aceder à mensagem da obra e aos seus ensinamentos. Além da renovação linguística, esta versão do livro contém algumas dezenas de comentários de contextualização cultural, publicadas no fim do mesmo e designadas como “Notas finais”. Têm a finalidade de esclarecer certas palavras e ideias que se encontram deslocadas ou desatualizadas, devido à antiguidade histórica do escrito original.

O que aqui fica dito resulta da imensa admiração e respeito que temos pelo ensinamento dos Espíritos, na forma que foi metodicamente organizada por Hipólito Leão Dénisard Rivail, aliás Allan Kardec.

Como autores da tradução, deste prefácio e das Notas finais, obedecemos exclusivamente, na forma e no conteúdo desse trabalho, à nossa consciência cultural e moral, visto que não somos membros de qualquer organização religiosa, ideológica ou política.

 

 

O espiritismo falado em português de Portugal

 

Tendo procurado traduções de acordo com o português de Portugal dos dias de hoje, só encontrámos versões revistas para português, mas visivelmente subsidiárias das antigas traduções brasileiras, com todas as respetivas características.

Pensamos que não é prestigiante para os espíritas portugueses terem dei­xado passar tanto tempo sem afirmarem uma desejável autonomia cultural, que tivesse realizado a tradução completa de todos os muito notáveis trabalhos de Allan Kardec, incluindo a Revista Espírita, que teriam ganho, junto dos utilizadores da es­plêndida língua portuguesa, mais vigor e trato familiar.

Carácter da obra e suas qualidades essenciais

 

O Livro dos Espíritos trata de assuntos de índole universal, cujo conhecimen­to é indispensável a todos os seres humanos conscientes do seu devir ontológico.

O Livro dos Espíritos fornece informações concretas e baseadas em factos, explicando de onde viemos antes de nascer e para onde vamos depois da morte, bastando uma consulta cuidadosa ao índice para ter uma ideia dos seus conteúdos científico-filosóficos e bem assim dos seus objetivos morais.

Pormenoriza a natureza e o significado de fenómenos de todos os dias, dos mais simples aos mais complexos, e qual a atitude mais recomendável para enfrentá-los. Esclarece-nos acerca da alegria, da tristeza, da saúde e das enfermidades, da razão de existirem ricos e pobres e por que razão há pessoas que nascem belas, inteligentes e afortunadas e há outras que nascem com dificuldades, tristezas e até desfiguradas fisicamente.

O Livro dos Espíritos fala com profundidade do bem e do mal, ajudando-nos a compreender a sua complexidade, por vezes desconcertante. A cultura que nos apresenta tem o intuito de melhorar o entendimento do mundo e de reforçar a nossa consciência em clima de responsabilidade sem medo; não obriga ninguém a nada, não é uma religião, não configura um catecismo; apresenta uma visão otimista da vida e alarga os caminhos que conduzem à paz dos indivíduos e da sociedade no seu conjunto.

[1 – O espiritismo é uma religião?]

(NOTA: esta numeração passa a ser inscrita em certos pontos do texto e diz respeito às “Notas Finais” de contextualização cultural, que convirá ir consultando.)

 

Sugestões para a leitura de O Livro dos Espíritos:

 

Para quem começa, este não é um livro para ler de empreitada, como uma peregrinação e, muito menos, como uma penitência. Alguns conselhos que aqui registamos aumentarão a recetividade de muitos leitores, dando-lhes a exata noção do que vão encontrar pela frente.

Allan Kardec dedicou uma parte muito importante da sua argumentação com os leitores dirigindo-se, naturalmente, às pessoas do seu tempo. Um número significativo de textos é dirigido aos “opositores”, aos “incrédulos” e aos “adversários” do espiritismo. Nesse tempo, diferentemente do que se passa hoje, escasseavam as atividades lúdicas, e a comunicação social, como a conhecemos hoje, estava à distância de muitos anos. Havia, portanto, certas pessoas que, com a popularidade das “mesas girantes” e das “reuniões espiritas” em geral, se aproximavam desse fenómeno para o contestar, argumentando das mais diversas formas.

É a essas pessoas que Allan Kardec se dirigia em larga porção da “Introdução”, da “Conclusão” e de muitos parágrafos dos extensos comentários espalhados ao longo do Livro.

O leitor da atualidade, posto de sobreaviso, vai compreender o que foi escrito e saberá levar esses textos na devida conta. Estar a argumentar com opositores incrédulos e adversários do espiritismo não faz sentido nenhum na atualidade, porque esses, muito dificilmente abrirão sequer “O Livro dos Espíritos”.

O livro propriamente dito só começa depois de toda a complicada “Introdução” e vem a seguir a um pequeno texto chamado “Prolegómenos”, palavra que quer dizer: “introdução” ou “noções preliminares de uma obra ou de uma ciência”.

O leitor deve ter a liberdade de procurar inicialmente no livro o que mais lhe interessar, lendo por aqui e por ali os temas mais apetecíveis. Poderá, para esse efeito, consultar primeiramente o Índice.

Leia e releia com atenção o que achar mais válido e interessante.

Se não estiver de acordo com o que está explicado em certo ponto, tenha a coragem de prosseguir. Adie as certezas difíceis de atingir com facilidade imediata, para que a longa jornada da vida possa abrir-lhe uma outra maneira de ver as coisas que agora não alcança, mas que tanta falta lhe fazem: o sentido otimista da vida, a esperança, a serenidade e a confiança. Se quiser prosseguir desse modo, é nossa convicta opinião que a leitura deste livro poderá ser um precioso auxiliar para atingir esses objetivos.

Não se pode esperar que a vida e o mundo, a natureza e todo o Universo sejam de entendimento imediato e fácil. Deve, pois, continuar a explorar, mais na atitude de quem estuda do que na atitude de quem lê por simples curiosidade.

O leitor que queira aprender, realmente, deve estar preparado para relacionar diversas partes do livro entre si, tentando encontrar relações coerentes entre os diversos ensinamentos. Só depois de ter feito estas explorações iniciais, com todo o interesse e vontade, valerá a pena ler o livro de uma assentada, ou passar, em alternativa favorável, à leitura de todos os escritos de Allan Kardec, incluindo o formidável conjunto da Revista Espírita, também publicada em vida pelo seu autor.

Requisitos essenciais para entender o livro e a origem dos seus ensinamentos

 

Sendo muito difícil avaliar a complexidade extraordinária do Universo e configurar com facilidade o significado da vida e da morte, há pessoas que desistem de compreender a realidade como projeto coerente, justo e generoso.

A ciência de observação baseada no estudo dos fenómenos espirituais, associada à enorme coerência de tudo o que nos rodeia desde o átomo às estrelas permite, pelo contrário, concluir que nada acontece de forma gratuita ou casual.

A par dessa conclusão fortemente documentável, todos nós necessitamos de construir reservas de convicção e de energia que nos auxiliem a vencer os obs­táculos com êxito, podendo, desejavelmente, ajudar quem nos rodeia, familia­res, amigos e a sociedade, com vista ao progresso, à felicidade, à verdade e à justi­ça, tais como se encontram fielmente configurados pelo conhecimento espírita.

A conclusão contrária de que o mundo e a vida resultam de acasos sem nexo, sem origem nem destino perfeitamente harmonizados, é uma desistência negligente que conduz à desmoralização, à dureza e ao medo.

As provas da coerência do plano das vidas e da natureza são tão volumosas e eloquentes, estão aqui tão próximas de cada um de nós, que não será necessário gastarmos muito tempo argumentando em seu favor. Os que ainda não atingiram esta ideia comecem a prestar atenção: ler “O Livro dos Espíritos” pode ser um bom começo.

Pensamos, portanto, de forma inabalável, que tudo o que existe deriva de uma inteligência suprema criadora de todas as coisas.

Fiquemos agora apenas por essa expressão, à qual não é necessário dar nome. É mais um sentimento que uma ideia definida que reside no íntimo intuitivo da sensibilidade. Deixemos que ela permaneça aí, onde melhor se compreende e onde mais perto está de tudo o que somos.

Quanto ao leitor que ainda duvida, esperamos com toda a convicção que nos encontre mais tarde, comungando da mesma fé que nos anima, com esperança e vontade esclarecida, harmonia e paz no coração. A criação magnânima da vontade superior que nos trouxe aqui não tem pressa. A jornada, que começou não se sabe onde nem como, continuará a desenvolver-se por todo o sempre. Tenhamos, pois, a serenidade que corresponde a esse devir sem limites nem fronteiras.

Como parte mais técnica e prática, sem cujo entendimento é impossível avançar para a leitura, é favor considerar o seguinte: apesar de dotados de importantíssimo património de capacidades orgânicas e racionais, os seres humanos entendem o Universo com ferramentas muito modestas e limitadas.

Os nossos cinco sentidos, a vista, o ouvido, o olfato, o paladar e o tato, deixam-nos a distâncias inimagináveis da realidade das coisas concretas, do mais perto ao mais longínquo, do mais pequeno ao infinitamente grande.

Tudo o que existe é muito mais do que podemos entender com essas limitadas ferramentas sensoriais, por muito completas e exigentes que sejam a nossa imaginação e a nossa inteligência.

No Universo (ou nos Universos?…) é muito mais aquilo que não se vê e não se entende, do que aquilo que se percebe e se sente com a vista e com o entendimento. A espantosa marcha da ciência tem dado passos de gigante ao tentar aproximar-se dessa enormidade de segredos. Mas quanto mais avança, mais profunda é a noção das coisas ignoradas.

Teremos que regressar ao grande Sócrates e à ideia que lhe conferiu a categoria do homem mais sábio de toda a Grécia: aquele que tinha a noção máxima de tudo o que desconhecia.

Existimos, pois, antes de nascermos neste mundo, num outro plano de que não temos conhecimento, no qual continuaremos a existir depois de falecido o corpo que nos serve de veículo existencial. O nascimento e a morte, portanto, não são o começo e o fim de tudo, e esse é um dos ensinamentos fundamentais de “O Livro dos Espíritos”.

Para confirmar factualmente essa realidade são conhecidas fontes de informação, de cuja existência há provas abundantes, que estão documentadas ao longo de toda a existência da Humanidade.

A mediunidade e a troca direta de informações entre o mundo dos vivos e o dos mortos

 

Havendo pessoas especialmente dotadas com mais um do que os normalíssimos cinco sentidos, têm por isso a capacidade, incompreensível para a maioria, de poderem sentir, ver e até dar voz às entidades espirituais que, depois da vida material, passam a existir no plano a que chamamos “mundo espiritual”.

Essa capacidade, esse sentido raro, chama-se “mediunidade”, porque são chamados “médiuns” os que a possuem.

Médium é uma palavra latina que signifíca “meio”, e que serve para designar o “in­termediário” ou “tradutor” das inumeráveis mensagens que têm sido trocadas entre os dois planos da existência, de forma que pode ser comprovada pela realidade dos factos.

A mediunidade é muito mais abundante do que se julga, tem graus de operacionalidade e modalidades muito diversas e já foi estudada em meio científico por diversas autoridades isentas e da maior competência, para além de se tornar evidente para qualquer pessoa que dela tenha o conhecimento direto.

“Mundo material” é o nosso, o do corpo físico que conhecemos, o mundo das coisas que vemos e palpamos à nossa volta.

O “mundo espiritual” é o mundo que não vemos, mas que se faz sentir po­derosamente, porque é nele que existimos antes e iremos existir depois, por toda a eternidade. Os contactos entre o “mundo material” e o “mundo espiritual” são contínuos e realizam-se de diversas formas desde há uma imensidade de anos.

O autor de “O Livro dos Espíritos”, Hipólito Leão Denisard Rivail, aliás Allan Kardec, organizou e sistematizou de modo filosófico um grande conjunto de apontamentos tirados de conversas tidas, ao longo de anos, entre pessoas vivas e entidades espirituais, que puderam “conversar” normalissimamente por intermédio de médiuns. Esse trabalho foi desenvolvido em França, em meados do século dezanove. O autor referido designou essa cultura como sendo: “o espiritismo, ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como das suas relações com o mundo corporal”.

É destas conversas, e dos comentários feitos pelo autor da obra a respeito das ideias por ele organizadas, que é feito “O Livro dos Espíritos”.

Segundo as conclusões seguras a que o “espiritismo” chegou, todos nós somos Espíritos, temporariamente ocupados por um breve intervalo de aprendizagens e experiências diversas através da vida no nosso corpo material.

Depois regressaremos, em paz e na maior das liberdades, ao nosso estado natural e mais permanente de Espíritos. Não se esqueçam: com letra maiúscula, por todas as razões mais nobres e mais válidas.

Notas breves sobre o método de tradução que seguimos

 

Sendo o francês e o português línguas da mesma família latina, tivemos a preocupação de fugir ao critério erróneo da “tradução à letra”, respeitando o fundo e não a forma das palavras do grande livro, tal como os ensinamentos nele contidos recomendam. O autor teve o intuito de escrever um livro que fosse acessível a todos os leitores da sua época. Sabemos, contudo, as profundas modificações que registaram, entretanto, todas as técnicas de comunicação. A frase mais curta, a economia de recursos de carácter retórico e enfático, a sim­plificação dos tempos verbais e muitos outros meios, foram usados por nós para facilitar a aproximação aos leitores, respeitando, entretanto, o carácter próprio que foi conferido à obra pelo seu autor.

Para além das versões em português, procurámos esclarecer muitos dos seus aspetos através de traduções noutras línguas e da pesquisa de outras obras do mesmo autor.

Consultámos, por exemplo, a tradução em castelhano de Alberto Giordano, publicada na Argentina em 1970 e influenciada pela que foi feita pelo professor brasileiro José Herculano Pires, que também analisámos com cuidado; e a excelente tradução em língua inglesa da autoria da jornalista Anna Blackwell, profunda co­nhecedora da cultura espírita, que foi contemporânea e amiga da família Rivail du­rante o tempo que viveu em Paris. A edição de que nos servimos tinha por intuito revelar a obra de Allan Kardec no universo cultural anglo-saxónico e foi publicada em Boston em 1893, mas o prefácio da autora está assinado de 1875, em Paris.

Também lemos as conhecidíssimas traduções de Guillón Ribeiro, a seu tempo dirigente da Federação Espírita Brasileira que, quando pelas primeiras vezes nos vieram à mão, desde logo despertaram em nós a determinação de fazer uma tradução para português de Portugal dos nossos dias. Com o devido respeito por esse trabalho, não foi o modelo que procurámos seguir, por razões muito concretas, mas que não é oportuno detalhar nesta breve apresentação.

A escolha das palavras

 

Sabendo que as palavras têm alma, usámos uma estrutura lexical coerente com o carácter filosófico e moral da obra, no contexto da sua visão otimista da magnânima obra da criação e do glorioso destino da Humanidade.

No texto original de Allan Kardec, por tendências de época que serão compreensíveis e estão bem estudadas, é usado em certas passagens do Livro algum vocabulário herdado das teorias penalizantes do universo filosófico das antigas religiões.

O aproveitamento dessas expressões nas traduções dos dias de hoje, deixou em absoluto de fazer sentido. Prosseguimos, nesta edição, no uso de referências lexicais compatíveis com a cultura que nos orienta com todo o rigor moral e toda a exigência intelectual. Porém, com uma visão do mundo, que encoraje a conquista da paz e do progresso pelo raciocínio, e da ultrapassagem do erro pelo conhecimento racional. Para colocar esta questão plano histórico cultural, sugerimos a leitura da Nota Final nº 39, que trata da “queda do homem”, e do ensino primordial das religiões dogmáticas.

 

 

Allan Kardec

 

Hipólito Leão Denisard Rivail,

organizador dos ensinamentos dos Espíritos

No início deste prefácio de tradutores escolhemos a grafia do nome Hipólito Leão Denisard Rivail, com os dois nomes próprios traduzidos e Denisard com “s”, como está na sua certidão de nascimento. Fizemos isso por ser a versão que nos parece mais perto da nossa língua e, especialmente, porque nos temos habituado a pensar nele como um semelhante, nosso amigo íntimo.

O destino fez com que Hipólito Leão/Allan Kardec tivesse ficado sem biografia oficial propriamente dita, feita por um contemporâneo seu. Por algu­ma coisa foi: a obra é o que interessa, ditada por narradores invisíveis, configu­rada pelo autor que organizou a mensagem.

Vale muito a pena ler tudo o que deixou escrito, sobretudo este “Livro dos Espíritos”, trabalho estruturador da mensagem de que se encarregou. De cada vez que se lê, novas coisas se descobrem e melhor se entendem o todo e os por­menores. Será estudo útil para os que desejam encontrar o fio da vida, tantas vezes encarada como drama sem solução, e serem capazes de construir agora um destino que valha a pena, com alegria e entusiasmo, porque há um depois!…

Hipólito Leão começou a interessar-se pelo tema que iria tratar de forma tão brilhante e generosa numa posição distanciada de qualquer crença, outros- sim cuidadosamente positivista e até cautelosamente cético, numa idade de ple­na maturidade, apenas por ter sido insistentemente convidado por amigos para esse efeito.

O trabalho, que começou aos 55 anos de idade (numa época em que a esperança de vida era muito inferior à da atualidade), foi levado a cabo com de­dicação total, mediante um esforço hercúleo, sem medida, que de certa forma conduziu ao desenlace da sua vida.

Convém referir que o modelo expositivo que serve à estruturação de O Livro dos Espíritos, desenvolvido nas restantes obras de Allan Kardec, obedece ao formato que durante os séculos XVIII e XIX constituía os princípios da exposição cientifica clássica, definindo ordenadamente:

 

1° – A escolha do objeto de estudo, que se conclui ser o Espírito, tratado no Livro Primeiro (As Causas Primárias);

2° – A análise do objeto de estudo, ou seja, a consideração e avaliação de toda a fenomenologia que constitui a sua razão de ser, que é tratada no Livro Segundo (O Mundo Espírita ou dos Espíritos);

3° – O estabelecimento das leis que regulam esse conjunto de fenómenos, que é feito no Livro Terceiro (sobre as Leis Morais);

4° – A dedução das consequências da aplicação dessas leis, que é feita no Livro Quarto (sobre as Esperanças e Consolações).

O critério de Hipólito Leão, em todo o imenso trabalho que efetuou, nun­ca foi o de se promover pessoalmente à condição de dirigente ou autoridade ideológica e muito menos religiosa. A metodologia utilizada para a estrutura­ção do “corpus” de informações e saberes científico-filosóficos que levou a cabo foi isenta de segundos sentidos de proveito pessoal ou institucional.

 

O professor Hipólito Rivail desaconselhou os grandes coletivos espiritas

 

Obedecendo a critérios que foi enunciando em diversas intervenções, nunca favoreceu o agrupamento de grande número de adeptos em instituições federativas as quais, de antemão, declarou perniciosas, por facilitarem a arqui­tetura do poder e a manipulação das consciências.

Toda a realidade que se seguiu ao seu falecimento, quer em França, quer no estrangeiro, deu plena razão às previsões e avisos que formulou.

Os pequenos grupos de cidadãos, harmonicamente associados numa con­vivência produtiva de pensamento claro e de reta consciência, na obediência da razão crítica e do diálogo construtivo, formam o modelo mais claramente por si recomendado para constituir a sociedade espírita.

Em síntese, fique esclarecido que a obra traduzida e a filosofia que encerra oferecem uma visão otimista da vida, liberta de dogmatismo, verdadeiramente emancipadora da Humanidade e produtora de paz, na igualdade entre todos os seres humanos.

Consideramos ainda que O Livro dos Espíritos defende, com o máximo respeito, a integridade ecológica do planeta que habitamos, o direito à dignida­de, à justiça e à máxima felicidade de todos os seres que nele habitam.

A característica essencial desta tradução, que sugere a passagem de toda a obra de Kardec para o português de Portugal/2018, num clima cultural aberto, é propor o regresso metódico a uma obra muito conhecida pelo seu nome, mas escassamente debatida; abrindo o seu acesso, se possível, a novos públicos e a jovens inquietos pelo grande mistério da sua origem e do seu destino.

Para esta terceira edição foram cuidadosamente revistos e ampliados os seus conteúdos de referenciação cultural, além de se ter procurado com mais abertura uma versão mais próxima da nossa linguagem de todos os dias, usando as prodigiosas qualidades estético-culturais de que dispõe a magnífica língua portuguesa.

Consideramos, não obstante, que a nossa tarefa de ler atentamente o que nos deixou Allan Kardec, não fica por aqui. A sua leitura em português dos nossos dias faz parte de um debate de ideias que gostaríamos de ver par­tilhado e enriquecido pelo maior número de leitores, espíritas e não espíritas.

O destino adequado para O Livro dos Espíritos não é permanecer imóvel, como peça sacralizada de ideias petrificadas. Julgamos que deve ser entendido por todos os seus leitores de antes, de agora e do futuro, como uma obra ener­gicamente VIVA e justificadamente ABERTA.

 

Entregamo-la a todos os prezados leitores com os melhores votos de feliz e proveitosa leitura

José da Costa Brites e Maria da Conceição Brites

Setembro de 2018

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Bibliografia geral e leituras

Temos andado a publicar aqui momentos especiais do trabalho de tradução de “O Livro dos Espíritos”. Esta notícia tem por tema a pequena bibliografia geral relativa às Notas Finais.

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O Prefácio dos tradutores destina-se a preparar as pessoas que nunca tenham lido o livro antes;
As Notas Finais servem para informar o leitor do critério de tradução de certas palavas e para fornecer opiniões de contextualização cultural de textos com mais de 150 anos.
A pequena bibliografia geral também é destinada aos leitores que nunca encontraram antes “O Livro dos Espíritos”, obra que servirá – se atentamente o lerem – para esclarecer um segredo há muitos séculos desvendado por homens de ideias, com experiência de vidas vividas, mas persistentemente escondido pelas forças determinadas em conservá-lo oculto e secreto.

Esse segredo é o conhecimento fundamental e fundamentado da origem e do destino dos seres humanos. Saberem porque estão vivos e conhecerem bem as regras que orientam a sua vida presente, abrindo-lhes as portas para um mais claro futuro de progresso e de felicidade.
Mesmo para os que desconfiarem que é promessa exagerada, vale a pena começar já a ler, para que não percam mais tempo em desvendá-lo, já que facilita a marcha pela estrada, por vezes acidentada, que nos conduz ao  futuro.

A bibliografia geral que aparece depois das Notas Finais de todo o livro não manipula consciências nem condiciona as opções do leitor. Apenas revela as principais ajudas com que caminhámos ao encontro desta cultura que ensina a viver e, ao mesmo tempo que produz conhecimentos livres de compromissos de grupo ou fronteiras dogmáticas, também ajuda a construir a felicidade.

Bibliografia geral e leituras


ALLAN KARDEC:
‒ Todas as obras e publicações editadas em vida pelo autor, de 1857 a 1869;

GABRIEL DELANNE:
Todas as suas obras e publicações, em especial as seguintes:
‒ O Espiritismo perante a Ciência. Paris, 1885;
‒ O Fenómeno Espírita. Paris, 1893;
‒ A Evolução Anímica. Paris, 1895;
‒ A Alma é Imortal. Paris, 1897;
‒ A Reencarnação. Paris, 1927.

LÉON DENIS:
Todas as suas obras e publicações, em especial as seguintes:
1885 – O Porquê da Vida, 1885;
1898 – Cristianismo e Espiritismo, 1920 (última edição);
1889 – Depois da Morte, 1920 (idem);
1903 – No Invisível, 1924 (idem);
1905 – O Problema do Ser do Destino e da Dor, 1922 (idem);
1910 – Joana D’Arc Médium, 1926 (idem).

sobre JESUS HISTÓRICO:


o professor Antonio Piñero


ANTÓNIO PIÑERO,
Catedrático de Filologia Grega, com especialidade em Língua e Literatura do Cristianismo Primitivo da Universidade Complutense de Madrid, autor, entre outras, das seguintes obras:

– CIUDADANO JESÚS – Las respuestas a todas las perguntas; Atanor Ediciones, Madrid, várias edições desde 2012;
– GUIA PARA ENTENDER EL NUEVO TESTAMENTO; Editorial Trotta, múltiplas edições desde 2006, Madrid;
– ORIGENES DEL CRISTIANISMO – Antecedentes y primeiros passos; Ediciones El Almendro e Universidade Complutense de Madrid, 2004;
– JESÚS, LA VIDA OCULTA – Según los Evangelios rechazados por la Iglesia; Esquilo Ediciones, 1ª edição 2007, Badajoz;
– JESÚS DE NAZARET – El hombre de las cien caras” – textos canónicos y apócrifos; EDAF, Madrid, México, Buenos Aires, SanJuan, Santiago, Miami, 2012;
– EL OUTRO JESÚS – Vida de Jesús segun los evangelios apócrifos – Ediciones El Almendro, Córdoba; primeira edição: 2004.

Mosa JS

JACOB SLAVENBURG:
– (n. 1943 em Gorinchem, Holanda). Desde jovem percebeu que os acontecimentos históricos reais eram muito diferentes dos que tinha aprendido na escola ou nos círculos religiosos. Licenciado em História Cultural, dedicou-se à história das religiões depois da extraordinária descoberta dos manuscritos de Nag Hammadi, em especial a respeito do homem de Nazaré. Atualmente é professor em várias instituições e a sua obra é muito conhecida:
– A HERANÇA PERDIDA DE JESUS (De verloren erfenis) – A verdadeira história das origens do cristianismo, Marcador Editora, Queluz de Baixo, 2012

MEMÓRIA da HUMANIDADE:


“Aquellos que no recuerdan el pasado, están condenados a repetirlo.”
George Santayana.

As obras aqui indicadas, embora muito importantes, representam apenas um exemplo simbólico da atenção que é devida ao conhecimento da História Universal, sem a qual é impossível enquadrar os conceitos científicos, culturais e morais. Sem recursos minimamente estruturados desta disciplina cultural é impossível ter uma ideia válida da importância da obra de Allan Kardec e da cosmovisão espírita. Impossível será igualmente ultrapassar o contexto de um planeta de expiação e de provas, sujeito ainda à tutela dominante do pensamento dogmático e da predominância de espíritos ainda não muito evoluídos.

A Chegada das Trevas é a história largamente desconhecida – e profundamente chocante – de como uma religião militante pôs deliberadamente fim aos ensinamentos do mundo clássico, abrindo caminho a séculos de adesão inquestionável à “única e verdadeira fé”.

O Império Romano foi generoso na aceitação e assimilação de novas crenças. Mas com a chegada do Cristianismo tudo mudou. Esta nova fé, apesar de pregar a paz, era violenta e intolerante. Assim que se tornou a religião do império, os zelosos cristãos deram início ao extermínio dos deuses antigos – os altares foram destruídos, os templos demolidos, as estátuas despedaçadas e os sacerdotes assassinados. Os livros, incluindo grandes obras de Filosofia e de Ciência, foram queimados na pira. Foi a aniquilação.

Levando os leitores ao longo do Mediterrâneo – de Roma a Alexandria, da Bitínia, no norte da Turquia, a Alexandria, e pelos desertos da Síria até Atenas -, A Chegada das Trevas é um relato vívido e profundamente detalhado de séculos de destruição.

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ALEXANDRE HERCULANO dispensa apresentações para todos aqueles que têm conhecimento do seu imenso prestígio como historiador e cidadão que lutou com imensa bravura e se exprimiu como investigador e grande homem de pensamento, dos mais insígnes de toda a nação cultural portuguesa.

A sua obra a respeito da Inquisição em Portugal é de leitura fundamental.

Clicando na capa poderá descarregar uma versão brasileira do livro. Assim manifestamos homenagem à imensa generosidade de divulgação de valores e partilha do imenso povo brasileiro:.ALEXANDRE 

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– HISTÓRIA DA ORIGEM E ESTABELECIMENTO DA INQUISIÇÃO EM PORTUGAL- Alexandre Herculano (1810-1877).

07-trat– PEQUENA HISTÓRIA DAS CRUZADAS; Londres 2004 – Chistopher Tyerman; Edições Tinta da China, Lisboa 2008.

08-trat

Para ver em tamanho grande, é favor clicar.

RECURSOS LINGUÍSTICOS:


Entre outros:

– CNRTL/ORTOLANG: http://www.cnrtl.fr/definition/;
– LEXILOGOS: http://www.lexilogos.com/francais_langue_dictionnaires.htm

ortol.

Albert de Rochas e a tese das vidas múltiplas

Ao fundo: uma obra muito importante deste notável autor, nas versões portuguesa e francesa, que podem ser descarregadas pelos leitores.

A Humanidade tem ao seu muito fácil alcance uma imensidade de provas evidentes da realidade empolgante do Espírito, das maravilhas da criação e do inesgotável talento das configurações infinitas da realidade.
O antes e o depois da ALMA, a conversa fluente entre o visível e o invisível, os mais ínfimos detalhes das coisas mais simples travam connosco um diálogo permanente, capaz de saturar de luz a noite mais densa.
Basta querer procurar e dar ouvidos aos testemunhos de tantas e tantas inteligências, não tão diferentes assim da nossa que as não consigamos entender, oriundas de seres com cabeça tronco e membros como nós.

ALBERT DE ROCHAS.

Biografia

Eugène Auguste Albert de Rochas d’Aiglun (Saint Firmin-en-Valgaudemar, (Hautes-Alpes), 20 de Maio de 1837 – Grenoble, 2 de Setembro de 1914) foi um engenheiro militar, historiador da ciência, pesquisador de fenómenos espíritas, escritor, tradutor e administrador da Escola Politécnica de Paris.

Nasceu numa família de importância regional, detentora do feudo d’Aiglum, perto do Digne, de meados do século XV, até ao advento da Revolução Francesa.
Após ter concluído os estudos no Liceu de Grenoble, iniciou os estudos de Direito visando ingressar na magistratura, como o haviam feito o seu pai e seu avô, mas sem interesse pela área, voltou-se para outros estudos.
Em 1856 obteve o prémio de honra em Matemáticas especiais e, no ano seguinte, foi recebido na Escola Politécnica de Paris. Em 1861 ingressou no exército na qualidade de Tenente de Engenharia; promovido a capitão por mérito (1864), tomou parte na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), vindo a ser nomeado comandante de batalhão (1880).
Desejando maior liberdade para dedicar-se aos estudos científicos, deixou prematuramente o serviço militar activo (1889), ingressando na Escola Politécnica na qualidade de director civil, passando para a reserva com o posto de tenente-coronel.
Os trabalhos militares e científicos do coronel de Rochas são consideráveis, tendo-se destacado nesta última área.

Profundo conhecedor de tudo o que havia sido escrito sobre as ciências psíquicas em sua época, dedicou-se à experimentação, tendo contribuído decisivamente para fazer a classificação do magnetismo animal entre as ciências puramente físicas.

No campo do magnetismo e do espiritismo, estudou a polaridade, contribuiu para a actual classificação das fases do estado sonambúlico, observou sistemáticamente os fenómenos espíritas, pesquisou a exteriorização da sensibilidade e mostrou o mecanismo do desdobramento físico. Por meio de passes longitudinais, aplicados em alguns sensitivos, conseguia provocar neles a regressão da memória.

Membro de várias sociedades científicas, foi oficial da Legião de Honra, da Instrução Pública, de São Salvador (Grécia), e das Ordens da São Maurício e São Lázaro (Itália); foi comendador das ordens de Sant’Ana (Rússia), do Mérito Militar (Espanha), de Medjidie (Turquia), de Nicham (Túnis), e do Dragão Verde (Anam).

Li várias obras deste autor, importantíssimo estudioso do espiritualismo científico, nas áreas em que – já na nossa época – estão na vanguarda de conhecimentos que plenamente comprovam a realidade dos Espíritos.

Albert de Rochas foi percursor na aplicação de técnicas experimentais do magnetismo humano, que permitem obter dos seres vivos depoimentos inequívocos e comprováveis das suas vidas múltiplas, nas tarefas de permanente evolução espiritual de que se ocupam.

 

A Humanidade não se encontra, pois, limitada ao fenómeno da mediunidade para poder interrogar os Espíritos a respeito da existência, dos meios de evolução dos Espíritos e até do funcionamento pormenorizado do mundo espiritual, como mais tarde foi largamente aprofundado pelo médico norte americano Michael Newton, sobre cuja obra nos iremos proximamente debruçar aqui com a devida atenção.

Para quem quiser ler um dos livros mais interessantes de Albert de Rochas, a seguir incluo o ficheiro completo de AS VIDAS SUCESSIVAS  em português e em Francês:

Albert de Rochas – As Vidas Sucessivas

Albert De Rochas – Les vies successives

 

A aurora dos transatlânticos – Acrílico s/ tela s/ platex costabrites.com 9 de Junho de 2000

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A vida depois da vida /1

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Estes blogues, nos últimos tempos, têm sido dirigidos aos visitantes  com perspectivas esclarecidas acerca da vida depois da morte. A partir de agora, a abrir, vão a ser apresentados textos de iniciação.
Vamos ler então uma apresentação do estudo da vida depois da morte.
Para quem queira conversar, pode recorrer ao e.mail espiritismo.cultura@gmail.com
ESTAMOS AO INTEIRO DISPOR

NOTA MUITO IMPORTANTE:
As pessoas que fazem este trabalho são estudiosos independentes, formaram-se por iniciativa pessoal em inteira liberdade.
NÃO PERTENCEM A NENHUMA ORGANIZAÇÃO RELIGIOSA OU DE QUALQUER OUTRO TIPO.
Este assunto é livre, a literatura informativa é abundante, de fácil acesso, e é culturalmente vantajoso abordar-se por iniciativa própria.

A vida depois da vida / 2

A compreensão natural da vida depois da morte e de outros factos relacionados com a transcendência já não dependem da crença, ou de qualquer predisposição religiosa, MUITO MENOS DOGMÁTICA.

 Com a abundância de dados científicos que existem, basta ter vontade e coragem intelectual, para enfrentar os dados existentes, tal como muitos que aqui são apresentados..

As provas evidentes de uma outra vida têm muito diversas áreas de afirmação científica. Vamos abrir com um caso especial e muito completo de “experiência de quase morte” (EQM), por serem conhecidos por todo o mundo milhões de casos recentes. São conhecidos, entretanto, um bom número de casos históricos que atingiram notoriedade mundial.

Há pessoas, vítimas de acidentes ou de outras situações limite, depois de uma comprovada morte clínica, com paragem cardíaca e paralização completa da actividade cerebral, que têm sido reanimados por processos agora crescentemente difundidos em acções de salvamento ou socorro de emergência hospitalar.
Do número total dessas pessoas, há cerca de 18% que se lembra da sua viagem ao outro lado da existência, com variável quantidade de recordações, mas inapagáveis. Mais do que isso: a ocorrência tem efeitos transformadores do carácter e das concepções de vida, libertando os protagonistas completamente do medo da morte!

O fenómeno em si é antiquíssimo, e pode ter ocorrido no passado por mera casualidade, mesmo sem a intervenção de recursos médicos.
Platão, num dos livros da República, descreve o “mito de Er”, o Arménio, Panfílio de nascimento, um soldado que “morre” e vem de novo a si, narrando a sua odisseia no além, duma forma em tudo compaginável com os actuais depoimentos das pessoas que passam por NDE’s (em inglês) EQM’s (em português) ou EMI’s (em francês)!

Há muitos registos desde a antiguidade, até textos na Bíblia que podem ser conotados com esta ordem de fenómenos e tantos outros depoimentos e casos ao longo da História, como o do notabilíssimo caso do sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772).
Os casos deste tipo abundam em todo o mundo, inclusivé em Portugal, e temos um vizinho aqui onde vivemos, uma pessoa bem conhecida, com a qual se passou esse fenómeno.

O nosso vizinho e bom amigo é categórico: o medo da morte para ele deixou de existir, a sua confiança no futuro é, quanto isso, absolutamente tranquila!…

AO FUNDO APRESENTAMOS UM CONJUNTO DE TRÊS VÍDEOS COM UM DOS MAIS ESPANTOSOS CASOS DE QUE TIVEMOS CONHECIMENTO, PUBLICADO PELO CONHECIDÍSSIMO SITE BRASILEIRO “AFINAL O QUE SOMOS NÓS”.

Para já, é favor lerem o depoimento de Stefan von Jankovich, ele próprio protagonista de uma impressionante Experiência de Morte Iminente, em Setembro de 1964, inserido adiante neste blogue, bem como outras notícias insertas no menu respectivo.

É FAVOR CLICAR NA FRASE, PARA TER ACESSO AO DEPOIMENTO.

É favor clicar nas imagens para ter acesso aos vídeos.

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PERISPÍRITO – 2

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A IMPORTÂNCIA FUNDAMENTAL DO PERISPÍRITO

NOTA: este texto é a Nota final nº 72 da nossa tradução de “O Livro dos Espíritos”

Ao ler o conteúdo de “O Livro dos Espíritos” e tudo o que ele nos diz a respeito da evolução dos seres humanos, já ficámos com uma ideia da “concentração de complexidades” que o nosso veículo perispiritual carrega consigo. A ciência atual, oferecendo-nos informações técnico-científicas que a experiência e os factos confirmam, ajuda-nos a construir uma imagem mais compreensível da sua verdadeira natureza e propriedades.

Apresentamos algumas ideias base, ponto de partida para as pesquisas que os leitores desejarem fazer:

  • Texto de Gabriel Delanne, Carlos de Brito Imbassahy, e Reinaldo di Lucia, importantes expoentes de épocas diversas da investigação científica relativa a temas de espiritismo;
  • A seguir ao texto de Carlos de Brito Imbassahy, por fazer parte dos investigadores que ele mesmo refere, fazemos alusão a um notável cientista norte americano, Harold Saxton Burr, que trabalhou em eletrodinâmica biológica e fez investigações acerca dos “campos de vida” (fields of life) e dos “agentes estruturadores”, termos e ideias fundamentais para a compreensão da natureza e funcionamento do perispírito.

Fragmentos de Gabriel Delanne:

“…Se realmente existe no homem um segundo corpo, que é o modelo inabalável pelo qual se ordena a matéria carnal, compreende-se que – apesar do turbilhão de matéria que se movimenta no corpo humano – se mantenha em nós o tipo individual que nos caracteriza, no meio das incessantes mutações resultantes da desagregação e da reconstituição de todas as partes do corpo, comparáveis a uma máquina à qual, a cada instante, se mudassem todas as suas partes constituintes. O perispírito é o regulador das funções, o arquiteto que vela pela manutenção do edifício, porque essa tarefa não pode depender essencialmente das atividades cegas da matéria.

Reflitamos sobre:

  • A diversidade dos órgãos que compõem o corpo humano;
  • Os tecidos que servem à construção dos órgãos;
  • A cifra prodigiosa de muitos triliões de células aglomeradas, que formam todos os tecidos;
  • O número colossal de moléculas do protoplasma;
  • E, enfim, a imensa quantidade dos átomos que constituem as moléculas orgânicas.

Achamo-nos em presença de um verdadeiro Universo, tão variado que ultrapassa em complexidade o que a imaginação possa conceber.

A maravilha é a ordem que reina nesses milhares de milhões de ações enredadas.

(…) Se no meio desse turbilhão existe um factor que permanece estável, é lógico que seja ele o organizador ao qual a matéria obedece. Esse factor é o perispírito, visto que é evidente a sua existência durante a vida, como é evidente que existe para além da morte. Os avanços no conhecimento das suas propriedades resultarão preciosíssimos no domínio da Fisiologia e da Medicina.

O que os antigos chamavam a “vis medicatrix naturae” é o mecanismo estável, incorruptível, sempre ativo, que defende o organismo contra as ações mecânicas, físicas, químicas e microbianas às quais está sempre sujeito, e que recompõe a cada instante a integridade do ser vivo quando é afetada.

Numa palavra, o corpo não é somente um aglomerado de células  justapostas: é um todo harmónico cujas partes constituintes têm funções bem definidas, subordinadas ao papel que desempenham no plano geral.

Claude Bernard (1813 – 1878) Fundador da Medicina Experimental

O perispírito é a realização física dessa “ideia diretora”, que o grande cientista CLAUDE BERNARD assinalou como a verdadeira característica da vida. Essa “ideia diretora” é também o “desígnio vital” que cada um de nós realiza e conserva ao longo de toda a sua existência…”

Texto pesquisado e traduzido a partir da obra “Documents pour servir à l’étude de la Réincarnation” (A Reencarnação). Paris: Éditions de la B.P.S, 1927.

Palavras de Carlos de Brito Imbassahy *

Breve citação de um texto visto no site Era do Espírito enviado a Ellio Mollo pelo autor no dia 2 de novembro de 2007; Tema, “O Perispírito ante a Psico-bio-física”

“…o “campo de vida” seria o que Kardec definiu como perispírito e o “agente estruturador” seria, portanto – e por correspondência – o Espírito encarnante.(.,,)

“… o campo pode ser definido como sendo a área física em torno de um agente qualquer sobre a qual sua ação é percebida. Exemplificando: em torno de uma fogueira há uma região em que seu calor é percebido; será, pois, o campo térmico da mesma. O íman é sempre o exemplo ideal porque em sua volta há uma região restrita de atração fora da qual ela não é sentida.”

“. A primeira característica de qualquer campo é a energia atuante e relacionada com o agente estruturador. O campo do imã tem a propriedade de aglutinar limalhas de ferro e níquel dando-lhes uma formação relacionada com o imã, criando imagens conhecidas como “linhas de força” do campo.

Temos aí uma ideia do que Kardec disse ao definir o perispírito como não sendo material, ou melhor, sendo semimaterial, porque teria esta propriedade aglutinadora de reunir a energia cósmica em si como o campo do imã quando atua sobre as aludidas limalhas.

Esta energia cósmica modulada por um agente físico que atua em determinada região em torno do seu agente estruturador é conhecida como sendo um dos estados físicos da energia fundamental. Assim, o conceito de “semimaterial” emitido à época de Kardec satisfaz plenamente às condições de conhecimento da atualidade. O perispírito só tem sentido porque é capaz de agir de forma semelhante, agregando energia cósmica em seu campo para poder atuar sobre as células orgânicas fetais no útero materno, quando no processo encarnatório.

  • campo do íman também é formado de energia agregada a ele, sem o que jamais atuaria sobre as limalhas.

Cabe lembrar que, na época de Kardec, não se conhecia a energia. O próprio Newton teria definido a energia cósmica fundamental como sendo um fluido, o FCU. Portanto, naquela época, não sendo material, só poderia ser considerado como “semimaterial”. Entenda-se, pois, desta forma, o conceito em apreciação.”

Propriedades do perispírito

(…) “…Rigorosamente coerente com o que Kardec informa em O Livro dos Médiuns e na Seleta de artigos da Revista Espírita, vamos chegar às seguintes conclusões obtidas pela verificação feita em laboratório com uso de aparelhos espectrográficos capazes de detetar o aludido “campo de vida”:

  • – O perispírito é elaborado pelo Espírito segundo suas necessidades junto ao mundo cósmico em que vá viver;
  • – É um campo quântico de natureza psíquica capaz de estruturar células orgânicas e formar corpos somáticos;
  • – Em decorrência da propriedade anterior, ele detém a condição de transmitir ao corpo dito somático as suas necessidades orgânicas decorrentes da vida que deva ter;
  • – Como tal, comparando-o ao campo de uma fita de gravador, ele pode interferir diretamente no corpo somático modulando-o para que ele se estruture segundo suas necessidades encarnatórias.
  • – No sentido inverso, ele pode gravar tudo o que o encarnante faça durante sua vida terrena, sendo o arquivo temporário das suas reações; dessa forma, nossas atitudes presentes podem se refletir nas vidas futuras e o “assim como fizeres, assim acharás” terá plena justificativa, lembrando que, como numa pilha elétrica, toda energia que emana de um polo volta para o outro, fechando o circuito; caso contrário, ela não circula pelo mesmo.
  • – Sendo transitório, como todo e qualquer campo, decorrente da ação indutora do agente, ele não poderá ser o registro de nossos atos, ou seja, a “memória inconsciente” freudiana, arquivo de todos os nossos atos passados, mas servirá de elo entre nossa vida encarnada e os demais campos e sistemas integrados do Espírito. – Do mesmo modo que um campo de um condutor elétrico se modifica de acordo com a corrente que passe por ele, também o perispírito será modulado pela índole ou variação de sentimentos do Espírito, motivo pelo qual este necessita de um ambiente compatível com a sua evolução para nele se encarnar, a fim de que seu perispírito possa atuar nas suas energias materiais.

O que se pode concluir é que tudo isso foi comentado por Kardec sem que, à sua época, se tivesse noção ou o conhecimento atual relacionado com um campo energético e principalmente, de natureza psíquica.”

* O Engenheiro e professor universitário Carlos de Brito Imbassahy é investigador espírita com formação científica, muito conhecido no universo espírita brasileiro, tem numerosos artigos e livros publicados a respeito do tema de que tratamos aqui. É filho de Carlos Imbassahy (1883-1969), advogado, jornalista e importante individualidade ligada ao espiritismo brasileiro.

– A Eletrodinâmica Biológica e a noção dos “campos de vida” e dos “agentes estruturadores” na obra de Harold Saxton Burr (citado em textos da autoria de Carlos de Brito Imbassahy).

Harold Saxton Burr (1889-1973)
cientista norte americano não espírita, não foi o único investigador a ter interesse por estes temas e a estudá-los.

Na linguagem dos homens de ciência é possível afirmar que tudo o que existe, visível ou invisível, obedece ao potencial organizador de “campos de vida”, “agentes estruturadores” ou “FRAMEWORKERS”.

Harold S. Burr foi professor da “Yale University School of Medicine”, na área da neuroanatomia e da eletrodinâmica biológica. As suas principais áreas de estudo foram: “A teoria eletrodinâmica da vida”; “As características elétricas dos sistemas vivos” e “A comprovação da existência de campos eletrodinâmicos nos organismos vivos”.

Há três obras suas bastante marcantes: “A Natureza do Homem e o Significado da Existência”, “Projeto para a Imortalidade” e “Os Campos de Vida, as Nossas Ligações com o Universo”.

Na sua obra “A Natureza do Homem e o Significado da Existência” de 1962, a que tivemos acesso online, conclui de forma muito expressiva, e com argumentos científico-filosóficos, pela existência de DEUS.

Recomendamos vivamente a leitura desta obra, que pode ser consultada online, e descarregada, página a página, pelo menos nos “sites” de duas bibliotecas universitárias dos EUA.

O Perispírito / Uma abordagem do século XX

Reinaldo Di Lucia *

Incluímos esta breve citação do investigador aqui referido, por ser o documento mais recente que conseguimos encontrar, de fonte espírita, com referências científicas, a respeito do perispírito. Com efeito foi publicado no site do Instituto Cultural Kardecista de Santos em 5 de setembro e 10 de outubro de 2016, como atualização de outro artigo do mesmo autor e com o mesmo título, publicado em outubro de 2002 no Caderno Cultural Espírita.

“…Dentre todos os continuadores do pensamento de Allan Kardec, Delanne é o que maior importância atribui ao perispírito. Provavelmente, isto se dá na medida em que é de grande dificuldade para qualquer pessoa adepta ao positivismo, aceitar que o Espírito, este ser imaterial e, para muitos, puramente abstrato, possa ser o princípio de todas as manifestações intelectivas do homem.

Assim, ele vai atribuir ao perispírito uma gama significativa de funções relativas à organização ou mesmo às capacidades inteligentes do ser humano. As principais funções cujas bases são por ele atribuídas ao perispírito são sumariamente descritas abaixo.

Primeiramente, temos a formação do corpo físico. Delanne depara-se com o problema de explicar como o corpo físico pode ser formado com tantos detalhes e reconstruído, com a mesma semelhança, sempre que certas partes são destruídas. Lança mão então da explicação perispiritual:

A força vital por si só não bastaria para explicar a forma característica de todos os indivíduos, e tampouco justificaria a hierarquia sistematizada de todos os órgãos, sua sinergia em função de um esforço comum, visto serem eles, simultaneamente, autónomos e solidários. Neste ponto é que incide o ascendente da intervenção do perispírito, ou seja, de um órgão que possua as leis organogenéticas, mantenedoras da fixidez do organismo, através de constantes mutações moleculares.”

O perispírito é então, em sua opinião, o modelo fluídico, o molde que servirá para construir o corpo físico. Como veremos, esta também é a opinião de Hernâni Guimarães, atualizando o raciocínio a partir de recentes descobertas científicas.

A grande preocupação desse pensador, para atribuir ao perispírito o papel de molde do corpo está na explicação da forma. Enquanto que ele podia perfeitamente admitir uma força vital primária idêntica para todos os seres vivos, desde a planta até o homem, pressupunha que deveria existir uma outra força que diferenciasse as muitas espécies no que tange à sua forma. Essa força seria o perispírito.

Em segundo lugar, Delanne dá ao perispírito um papel psicológico fundamental. Para ele, o perispírito é a base da memória do homem, a qual, por sua vez, é fundamental para a asseguração contínua de sua identidade.

Ele baseia esta opinião sobre a ideia que, mais que qualquer outra célula do corpo humano, as do cérebro são substituídas rapidamente, o que impossibilitaria a manutenção, neste órgão, da memória.

“O cérebro, porém, muda perpetuamente, as células dos seus tecidos são incessantemente agitadas, modificadas, destruídas por sensações vindas do interior e exterior. Mais do que as outras, essas células submetem-se a uma desagregação rápida e, num período assaz curto, são integralmente substituídas.”

Partindo do principio acima descrito, o eminente pensador espírita debita ao perispírito a função da memória, já que esta não poderia ser unicamente do corpo. Em sua tese, qualquer facto guardado pela memória é registrado no perispírito. Quando uma célula cerebral morre, é substituída por outra formada pelo mesmo perispírito, que lhe imprimirá, qual disco gravado por uma matriz, as mesmas impressões que ele próprio guarda. Fica assim resguardada a memória.

Ideias semelhantes a essas são igualmente defendidas por Léon Denis e Gustave Geley, em vários dos seus livros, o que nos dá a impressão que eram bastante difundidas no meio espirita à época – apesar de não terem sido defendidas por Kardec em sua obra.

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Em resumo, as principais ideias sobre o perispírito expostas por estes eminentes pensadores, e ainda hoje bastante difundidas no movimento espírita são:

O perispírito é um envoltório do espírito, que o acompanha desde a sua criação e, portanto, preexistente ao nascimento e sobrevive à morte do corpo físico. É composto de matéria, porém, em nível diferente daquela a que os encarnados estão acostumados. Kardec afirma ser uma matéria “quintessenciada”, obtida por modificação direta do fluido cósmico (que é a matéria primordial), contendo ainda elementos do princípio vital e mesmo de componentes físicos e eletromagnéticos.

A sua composição energética é tanto mais densa, ou menos subtil, quanto menos evoluído (do ponto de vista intelectual e moral) for o espírito. Com a evolução deste, vai-se tornando mais subtil, ainda que não se saiba ao certo o que isto significa fisicamente, mas sempre acompanha o espírito.

É totalmente sujeito à vontade do espírito, que pode plasmá-lo a seu gosto e dar-lhe a forma que

Serve como elemento de ligação entre o espírito e o corpo físico, uma vez que um e outro não podem interagir diretamente devido à diferença estrutural entre ambos.

É o elemento que possibilita a manutenção de uma forma para o espírito desencarnado e, assim, permite que este possa identificar-se como uma individualidade.

É o princípio fundamental das manifestações mediúnicas, em especial daquelas caracterizadas como efeitos físicos.

É o molde do corpo físico, uma forma que conteria os elementos informacionais que permitiriam a sua formação e a sua manutenção. Esta função também é a única forma de adequar o surgimento da vida à Segunda Lei da Termodinâmica.

É a sede dos sentimentos e das faculdades, notadamente da memória. Por vezes, é apontado como sede da inteligência.

Possui órgãos e células, como o corpo físico. Este, aliás, é uma cópia daquele.

Reinaldo di Lucia *

(Nota curricular provavelmente desatualizada e inexata)

Engenheiro Químico formado pela Faculdade de Engenharia Industrial, FEI, S.Bernardo,SP; professor universitário, com especialização em Qualidade na Fundação Getúlio Vargas, Reinaldo Di Lucia tem formação em MBA executivo em Gestão Empresarial também pela FGV e pós-graduação em Engenharia de Qualidade pela Faculdade de Engenharia Industrial. Reinaldo di Lucia, da cidade de Santos, Brasil, é membro do Centro                  de Pesquisa    e Documentação Espírita- CPDoc e colunista do Jornal Abertura, mantido pelo Instituto Cultural Kardecista de Santos-ICKS, em que trata de assuntos  contemporâneos sob a ótica progressista do espiritismo.

Este artigo está disponível em formato PDF para todos os nossos prezados leitores, aqui:

A IMPORTÂNCIA FUNDAMENTAL DO PERISPÍRITO 02

O que realmente acontece quando se morre

Muito agradecidos pelas visitas e, se quiserem colaborar com estas mensagens, inscrevam-se como seguidores e… ajudem a divulgar!…

Este género de publicações dirige-se a um largo número de visitantes que tem o conhecimento de línguas estrangeiras. Estas entrevistas abordam temas fundamentais nos dias de hoje e não posso, infelizmente, incluir traduções de todas elas

What Really Happens When You Die

– Interview with Peter Fenwick
Peter Fenwick (born 25 May 1935) is a neuropsychiatrist and neurophysiologist who is known for his pioneering studies of end-of-life phenomena.
In this interview he talks about near-death-experiences (NDE), death-bed-visitors and how we can achieve a good death.
NDE research is at the cutting edge of consciousness research and offers a convincing model for the understanding of what happens when we die.
Peter Fenwick describes the different transitional phases of the dying process and highlights the importance of letting go at the end of ones life.

He offers fascinating insights into common phenomena at the end of life, such as premonitions, seeing a light, death-bed-visions and coincidences.

In his opinion everybody should know about death and the dying process, because it is a normal part of living.



Rupert Sheldrake / entrevista

Ateísmo, Espiritualidade e Consciência

Galileo Commission adviser Rupert Sheldrake joins Umar & Tahir Nasser, two UK-based doctors and founders of Rational Religion and the In Dialogue podcast.


In this interview with the “world’s most controversial scientist,” Rupert Sheldrake takes us on the journey of his life – from a sceptical undergraduate to a ground-breaking scientist.

Rupert Sheldrake, who gave the famous ‘banned TED talk’, and recently seen on the Joe Rogan podcast and Russell Brand’s ‘Under the Skin’ Podcast, joins Rational Religion for a discussion on atheism, spirituality, and consciousness.

In Dualogue Ep. 5, the author of “The Science Delusion” and “Science and Spiritual Practices,” and originator of the ‘morphic resonance’ theory, discusses the big questions he encountered along the way.

In Dialogue brings you fresh perspectives from a range of diverse voices challenging the status quo in science and society.

A indesmentível realidade das reencarnações!….

A vida para além da morte está cabalmente provada pela absoluta evidência da vida antes da vida!…


Se observarmos uma qualquer criança pequenina no dia a dia dos seus primeiros meses ou anos de vida, poderemos notar  que revela de forma evidente ter guardada na sua capacidade de ver e de sentir uma vastíssima e complexa memória de percepções e sentimentos baseados em muitas vidas já vividas.


É impossível que a inteligência afectiva, os recursos de ordem prática e todas as variadíssimas reacções  de carácter intelectual objectivo e subjectivo possam ter sido achados e desenvolvidos por acaso, sem memórias muito anteriores ao seu respectivo nascimento.


É evidente que o materialismo dogmático vai poder encontrar razões unicamente materiais e orgânicas para tudo isso…


Onde as coisas podem atingir uma incompreensível e inatingível complexidade é nos casos como o dos meninos  Tsung Tsung, Evan Le, Shinichi Nakamoto, e Anna Lee, tocando Paganini… solista de orquestra! abaixo documentados, por tantas e tão intrincadas razões que não ousamos (nem é preciso…) enumerá-las.

 

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“O LIVRO DOS ESPÍRITOS”, de Allan Kardec, em português de Portugal

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 Nova tradução de “O LIVRO DOS ESPÍRITOS”, de Allan Kardec, em português de Portugal

com prefácio de apresentação da filosofia espiritualista para pessoas espíritas e não espíritas, e NOTAS finais de contextualização e actualização cultural.
PARA DESCARREGAR Pdf da obra VER NO MENU DA PÁGINA DE ABERTURA
NA COLUNA DO LADO DIREITO

09549 p>

O espiritismo é uma cultura acessível, que pode contribuir para a felicidade de todos. FAÇAM O FAVOR DE LER esta notícia até ao fim.


A visão da vida das pessoas com a explicação natural e simplificada da origem e do destino das suas existências, pode fazer-se numa conversa breve, entre amigos, acessível a todos.
Foi assim que, na adolescência já muito longínqua, um amigo nos descreveu com facilidade espontânea as noções essenciais da cosmovisão espírita.
O efeito dessa conversa amistosa ficou connosco para sempre e, no tempo em que o dogmatismo religioso coabitava irmãmente com a ditadura política, não havia outro modo de dar entrada na cultura espírita, por ser actividade proibida pelas polícias do tempo, sobretudo a de natureza religiosa que sustentava a ideia de que os espíritas falavam com o diabo!...
Estávamos em pleno século XX, cerca de 1.500 anos depois do concílio de Constantinopla que expulsou dos “textos sagrados” o conceito de reencarnação!…
Como detalhe precioso, e porque há muita ingenuidade e falta de memória por aí, não é escusado dizer-se que a venda de livros espíritas estava, nesse Verão quente de fim dos anos 50, no “Index” religioso do regime, isto é, era proibida pela “censura”!…


O método dialogante e aberto entre grupos de pessoas interessadas, a que acima se faz referência, continua a ser possível.
Uma conversa entre amigos vale muito mais que uma palestra bem encenada e é o melhor caminho para o conhecimento emancipador das informações de ordem natural, que têm sido:

  • registadas ao longo da História da Humanidade por incontável número de epísódios de uma fenomenologia vastíssima e muito complexa, testemunhada por sábios, estudiosos, escritores e gente simples, que foram arrumando na sua consciência – uns mais racionalmente, outros mais intuitivamente – muitas coisas extraordinárias ainda ignoradas pela maioria das criaturas viventes no Planeta!…
  • continuadamente investigadas nos séculos mais recentes, sobretudo pelo estudo e pela experimentação da prodigiosa utilidade funcional do Magnetismo animal, magnetismo curativo ou biomagnetismo.
  • e aprofundadas com a colaboração indispensável dos hipersensíveis dotados de mediunidade, na sequência do que foi feito ao longo dos séculos, mas actualmente de acordo com os princípios e a metodologia delineados por Allan Kardec.


Os dois autores da tradução aqui mencionada não vão esquecer-se de prestar homenagem fraterna ao nosso querido amigo Joaquim Inácio Zapata de Vasconcelos (O “Senhor Vasconcelos” que era músico e homem de cultura) que, ao fim de um dia de Verão, em Leiria, passeando ao fresco da noite, nos contou tudo a respeito do espiritismo!…

Leiria, cidade da nossa juventude, onde eram abundantes e muito prestigiados culturalmente os adeptos da doutrina espírita!…

Leiria, sem tempo, um quadro pintado a acrílico s/ tela da autoria... do autor deste lugar da net!... (O Senhor Vasconcelos trabalhava na rua que fica em frente, do lado esquerdo desta Praça Rodrigues Lobo, muito perto da minha casa.
Leiria, sem tempo, um quadro pintado a acrílico s/ tela, com data de 1990, do mesmo autor deste lugar da net!…

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A característica essencial desta tradução,

sugere a passagem de toda a obra de Kardec para o português que se fala em Portugal, num clima cultural aberto, e propõe o regresso metódico a uma obra muito conhecida pelo seu nome, mas escassamente estudada e ainda menos debatida;
abrindo o seu acesso, se possível, a novos públicos e a jovens inquietos pelo grande mistério da sua origem e do seu destino.

Acentuamos que os comentários anexos em Notas finais que irão ser substancialmente reforçadas em futuras edições, são apenas uma breve incursão no domínio de um debate de ideias que gostaríamos de ver partilhado e enriquecido pelo maior número de leitores, espíritas e não espíritas.

O destino adequado para “O Livro dos Espíritos” não é permanecer imóvel, como peça sacralizada de ideias petrificadas. Julgamos que deve ser entendido por todos os seus leitores de antes, de agora e do futuro, como uma obra energicamente VIVA e justificadamente ABERTA.

“O Livro dos Espíritos”, foi escrito por Hipólito Leão Denisard Rivail, sob o pseudónimo de Allan Kardec, e a sua tradução foi feita diretamente a partir da língua francesa, conforme a segunda edição original de 1860, de modo a torná-lo acessível a todas as pessoas que falam a língua portuguesa dos dias de hoje, isto é, do ano de 2016.

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O espiritismo falado em português de Portugal


Temos pesquisado o que é possível para encontrar traduções com o grau desejado de autonomia e autenticidade linguística para o português de Portugal dos dias de hoje. No mercado imediatamente acessível só encontrámos versões revistas para português, mas visivelmente subsidiárias das antigas traduções brasileiras, com todas as respetivas características.

Pensamos que não é prestigiante para os espíritas portugueses terem deixado passar tanto tempo sem afirmar uma desejável autonomia cultural, que tivesse realizado a tradução completa de todas as obras de Allan Kardec, incluindo a Revista Espírita. A obra de Allan Kardec teria ganho, junto dos utilizadores da esplêndida língua portuguesa, mais vigor e trato familiar.

De resto, o impulso principal de termos concretizado este intento desejaria abarcar todos os públicos, desde aqueles que já se consideram integrados na magnífica cultura espírita, aos que nunca dela tiveram um conhecimento mínimo e que só agora possam ter sentido interesse em saber do que se trata.

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Carácter da obra e suas qualidades essenciais


“O Livro dos Espíritos” trata de assuntos de índole universal, cujo conhecimento é indispensável a todos os seres humanos e conscientes do seu devir ontológico. É nesse plano que pode e deve ser entendida a necessidade de estudarmos a vida, os seus antecedentes e consequentes.
Saber quem somos e saber ao certo o que vai ser de nós para sempre: que coisa haverá mais importante do que isso?

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JOÃO DONHA – comentário à tradução de “O Livro dos Espíritos”

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João Donha – Professor de Português e de História, poeta, escritor e notável estudioso e divulgador espírita de Curitiba, Paraná – Brasil

João Donha - Espiritismo Esta fotografia mostra o cabeçalho do blogue “João Donha – espiritismo” e representa o seu autor, já há alguns anos evidentemente, à entrada da “Passage de Ste. Anne”, em Paris, designação que em português se poderia traduzir como “Galeria de Santa Ana”. Como curiosidade, antes de termos começado a dedicar-nos integralmente à investigação da cultura espírita, estivemos um tempo em Paris, de visita a um filho que ali se encontrava. Movidos por qualquer espécie de intuição, visitámos demoradamente toda esta área histórica da cidade, incluindo, evidentemente o interessantíssimo e muito conhecido espaço do Palais Royal. Na altura não tínhamos a noção exacta, como agora, de que ali trabalhara tão afincada e generosamente Hipólito Leão Denisard Rivail, na produção da grande obra que mais tarde iríamos ler, estudar e traduzir!...
Para ter acesso a “João Donha – espiritismo”, um blogue muito rico de conteúdos de pensamento e cultura espírita, é favor clicar na imagem.


A seguir o comentário do professor João Donha, conforme foi publicado no já mencionado blogue de sua autoria:

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PRIMEIRA (E ÚNICA) TRADUÇÃO PORTUGUESA DO LIVRO DOS ESPÍRITOS


A primeira tradução para a língua portuguesa de um livro de Allan Kardec foi feita em 1862, pelo francês Alexandre Canu, secretário nas sessões da Societé Spirite. Trata-se do “O Espiritismo em sua mais simples expressão”, publicado em Paris pelo editor autorizado pelas duas coroas, brasileira e portuguesa, que bastante influenciou a entrada do espiritismo no Rio de Janeiro, segundo o próprio Kardec.Depois disso, iniciaram-se as traduções das obras de Kardec para o português feitas por brasileiros e lançadas no Brasil. Posteriormente, edições dessas traduções passaram a ser feitas também em Portugal, com as costumeiras adaptações quanto às peculiaridades regionais do idioma. Adaptações feitas em toda a literatura. Só o Saramago não permitiu; por isso, suas obras são lidas no Brasil tal como escritas em Portugal.Mas essa lacuna (a falta de uma tradução para o português de Portugal das obras de Kardec) começa agora a ser suprida pelo casal José da Costa Brites e Maria da Conceição Brites, com a publicação de “O Livro dos Espíritos”. Eu disse “começa”, porque o desafio é lançado, a ser cumprido por eles ou por outros, para que a tradução das demais obras de Kardec também se faça ao som da beleza original do nosso idioma, “última flor do Lácio, inculta e bela” como lembra Olavo Bilac em seu imortal soneto.

E, podemos dizê-lo sem medo de exageros, lacuna preenchida de forma brilhante. Costa Brites e Maria da Conceição (ou, simplesmente São, como ela simpaticamente se coloca numa rede social) têm um excelente domínio do francês e perfeita consciência da dinâmica histórica a influenciar constantemente uma língua, de forma que, não fizeram apenas uma tradução para o português: fizeram uma tradução para o Século XXI. O cuidado com a expressão correta, clara e precisa dos conceitos transmitidos nesta obra (que se insere no rol das grandes obras sintetizadoras da cultura ocidental) norteou seu trabalho. Um elucidativo, instigador e inteligente prefácio, somado às oportunas “Notas Finais” (que são referenciadas ao longo do texto em negrito e entre colchetes), tornam a leitura desta tradução perfeitamente digerível pelo iniciante no conhecimento espírita e, imprescindível para o estudioso aplicado da doutrina.

A proposta de Costa Brites se resume num brado: “OLE – obra viva, obra aberta!” Pois, segundo ele me disse num e-mail: “a cultura espírita, os espíritas, sobretudo aqueles que têm o privilégio de falar com os Espíritos, nunca deveriam ter parado de avançar na pesquisa mediúnica, abrindo cada vez mais o património das informações”. E finaliza com um vibrante e oportuno desafio que, aliás, é também a minha opinião: “quem não estiver de acordo com o nosso trabalho, tem uma proposta antecipada que lhe apresentamos: façam uma tradução para proveito próprio, com todo o empenho e interesse cultural” (…) “No dia em que todos os espíritas tiverem feito uma tradução para seu próprio uso, talvez se tenham dados passos em frente, que nos expliquem de forma consistente ‘a natureza, origem e destino dos Espíritos e as suas relações com o mundo material’, com todas as respetivas facetas e horizontes”.

Enfim, eis a obra. “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec, tradução de José da Costa Brites e Maria da Conceição Brites, Luz da Razão Editora, Portugal, 2017.

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Comentário a este texto inserido por nós no blogue de João Donha :

Caro professor João Donha,

Os autores da tradução de “O Livro dos Espíritos” diretamente do francês original para português da atualidade agradecem reconhecidamente a atenção posta na leitura e na observação cuidadosa do trabalho que fizemos com tanto gosto e interesse proveitoso.

Com efeito, a motivação principal que nos dirigiu foi a de colhermos ensinamentos para nós mesmos, acompanhando todas as fases da tradução com a necessária pesquisa a respeito de todos os temas que mereciam essa atitude.
Tentámos aproximar-nos um pouco da intimidade intelectual da obra de Allan Kardec e dos ensinamentos dos Espíritos que nos deu a conhecer com tão elevado critério de ordenação metodológica.
Ao autor deste blogue e a todos os seus visitantes as nossas melhores saudações.

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No largo espaço da Internet cabe perfeitamente, e na nossa sensibilidade claramente se justifica, uma breve imagem do que aprendemos a respeito de João Donha. O perfil e as poesias vão inseridas porque valorizam esta página.
Se a Internet não servir para encontrar e conhecer pessoas e enriquecer a nossa visão da vida, para que servirá ela?
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JOÃO ALBERTO VENDRANI DONHA, professor de Português e História, de Curitiba, Paraná, Brasil.

A si mesmo se qualifica como:

Ex-professor eventual de português e história;
ex-quase-escritor;
ex-funcionário de estatal;
… Algumas publicações infanto-juvenis; artigos e poesias em diversos periódicos.
E… nada a “completar”… A não ser o exercício atual de duas profissões não regulamentadas (graças a Deus):
a de “fiscal da natureza”, exercida na rive gauche do rio Cachoeira,
e a de “palpiteiro contumaz”, que pode ser verificada aqui no blog.

PUBLICAÇÕES:
“Os Gatos de Angaetama” (1979, CooEditora; 1985, Criar; 1995, HDLivros).
“Pelos Outros, Pela Gente” (1980, CooEditora).
“O Lambari Comilão” (1985, Criar).
“Brás Brasileiro” (1986, HDV).
“Espaço Agrário” (1980, Vozes).
“Os Desconhecidos” (1979, Beija-Flor).

Quase Poemas

Cb. 19.2.2007

RIO TEMPO

Estou num corpo, que está num barco, que desce um rio.
Saí da fonte para a foz, e estou em meio do caminho.
Para mim, a fonte é o passado e a foz é o futuro.
Se paro ou me volto as coisas se invertem.
Pois a fonte tem águas que ainda não vi,
o que faz que elas sejam o futuro,
enquanto que a foz são águas passadas.
Mesmo quando me movo ao longo do rio,
tendo a fonte como passado, lá estão surgindo novas águas;
portanto, em meu passado surgem novidades.
Mas as novidades não são coisas do futuro?
Se o futuro é a foz, suas águas podem ter passado por mim;
então meu futuro é conhecido, pois é feito de águas passadas.
Oh, meu Deus, minha vida gira como as voltas deste barco,
tendo o passado e o futuro sempre no presente.

9.7.2008

DIONÍSIO E APOLO

Se somos antes de ser; se temos categorias a priori; se somos uma centelha divina; se temos uma consciência prévia dada por Deus, lá no fundo e tal, esta verdade indemonstrável mas irrefutável, me indica que todo o saber é adquirido pela intuição, e a razão só lhe dá forma. Assim foi na fase inicial do conhecimento humano, e assim deve permanecer no desenvolvimento científico. A razão não é capaz de gerar novos conhecimentos, mas, simplesmente conformar o conhecimento intuitivo. É evidente; basta apenas observar que, quanto mais racional é uma pessoal, mais previsível ela é, e quanto mais intuitiva, mais criativa e genial. Isto não só porque a pessoa que se aferra apenas à razão se torna prisioneira da previsibilidade inerente a essa faculdade, mas, também, porque está fugindo à sua verdadeira natureza.
Viver é melhor que conhecer.

22.4.2009

A CIDADE

Sonho com a cidade da minha infância,
com muros baixos e portões abertos,
fechados apenas no mês de cachorro louco.
Agora, os cachorros estão sempre loucos
e saltam aterradores nos quintais,
obrigando todos a terem grades e
muros altos…

3.9.2009

POEMIAS

Eu não sirvo prá amigo,
nem prá companheiro,
muito menos prá correligionário,
aliás, eu não sirvo prá co-
isa nenhuma: sou apenas um indivíduo.
E da minha individualidade
(ou seria individualismo?)
eu não abro mão.

A contradição vivida
é que no exercício da minha
individualidade
(ou seria individualismo?),
eu dou-me o direito
de não ter opinião definida;
tê-la, portanto, dividida.
E o in-divíduo
é algo não divisível.

.1990

ECLESIASTES

Vaidade de vaidades, disse o Eclesiastes.
Que proveito tiras tu, ó trabalhador,
Do trabalho com que sempre te desgastaste
Debaixo do sol, a não ser a tua dor?

O sol nasce todo dia e torna a se por
Uma geração vem, outra geração parte
Por mais que pense não se livra do Criador
Filosofia, religião, ciência e arte.

Na calha do tempo se esvai inveja e amor
Seja puro ou pecador, não ilude a sorte
A tragédia com mais furor atinge o forte.

E por mim, que se dane burro ou pensador
Tudo é vaidade, pois que seja como for
Sábio e insensato encontram a mesma morte.

.2012

EU POETA?

O poeta senta e escreve
Eu apenas sinto e ouço
A sinfonia dos sabiás
Na hora mágica das cinco.
É muita paz e felicidade
Ainda que não sendo, só estando,
Mesmo que não tendo, só amando.

 

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PALAVRAS DE JOÃO DONHA
UMA APRESENTAÇÃO LÚCIDA E INTELIGENTE
DA PERSONALIDADE E DO VALOR DO TRABALHO DESENVOLVIDO POR ALLAN KARDEC

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Ser espírita em Portugal

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fragmento de um painel de azulejos /CB 2005

ESTE TRABALHO É DESTINADO AOS PORTUGUESES QUE SE ENTREGAM A UM ESPIRITISMO TOTALMENTE CONFIGURADO NO BRASIL, SEM TEREM A MÍNIMA IDEIA DO ITINERÁRIO HISTÓRICO QUE A DOUTRINA ALI PERCORREU E QUAIS AS TRANSFORMAÇÕES PORQUE PASSOU.

A intenção deste trabalho é a de abrir janelas sobre esse fenómeno, dando prioridade às opiniões que em Portugal não têm sido ouvidas.
As estruturas federativas pretendem dar uma imagem de unanimidade pacífica e de concordâncias inexistentes. Quem perde é a mensagem dos Espíritos como nos foi legada por Allan Kardec, que a todos serve com nobreza e legitimidade.
As contradições desse processo, acarretam inconvenientes graves para a grande cultura espirita que esclarece as principais questões da vida e da morte, apontando-nos o caminho seguro para uma evolução sem limites.

Os espíritas brasileiros, muito embora sejam uma minoria fragmentada em várias tendências, representam um universo muito rico. Pode lá ir buscar-se o espiritismo que melhor nos sirva, mais aproximado ou mais afastado da mensagem de Allan Kardec.

O MEIO ESPÍRITA PORTUGUÊS DOS CENTROS FEDERADOS VIVE COMPLETAMENTE SOB TUTELA DA FEB – FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA,
pelo que tenho recomendado aos interessados que se aproximem da doutrina de forma cultural, pelos seus próprios meios – de preferência lendo e estudando o mais possível metodicamente toda a obra de Allan Kardec.

Nada perdem com isso, sendo muito fácil observar que nos centros espíritas em Portugal, a prática do diálogo aberto é nula, falam sempre os mesmos e dizem sempre o mesmo.
QUANTO AO ROUSTAINGUISMO OFICIAL E ESTATUTÁRIO DA FEB-Federação Espírita Brasileira, ninguém lhe falará nisso!…

ATENÇÂO, porque aqui vai divulgar-se amplamente o que muitos dos nossos bons amigos brasileiros – grandes e cultíssimos estudiosos da causa espírita – sabem e esclarecem a esse respeito num clima aberto de diálogo racional e anti-dogmático!…

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allan_kardec

Hipólito Leão Denizard Rivail, fundador da doutrina científico-filosófica com objectivos morais, chamada espiritismo, termo por ele criado em 1857, no momento em que publicou o livro fundamental da doutrina dos Espíritos, isto é: “O Livro dos Espíritos” que assinou sob o pseudónimo de Allan Kardec.


O “roustainguismo” afinal existe ou não em Portugal?…

Esta é a dificuldade principal dado que o “roustainguismo” em Portugal não corre à superfície.
ESTÁ OCULTO DEBAIXO DAS PRÁTICAS QUE SE FORAM APODERANDO DE PRATICAMENTE TODAS AS CASAS ESPÍRITAS FEDERADAS.
Uma explicação completa deste tema é difícil de fazer exactamente por causa dessa ocultação enganosa.

Nenhum dirigente espírita em Portugal vos dirá que é adepto do roustainguismo e muito menos apresentará sequer o assunto. Um pouco envergonhadamente, quer a teoria quer a prática dessa escola de actuação e pensamento, lá vai passando na prática diária, sem timidez.
É NA PRATICA CONCRETA DE TODOS OS DIAS E DE TODAS AS ACTIVIDADES que essa tendência se exercita da forma mais evidente.

A desvalorização progressiva de obra de ALLAN KARDEC

Como é sabido de todas as pessoas que se dedicam ao estudo destes temas, a origem mais nítida e a consequência mais séria deste fenómeno é a SUBALTERNIZAÇÃO, A INDIFERENÇA E O EMPOBRECIMENTO DO ESTUDO ACTIVO DA OBRA DE ALLAN KARDEC.
Nunca ninguém fez uma estatística séria das pessoas “espíritas” que nunca leram os cinco livros principais que constituem o núcleo essencial da cultura espírita, e julgo até que uma grande maioria dos que se consideram espíritas nunca leram sequer, de modo atento e metódico, “O Livro dos Espíritos”.
Fazendo a pergunta às avessas, para não ser tão contundente, gostaria de saber, ainda que aproximadamente, qual a percentagem dos dirigentes espíritas mesmo, que ainda não teve tempo para ler e reflectir convenientemente sobre toda a obra de Kardec?!…
Donde, a aceitação sem critério das mil e uma penetrações esotéricas que fazem parte integrante do dia a dia das palestras dos centros espíritas em Portugal, com a integração de vocabulários completamente alheios à cultura espírita propriamente dita, QUE CONSTITUI UM SISTEMA CIENTÍFICO-FILOSÓFICO, com objetivos morais, ESTRUTURADO COM A MÁXIMA SERIEDADE na obra de ALLAN KARDEC, nos seus cinco livros principais e enriquecido e documentado largamente noutras obras de sua autoria, sem esquecer as seis mil páginas publicadas durante onze anos na REVISTA ESPÍRITA.
Os grupos esotéricos que proliferam por todo o mundo, já para não falar nas igrejas organizadas e poderosíssimas do cristianismo dogmático, cujo vocabulário é cada vez mais abundantemente utilizado pelos palestrantes e dirigentes espíritas, não tem perante o espiritismo a mesma atitude permissiva e laxista.
Experimentem os espíritas que me lêem, se o não fizeram já, dialogar com católicos, evangélicos ou qualquer membro dos inúmeros grupos espiritualistas, frequentemente muito mais fortes e bem organizados que o desarticulado meio espírita, e saberão com desconforto e desagrado do que estou a falar, concluindo pelo seu explícito anti-espiritismo.
A respeito de algumas destas organizações religiosas, poderosíssimas e globalmente influentes, lancemos quanto mais não seja um breve olhar à História da Humanidade, observemos as abomináveis consequências da sua atitude perante povos e continentes inteiros, e isto inclui de forma evidentemente clara toda a América Latina!…


•    Um dos sintomas mais claros da invasão silenciosa da influência roustainguista nos meios espíritas, é a prática constante da CRISTOLATRIA, com laivos crescentes de DOGMATISMO, em tudo paralelos ao que se verificou, de há muitos séculos, com as doutrinas dogmáticasbaseadas navisão distorcida dos ensinamentos de JESUS DE NAZARÉ que nada tem a ver com Jesus, o Cristo (o “ungido”, ou filho unigénito de Deus!…).

•    A Cristolatria deriva directamente das concepções da sacralização de Jesus, ao qual se fazem as orações nos centros espíritas, no princípio, no meio e no fim das sessões e palestras.

•    O espiritismo é monoteísta e baseia-se na existência de uma inteligência suprema criadora de todas as coisas, a que chamamos DEUS. A chamada santíssima trindade foi inventada há mil e setecentos anos pelas igrejas dogmáticas, seguindo interesses políticos bem caracterizados e nada religiosos, que desvalorizaram Jesus de Nazaré e os seus ensinamentos. Até lhe trocaram o nome passando a chamar-lhe CRISTO, adjectivo que não é nome, mas que serviu para a sua sacralização e consequente instrumentalização político-institucional.

Além disso observa-se nos centros federados:

•    a prática enraizada de ritualismos vários, como a “água fluidificada” o “passe padronizado”, etc. – coisas ausentes do ensino dos Espíritos, longe da pureza inicial do passe pela imposição das mãos, como fez Jesus;

•    o formalismo da igreja confidencial, esotérica e ocultista com catecismo, clero informalmente muito bem organizado (a falta de diálogo impera e limita o conhecimento da cultura espírita).

• Nos centros espíritas a palavra é reservada apenas aos concordantes incondicionais, aos dirigentes da casa, e aos “convidados especiais”, muitos deles brasileiros;

•  Na aceitação vulgarizada de dados culturais exóticos que nada têm a ver com o espiritismo; os orientalismos e sincretismos de vária ordem, de origem espiritualista, teosófica e esotérica etc. donde a grande variedade de termos esquisitos alheios à cultura espírita;

•    e em muitas atitudes interiores que não enganam porque têm a marca influente de quem as criou e desenvolveu, sem que tenham a ver – nem muito nem pouco – com essa outra cultura a que podem chamar os que a amam e respeitam: o espiritismo.

Caros espíritas portugueses,

O estudo da doutrina espírita pode perfeitamente fazer-se de forma individual e independente, de acordo com a sensibilidade de cada um.
O autor deste trabalho tem sido sempre muito interessado a respeito do espiritismo, que tem estudado de forma independente, na versão racional e aberta, científico-filosófica e com profundos objectivos morais, tal como foi organizada em meados do século XIX por Hippolyte Léon Denizard Rivail, aliás Allan Kardec.
Na internet não faltam elementos para estudar o espiritismo da vertente que mais nos agradar e para os interessados haverá sempre um amigo com quem dialogar, estando o autor deste trabalho permanentemente disponível para estabelecer o diálogo, registar ideias, sugestões ou críticas e responder às questões que lhe forem remetidas, pelos comentários ou pelo e.mail desta página: espiritismo.cultura@gmail.com

É fundamental que se entenda que os livros genuínos da cultura espírita, não são só para ler, mas para estudar com toda a atenção.

Quanto as esta publicação só ganhará a devida expressão com a necessária continuidade e com a participação dos visitantes. Para esse efeito solicito o seguimento e a leitura atenta dos visitantes deespírito aberto, dialogante e anti-dogmático.

Os textos que aqui vão aparecer reúnem estudos de investigadores espíritas brasileiros DO MÁXIMO VALOR que têm, ao longo de muitos anos, feito a crítica corajosa  de um estado de coisas muito complicado de desmontar, repleto de ocultações sem nome e distorções lamentáveis.
O objectivo é defender uma cultura essencial para viver a vida com serenidade de consciência, confiança e optimismo.
O Espiritismo é uma  visão essencialmente positiva e optimista das origens e do destino da humanidade, no contexto da mais surpreendente realidade, que nos é oferecida a todo o instante no maravilhoso Universo que nos rodeia, fruto sem limites nem fronteiras do magnânimo e  imperturbável pensamento de Deus.

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JOSÉ PASSINI, crítica de “Os Quatro Evangelhos” de J.B. Roustaing

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José Passini (foto) é natural de Nova Itapirema, interior de São Paulo, mas reside há muito tempo na cidade mineira de Juiz de Fora. Espírita desde a infância, Passini considera a Doutrina codificada por Kardec como uma bússola em sua vida, assim como ele mesmo diz. Segundo ele, o Espiritismo pode ser comparado a um farol que ilumina seus caminhos. “Ele me faz assumir, cada vez mais, a minha condição de espírito imortal, temporariamente encarnado, isto é, consciencializando-me da minha cidadania espiritual.” Esperantista conhecido internacionalmente, Passini foi reitor da Universidade Federal de Juiz de Fora. Doutor em Linguística, seu extenso currículo revela a ocupação de diversos cargos em casas espíritas.

CRÍTICA LITERÁRIA

Os Quatro Evangelhos

 

Autor: Diversos Espíritos / J.B. Roustaing
Médium: Emile Collignon
Editora: Federação Espírita Brasileira
Número de Páginas: (4 volumes)
Análise de José Passini


O Espiritismo, na sua condição de Cristianismo redivivo, não poderia deixar de receber os ataques das forças contrárias ao esclarecimento e libertação do espírito humano. Embora pareça ironia, o volume e a intensidade dos ataques constituem um verdadeiro atestado da legitimidade do Consolador.

A primeira, e talvez a mais forte das investidas, foi a publicação da obra de J. B. Roustaing, conhecida, em língua portuguesa como “Os Quatro Evangelhos”.

Na obra “Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho”, Roustaing é citado como pertencente à equipe de Kardec. Há aqueles que contestam a autenticidade de tal afirmativa. Entretanto, sabe-se que todo missionário que vem à Terra traz consigo uma equipe, constituída de Espíritos, trabalhadores de boa vontade, mas sujeitos a falhas. Zamenhof veio à Terra com um grupo de Espíritos, para a implantação do Esperanto. Dentro dessa equipe, houve um Espírito que falhou, traindo mesmo o grande Missionário, a ponto de ser chamado Judas por alguns biógrafos exaltados.
E Roustaing, embora tenha reencarnado com tarefa definida junto à obra de Kardec, desejou produzir obra própria, tornando-se presa fácil de fascinação. Esse não foi o primeiro, nem o último caso na Humanidade da falência de um Espírito pertencente a um grupo de trabalho. Judas, da equipe de Jesus, falhou redondamente.

Os quatro volumes de “Os Quatro Evangelhos” de J.B. Roustaing  constituem obra fantasiosa, repetitiva, que pretendeu dar nova versão à tese da virgindade de Maria, através de uma pseudo-gravidez, que teria culminado no aparecimento de um bébé fluídico, surgido de um parto fictício, de uma lactação aparente, de um desenvolvimento físico falso e de uma desencarnação enganosa.

Entretanto, não é a tese do corpo fluídico o ponto mais grave da obra. Há afirmativas que contrariam frontalmente as bases doutrinárias do Espiritismo. Vejamos algumas, dentre muitas:

Evolução do Espírito:

Com Kardec, aprende-se que o princípio inteligente percorre, durante milénios incontáveis, as trilhas da evolução, antes de atingir o estágio de humanidade. Aprende-se que a consciência moral que caracteriza o ser humano, libertando-o gradualmente do jugo dos instintos, desabrocha lentamente, revelando a perfeição imanente no Ser:

Pergunta 607 a, de “O Livro dos Espíritos” :

– Já dissemos que tudo se encadeia na natureza e tende para a unidade. É nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco, e se prepara para a vida, como dissemos.
É, de certa maneira, um trabalho preparatório como o da germinação, a seguir ao qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito. É então que começa para ele o período de humanidade, e com este a consciência do seu futuro, a distinção do bem e do mal e a responsabilidade dos seus atos. Como depois do período da infância vem o da adolescência, depois a juventude, e por fim a idade madura. Aliás, nada há nessa origem que deva humilhar o homem.
Os grandes génios sentem-se humilhados por terem sido fetos informes no ventre materno? Se alguma coisa deve humilhá-los é a sua inferioridade perante Deus e sua impotência para sondar a profundeza dos seus desígnios e a sabedoria das leis que regulam a harmonia do Universo.
Reconhecei a grandeza de Deus nessa admirável harmonia que faz com que tudo seja solidário na natureza. Crer que Deus pudesse ter feito qualquer coisa sem objetivo e criar seres inteligentes sem futuro, seria blasfemar contra a sua bondade que se estende sobre todas as suas criaturas.

Segundo as mensagens registadas por Roustaing, dar-se-ia uma transformação do instinto em inteligência – num determinado momento – levada a efeito por agentes exteriores e não através do próprio processo evolutivo, o que faz pensar numa espécie de fim de curso ou licenciatura espiritual.
Interessante notar, nesse caso, que o Espírito, depois de todas as aquisições individuais retorne ao “todo universal”, onde, certamente, perderia a sua individualidade. Além disso, como teria, um Espírito recém-saído da animalidade ter um perispírito tão subtil a ponto de quase ser invisível aos Espíritos Superiores?

No 1º volume da obra de Roustaing, na página 308 pode ler-se:

Como é que, chegado ao período de preparação para entrar na humanidade, na espiritualidade consciente, o Espírito passa desse estado misto, que o separa do animal e o prepara para a vida espiritual, ao estado de Espírito formado, isto é, de individualidade inteligente, livre e responsável?
“É nesse momento que se prepara a transformação do instinto em inteligência consciente. Suficientemente desenvolvido no estado animal, o Espírito é, de certo modo, restituído ao todo universal, mas em condições especiais é conduzido aos mundos ad hoc, às regiões preparativas, pois que lhe cumpre achar o meio onde elaboram os princípios constitutivos do perispírito.
(…) Aí perde a consciência do seu ser, porquanto a influência da matéria tem que se anular no período da estagnação, e cai num estado a que chamaremos, para que nos possais compreender, letargia.
Durante esse período, o perispírito, destinado a receber o princípio espiritual, se desenvolve, se constitui ao derredor daquela centelha de verdadeira vida. Toma a princípio uma forma indistinta, depois se aperfeiçoa gradualmente como o gérmen no seio materno e passa por todas as fases do desenvolvimento. Quando o invólucro está pronto para contê-lo, o Espírito sai do torpor em que jazia e solta o seu primeiro brado de admiração. Nesse ponto, o perispírito é completamente fluídico, mesmo para nós. Tão pálida é a chama que ele encerra, a essência espiritual da vida, que os nossos sentidos, embora subtilíssimos, dificilmente a distinguem.” : (1º vol., pág. 308).


Segundo a mensagem de Kardec, os Espíritos ensinam que o Espírito emerge lentamente da animalidade, das necessidades materiais, através de sucessivas encarnações, que se constituem em oportunidades absolutamente necessárias ao progresso do Espírito.

O Livro dos Espíritos, pergunta 609:
Tendo entrado no período da humanidade, o Espírito conserva os traços do que havia sido precedentemente, isto é, do estado em que se encontrava no período anterior à humanidade?

– Isso depende da distância que separa os dois períodos e do progresso realizado. Durante algumas gerações pode conservar um reflexo mais ou menos pronunciado do estado primitivo, porque na natureza nada se faz por transição brusca; há sempre elos que ligam as extremidades da cadeia dos seres e dos acontecimentos.
Mas esses vestígios apagam-se com o desenvolvimento do livre arbítrio. Os primeiros progressos realizam-se lentamente, porque não são ainda apoiados pela vontade. Seguem depois uma progressão mais rápida à medida que o Espírito adquire consciência mais perfeita de si mesmo.

Os Espíritos, respondendo a Roustaing, afirmam que o Espírito só volta à vida material por castigo. Se só é humanizado após a primeira falta, depreende-se que a população da Terra é constituída de Espíritos faltosos: (…)

No 1º volume da obra de Roustaing, na página 317 pode lêr-se:
“…para o Espírito formado, que já tem inteligência independente, consciência de suas faculdades, consciência e liberdade dos seus atos, livre-arbítrio e que se encontra no estado de inocência e ignorância, a encarnação, primeiro, em terras primitivas, depois, nos mundos inferiores e superiores, até que haja atingido a perfeição, é uma necessidade e não um castigo?

A encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa. O Espírito não é humanizado, também já o explicamos, antes que a primeira falta o tenha sujeitado à encarnação humana. Só então ele é preparado, como igualmente já o mostramos, para lhe sofrer as consequências.”


Em Kardec, aprende-se que o progresso do Espírito é irreversível, o que é racional, pois se não houvesse a irreversibilidade do progresso espiritual não haveria segurança nem estabilidade no Universo.

“O Livro dos Espíritos”, pergunta nº 118:
Os Espíritos podem degenerar?
“Não. À medida que avançam, compreendem o que os afastava da perfeição. Quando o Espírito conclui uma prova, adquiriu conhecimento e já não o perde. Pode estacionar, mas não recua no seu aperfeiçoamento.”

Roustaing admite possa um Espírito que já desempenhou funções elevadas no Mundo Espiritual ser tomado pela inveja, pelo orgulho, etc., o que evidencia uma nova versão para a “queda dos anjos”, conforme a teologia Católica Romana e, também, a Protestante.

No 1º volume da obra de Roustaing, na página 311 pode lêr-se:

“…Já tendo grande poder sobre as regiões inferiores, cujo governo aprenderam a exercer, no sentido de que, sempre sob as vistas dos Espíritos prepostos à missão de educá-los e sob a do protetor especial do planeta de que se trate, aprendem a dirigir a revolução das estações, a regular a fertilidade do solo, a guiar os encarnados, influenciando-os ocultamente, muitos acreditam que só ao merecimento próprio devem o que podem e, desprezando todos os conselhos, caem. É a queda pelo orgulho.

Outros, por nem sempre compreenderam a ação poderosa de Deus, não admitem haja uma hierarquia espiritual e acusam de injustiça aquele que os criou, porquanto é Deus quem cria, não o esqueçais. Esses os que caem por inveja. Até o ateísmo – por mais impossível que pareça – até o ateísmo se manifesta naqueles pobres cegos colocados no centro mesmo da luz.
(…) Nesse caso, sobretudo nesse caso, mais severo é o castigo. É um dos casos de primitiva encarnação humana. Preciso se torna que os culpados sintam, no seu interesse, o peso da mão cuja existência não quiseram reconhecer. Qualquer que seja a causa da queda, orgulho, inveja ou ateísmo, os que caem, tornando-se, por isso, Espíritos de trevas, são precipitados nos tenebrosos lugares de encarnação humana, conforme o grau de culpabilidade, nas condições impostas pela necessidade de expiar e progredir.” (1º vol., pág. 311)


Kardec obtém dos Espíritos Superiores resposta que deixa muito claro que o Espírito que atingiu a humanização não retorna jamais às formas animais, o que contraria frontalmente a teoria da Metempsicose,

“O Livro dos Espíritos”, pergunta 612:

Poderia encarnar num animal o Espírito que animou o corpo de um homem?
“Isso seria retrogradar e o Espírito não retrograda. O rio não remonta à sua nascente.”


Em Roustaing, vê-se que, além de admitir a Metempsicose, afirmam seus interlocutores possa um Espírito voltar à Terra, ou a outros mundos, animando corpos primitivíssimos, como larvas!

Haveis dito que os Espíritos destinados a ser humanizados, por terem errado muito gravemente, são lançados em terras primitivas, virgens ainda do aparecimento do homem, do reino humano, mas preparadas e prontas para essas encarnações e que aí encarnam em substâncias humanas, às quais não se pode dar propriamente o nome de corpos, nas condições de macho e fêmea, aptos para a procriação e para a reprodução. Quais as condições dessas substâncias humanas?

No 1º volume da obra de Roustaing, na página 312/313 pode lêr-se:
“São corpos ainda rudimentares. O homem aporta a essas terras no estado de esboço, como tudo que se forma nas terras primitivas. O macho e a fêmea não são nem desenvolvidos, nem fortes, nem inteligentes. Mal se arrastando nos seus grosseiros invólucros, vivem, como os animais, do que encontram no solo e lhes convenha. As árvores e o terreno produzem abundantemente para a nutrição de cada espécie. Os animais carnívoros não os caçam. A providência do Senhor vela pela conservação de todos. Seus únicos instintos são os da alimentação e os da reprodução. Não poderíamos compará-los melhor do que a criptógamos carnudos. Poderíeis formar ideia da criação humana, estudando essas larvas informes que vegetam em certas plantas, particularmente nos lírios.”


Autenticidade da Encarnação de Jesus:

Kardec mostra Jesus como o modelo mais perfeito para a evolução humana, logo, o seu corpo deveria ter a mesma constituição do corpo daqueles aos quais ele deveria servir de modelo, e seu testemunho basear-se na verdade:

O Livro dos Espíritos, perguntas 624 e 625:

Qual o caráter do verdadeiro profeta?
“O verdadeiro profeta é um homem de bem, inspirado por Deus. Podeis reconhecê-lo pelas suas palavras e pelos seus actos. Impossível é que Deus se sirva da boca do mentiroso para a ensinar a verdade.”

Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?
“Jesus.”


Roustaing mostra um Jesus que estaria fingindo estar encarnado, desde o seu nascimento até a sua morte, que teria sido também um simulacro, uma verdadeira encenação teatral.
Além do mais, ainda o chama de um Deus milagrosamente encarnado!

No 1º volume da obra de Roustaing, na página 242/243 pode lêr-se:

“(…) um homem tal como vós quanto ao invólucro corporal e, ao mesmo tempo, quanto ao Espírito, um Deus: portanto, um homem-Deus.

Em “A Génese”, capítulo XV, números 65 e 66
Kardec afirma categoricamente que Jesus teve um corpo carnal e um corpo fluídico, como todos encarnados temos:

“A estada de Jesus na Terra apresenta dois períodos: o que precedeu e o que se seguiu à sua morte.

No primeiro, desde a sua concepção até o nascimento, tudo se passa, pelo que respeita à sua mãe, como nas condições ordinárias da vida. Desde o seu nascimento até a sua morte, tudo, em seus atos, na sua linguagem e nas diversas circunstâncias de sua vida, revela caracteres inequívocos de corporeidade. (…) também forçoso é se conclua que, se Jesus sofreu materialmente, do que não se pode duvidar, é que ele tinha um corpo material de natureza semelhante ao de toda gente.”