O roustainguismo nas obras de Chico Xavier, por SÉRGIO ALEIXO

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O artigo que aqui se publica, da autoria de SÉRGIO ALEIXO tem muita importância e foi publicado em vários blogues (citado por vários autores) e na sua importantíssima obra “O PRIMADO DE KARDEC”

PREFÁCIO do livro da autoria de
Artur Felipe de A. Ferreira

Allan Kardec, o insigne Codificador do Espiritismo, inspirado nos ditados dos espíritos superiores, por chamou-nos a atenção para o perigo de aceitarmos sem exame o que nos chega do mundo espiritual.
Ressaltou, sempre que o pôde, a importância do estudo e do aprofundamento das questões, em nossa incessante busca pela verdade, para que não nos deixássemos levar por concepções fantasiosas e exóticas, sempre oriundas da ignorância acerca das leis naturais que nos regem a todos.
Confirmando este esforço conjunto dos espíritos verdadeiramente comprometidos com o bem e a justiça, o Espírito Erasto, presente à reunião geral dos espíritas de Bordéus—cidade em que o advogado J. B. Roustaing estava prestes a desenvolver suas estranhas teses —, advertiu acerca da luta que teriam aqueles adeptos do Espiritismo contra uma turba de espíritos inferiores, razão pela qual afirmou ser-lhe obrigação premuni-los contra o perigo.
Da mesma forma, Sérgio Aleixo nos brinda com a presente obra, cumprindo com o seu dever de espiritista, preocupado que é, e como todos o devemos ser, com os rumos do movimento espírita no Brasil e no mundo.
Deixou corajosamente de lado a postura inerme que predomina no nosso meio que, a pretexto de caridade, fecha os olhos para os desvios, adulterações e tentativas de ridicularização do Espiritismo.
Munido de dados históricos hauridos em fontes fidedignas, como bom discípulo de J. Herculano Pires, Sérgio Aleixo utiliza seu grande poder de observação e análise para mostrar que as teses rustenistas (roustainguistas) aportaram no Brasil, depois de ignoradas na França à época de Kardec, como um autêntico“Cavalo de Tróia”, que tem por objectivo provocar a cizânia, o cisma em nossas fileiras, justamente como Erasto, em Bordéus, previra que aconteceria, pela acção de “ditados mentirosos e astuciosos,emanados de uma turba de espíritos enganadores,imperfeitos e maus”.
Nada mais exacto, já que, para melhor ludibriarem, os espíritos que se comunicaram com Roustaing, através de uma só médium, Émilie Collignon, valeram-se, em seus ditados, de nomes venerados: os apóstolos de Jesus, Moisés, etc.
Porém, como os prezados leitores poderão observar,foram e ainda são muitos os artifícios utilizados na tentativa de impor aos espíritas toda uma série de conceitos, ideias e teorias que, além de antidoutrinárias, são absurdas e ilógicas e que, por diversas vezes,se chocam com a razão e o bom-senso.

Este trabalho de Sérgio Aleixo é, portanto, de fundamental importância, como mais um alerta que nos chega, para que possamos separar o joio do trigo em matéria de Espiritismo, ajudando-nos, ao demais, a entender como tudo se passou (e passa) e os meios empregados pelos espíritos mistificadores e falsos sábios na tentativa inglória de provocar a derrocada do Espiritismo com enxertias que se vão espraiando pouco a pouco, tal qual erva daninha num jardim de flores. Aproveitemos todos esta oportunidade de estudo e reflexão, de modo que possamos colaborar para a unidade doutrinária a partir do melhor entendimento do Espiritismo em suas bases sólidas, que se assentam na codificação kardeciana.
É seguindo este imperativo que o confrade Sérgio Aleixo nos presenteia, mais uma vez, com estudos diligentes e questionadores, que merecem, por parte de todos os espíritas sérios, muita atenção e respeito, a fim de que não nos tornemos pedra de tropeço àquilo que nos é mais caro: o Espiritismo.

 

Ao fim desta publicação encontra-se um vídeo recente, também da autoria de Sérgio Aleixo, que actualiza o tema do artigo.

 

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.SergAl(o termo “rustenismo” é usado no Brasil como equivalente a “roustainguismo”, isto é, referido à obra de Jean-Baptiste Roustaing)


O rustenismo é deturpação perigosa, porque se alastra sorrateiro, não em suas obras principais, mas mediante livros psicografados por Chico Xavier.

Conforme prevê o assim chamado “Pacto Áureo” (05/10/1949), “cabe aos espíritas do Brasil porem em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo”. Pois bem! Isto passou ao art. 63 do estatuto da Casa-Mater do rustenismo no mundo, que regista:

O Conselho [Federativo Nacional da F.E.B.] fará sentir a todas as sociedades espíritas do Brasil que lhes cabe pôr em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Francisco Cândido Xavier.

Entre outras piadas de além-túmulo, no capítulo I desta obra, “a amargura divina” de Jesus “empolga” toda uma “formosa assembleia de querubins e arcanjos” e ele, “que dirige este globo”,[1] não sabe sequer onde é o Brasil.
Não bastasse isto, no cap. XXII, o confuso Jean-Baptiste Roustaing emerge do estatuto da F.E.B. para ser equiparado a Léon Denis e a Gabriel Delanne, figurando adiante destes na condição de cooperador de Allan Kardec para “o trabalho da fé”.
Subsiste ainda o questionamento levantado por Júlio Abreu Filho em O Verbo e a Carne, isto é, por que Humberto de Campos se referiu a Roustaing, Denis e Delanne em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho de 1938 e, no livro Crónicas de Além-Túmulo, de 1937, reportou-se tão só a Denis e Delanne?

Em O Consolador, de Emmanuel, há, igualmente, certas estranhezas. Será que houve, então, uma afronta à integridade conceitual do movimento espírita, do tipo “pílula dourada”, sob a chancela do trabalho do médium de maior projecção dos últimos tempos? Foi isto à revelia dele ou, por outra, com sua anuência? Mas como provar qualquer hipótese? Da própria F.E.B., em 1942, Chico Xavier recebeu a informação de que seus originais, após publicação, eram inutilizados por aquela instituição.[2]

A contradição seguinte parece mesmo sugerir o douramento da pílula rustenista na obra de Chico Xavier: o problema do Espírito Santo, expresso nos ns. 303 e 312 de O Consolador. O Espírito Santo não pode ser “a centelha do espírito divino, que se encontra no âmago de todas as criaturas” e, a um só tempo, uma “falange de Espíritos”. Só a primeira resposta, à questão 303, faz sentido à luz do Evangelho e da codificação kardeciana. Já a segunda, à pergunta 312, reflecte o rustenismo e, se for interpolação febiana, que ironia, porque se esmera em elucidar outra interpolação, mas bíblica.

O texto oferecido pelo interlocutor da F.E.B. (abaixo, a negrito), conforme parecer insuspeito do tradutor da Bíblia de Jerusalém (Paulinas, 1985), apresenta “um inciso ausente dos antigos manuscritos gregos, das antigas versões e dos melhores manuscritos da Vulgata, […] uma glosa marginal introduzida posteriormente” em 1.ª João, cap. 5, vv. 7-8, onde se lê: “Porque há três que testemunham [no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo, e esses três são um só; há três que testemunham na terra]: o espírito, a água e o sangue, e esses três são um só”.

Portanto, o interlocutor febiano, no n. 312 de O Consolador, driblou a parte do texto bíblico que se refere ao testemunho de Jesus em “espírito, água e sangue”, para só se referir à glosa marginal, ensejando a Emmanuel esta interpretação da Trindade: “Pai” => Deus, “Verbo” => Jesus, e “Espírito Santo” => “legião dos Espíritos redimidos e santificados que cooperam com o Divino Mestre, desde os primeiros dias da organização terrestre”. Definição tipicamente rustenista do Espírito Santo, assim como, por vezes, do Espírito da Verdade e mesmo do Consolador: “conjunto dos Espíritos puros, dos Espíritos superiores e dos bons Espíritos”; ou “falange sagrada dos Espíritos do Senhor”.[3]

Há, no entanto, um prefácio amistoso de Emmanuel ao livro Vida de Jesus, de Antonio Lima (F.E.B.) Na obra é defendida a tese do corpo meramente fluídico do Cristo. Da mesma forma em relação a Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, que menciona Roustaing ao lado de Delanne e Denis como cooperador de Kardec, e que é prefaciado por Emmanuel. Sobre A Grande Síntese, de P. Ubaldi, escritor que reeditou a queda angélica e a involução como pressuposto para a evolução, postulados afins do rustenismo, o jesuíta disse:

Aqui, fala a Sua Voz [de Jesus] divina e doce, austera e compassiva. […] é o Evangelho da Ciência, renovando todas as capacidades da religião e da filosofia, reunindo-as à revelação espiritual e restaurando o messianismo do Cristo, em todos os institutos da evolução terrestre. Curvemo-nos diante da misericórdia do Mestre e agradeçamos de coração genuflexo a sua bondade. Acerquemo-nos deste altar da esperança e da sabedoria, onde a ciência e a fé se irmanam para Deus.[4]

Ante um comunicado destes, natural é que alguns mais exaltados digam que Kardec foi superado por Ubaldi. Quanto a este pensador italiano, ao indigesto Roustaing e até ao excêntrico Ramatis, será que adeptos de suas doutrinas heterodoxas podem ter pleiteado para publicações afins o “aval” dos já cultuados instrutores de Chico Xavier, na intenção de facilitar a infiltração de tais obras no movimento espírita? E Chico? Analisava tudo? Infelizmente, não. Ele dizia que não era da sua competência entrar na apreciação sequer dos livros que psicografava, sendo um simples “animal de carga”.[5] E os Espíritos que davam o “aval”? Eram mesmo os seus guias? Em caso positivo, são confiáveis?
Normal é que o estudioso se reserve o direito de duvidar, até porque a codificação kardeciana assegura que “o melhor [médium] é o que, simpatizando somente com os bons Espíritos, tem sido enganado menos vezes”, assim como preconiza que, “por melhor que seja um médium, jamais é tão perfeito que não tenha um lado fraco, pelo qual possa ser atacado”.[6] Kardec já advertira também: “Pelo próprio fato de o médium não ser perfeito, Espíritos levianos, embusteiros e mentirosos podem interferir em suas comunicações, alterar-lhes a pureza e induzir em erro o médium e os que a ele se dirigem”. Consignara o mestre que este é, sim, “o maior escolho do Espiritismo” e que o meio determinante para evitá-lo é o “discernimento”; e por quê? Kardec assim responde:

As boas intenções, a própria moralidade do médium nem sempre são suficientes para o preservarem da ingerência dos Espíritos levianos, mentirosos ou pseudossábios, nas comunicações. Além dos defeitos de seu próprio Espírito, pode dar-lhes guarida por outras causas, das quais a principal é a fraqueza de carácter e uma confiança excessiva na invariável superioridade dos Espíritos que com ele se comunicam.[7]

O problema, todavia, é mais complexo, transcende a simetria óbvia entre a F.E.B. e a obra de Roustaing. Não constitui rustenismo a doutrina das almas gémeas, que, segundo Emmanuel, são criadas umas para as outras e umas às outras destinadas na eternidade, contrariando o comentário kardeciano ao n. 303-a de O Livro dos Espíritos, que diz: “É necessário rejeitar esta ideia de que dois espíritos, criados um para o outro, devem um dia fatalmente reunir-se na eternidade”. A F.E.B. até questionou o ensino das almas gémeas na obra O Consolador, ali o deixando, contudo, a pedido do próprio jesuíta.[8]

Quanto a isto, já não faz o menor sentido a hipótese de interpolação da Casa-Mater por força do rustenismo, que nunca professou a existência de almas gémeas, assim como jamais disse, por exemplo, que Marte é mais avançado em civilização do que a Terra, ou que os exilados adâmicos vieram de um suposto orbe não purificado física e moralmente, que guarda muitas afinidades com nosso mundo na órbita do “magnífico sol” Capela; na verdade, segundo a astronomia, um sistema de sóis com ausência de planetas.[9]

De fato, consta que Emmanuel teria dito a Chico Xavier que deveria permanecer com Jesus e Kardec caso lhe aconselhasse algo em desacordo com as palavras de ambos.[10] Mas nenhum ensino contrário a Kardec deixou de ser publicado por essa razão. Eis o fato.[11] De mais consistente lógica e de melhor proveito à clareza analítica, portanto, é que se atribua ao próprio Emmanuel tudo aquilo que dos seus livros conste.
Só Chico Xavier teve o poder de dirimir as dúvidas, mas nunca o fez, nunca levantou uma suspeita sequer sobre a F.E.B.; ao contrário, não é difícil encontrar-lhe pronunciamentos com os mais efusivos aplausos à Casa do “Anjo” Ismael, assim como ao grande J. Herculano Pires, maior opositor do rustenismo febiano. O médium sempre aparece ao lado de todos os partidos.
De tudo, restam os objectos, milhares de milhares de livros, o papel e a tinta, a confusão nas estantes, sempre bem acessível aos neófitos que chegam às casas espíritas e aos incautos leitores em busca de um Consolador que lhes dê milagrosas respostas. Só se pode julgar do que foi publicado. Eis a verdade. Cabe, pois, aos espíritas atentos a apreciação rigorosa de toda obra mediúnica, segundo os padrões de Kardec. Este deve ser o procedimento dos adeptos estudiosos, e a produção atribuída a qualquer Espírito não pode nem deve escapar a isso, seja quem for ou quem se diga ser.
Não passa de temeridade, com lamentáveis consequências já em curso, a ideia de que não se deve agir deste modo para não confundir ou chocar os simples. Na prática, isto é licitar ao Espiritismo que erros manifestos sejam arrolados à conta de patrimônio das consolações que prodigaliza a seus adeptos.
Encaminhemos os simples à segurança e pureza da fonte original do Espiritismo, à codificação kardeciana, em vez de entretê-los com equívocos que, mais tarde, os surpreenderão desprevenidos e, quem sabe, os convidarão à apostasia. O que disse Erasto a Kardec?
Deve-se eliminar sem piedade toda palavra e toda frase equívocas, conservando no ditado somente o que a lógica aprova ou o que a Doutrina já ensinou. […] Na dúvida, abstém-te, diz um dos vossos antigos provérbios. Não admitais, pois, o que não for para vós de evidência inegável. Ao aparecer uma nova opinião, por menos que vos pareça duvidosa, passai-a pelo crivo da razão e da lógica. O que a razão e o bom-senso reprovam, rejeitai corajosamente. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa. Com efeito, sobre essa teoria poderíeis edificar todo um sistema que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento construído sobre a areia movediça.[12]
Para o movimento espírita, no entanto, isto não há passado de meras frases de efeito, inseridas em retóricas quase sempre desmentidas pelo cotidiano institucional da maior parte dos adeptos do espiritismo à moda da Casa-Máter do rustenismo. Sobre o assunto espinhoso deste capítulo, decerto que muito a propósito são as reflexões de nosso valoroso confrade Artur Felipe de A. Ferreira, em seu artigo “De Que Lado Está Emmanuel?”.[13]


[1] Revista Espírita. Jan/1864. Um Caso de Possessão. Senhorita Júlia. Nota: O sábio Hahnemann é quem afirma ali que o Espírito de Verdade dirige este globo, ou seja, a Terra.
[2] Cf. SCHUBERT, Sueli Caldas. Testemunhos de Chico Xavier, p. 23-24. Apud DA SILVA, Gélio Lacerda. Conscientização Espírita. Chico Xavier, Emmanuel e a F.E.B.
[3] Os Quatro Evangelhos. Vol. I, n. 9; Vol. II, n. 187; Vol. IV, n. 1.

Nota: Quanto ao Espírito da Verdade, é curioso, o rustenismo muito se divide, porque subsiste na obra a instrução dos bons Espíritos que, em Bordéus — na casa de Roustaing e na de Sabo —, chegaram a revelar que se tratava de Jesus, como o próprio advogado fez questão de consignar a Kardec, bem antes do cisma que promoveria. (Cf. Revista Espírita. Jun/1861. Correspondência.) Evidentemente, os Espíritos que passaram a substituir os Iniciadores se valeram de uma autêntica revelação destes para impor aos bordeleses mais incautos lamentáveis sistemáticas a título de comandos do Cristo, de Moisés, dos evangelistas, de Maria e dos apóstolos. J.-B. Roustaing, infelizmente, faliu ante provável missão que não chegou a cumprir, tornando um pouco mais árdua a gigantesca tarefa do gênio lionês. Não foi sem motivo que disse o mestre sobre o livro rustenista: “[…] ao lado de coisas duvidosas, em nosso ponto de vista, encerra outras incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada com proveito pelos espíritas sérios […]”. (Revista Espírita. Jun/1866. Os Evangelhos Explicados.)

[4] Ob. cit. 18.ª ed. Trad.: Carlos Torres Pastorino e Paulo Vieira da Silva. Vol. II. Z
5] Cf. Emmanuel. 15.ª ed., F.E.B., Prefácio, p. 21. Cf. DVD Pinga-Fogo 2. Clube de Arte. Cf. ALEIXO. Ensaios da Hora Extrema. Não Há Médiuns Infalíveis.
[6] O Livro dos Médiuns. XX, 226, 9.ª e 10.ª
[7] Revista Espírita. Fev/1859. Escolhos dos Médiuns.
[8] Cf. n. 323 e nota à primeira edição.
[9] Cf. Emmanuel, “A Tarefa dos Guias Espirituais”. A Caminho da Luz, cap. 3. Cf. ALEIXO. Ensaios da Hora Extrema. Kardec e os Exilados.
[10] Diálogo dos Vivos [em parceria com Herculano Pires], cap. 23: Permanecer com Jesus e Kardec.
[11] Cf. ALEIXO. Ensaios da Hora Extrema. Léon Denis, Emmanuel e as Almas Gêmeas; Mística Marciana e Segurança Doutrinária; Kardec e os Exilados; Sobre André Luiz.
[12] O Livro dos Médiuns, 230.
[13] http://coerenciaespirita.blogspot.com/2008/10/de-que-lado-est-emmanuel.html

O vídeo acima, encontra-se no YouTube horizontalmente invertido, da direita para a esquerda. Isso deforma inclusivamente o título do livros que Sérgio Aleixo segura na mão “Francisco Cândido Xavier, Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”. Tentei mudar isso, mas não consegui. O próprio rosto de Sérgio Aleixo está um pouco deformado.

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Wilson Garcia, as federações e o movimento espírita

As Federações e o seu Papel no Movimento Espírita

Escolhemos das nossas pesquisas na Internet um artigo escrito por Wilson Garcia, importante estudioso e autor espírita com vasta obra feita e muitíssimo conhecido no Brasil, que no trabalho a seguir inserido apresenta o problema muito sério do papel que as federações desempenharam, e desempenham ainda, no movimento espírita. Já nos interessaria muito se fosse só isso, mas a sua publicação aqui tem o intuito de levar até junto dos leitores portugueses ideias bem claras e documentadas a respeito da história do espiritismo no Brasil.

Tendo a Federação Espírita Portuguesa ao que nos parece, pelas mais do que evidentes aparências, posicionamentos estratégicos francamente coincidentes com os da FEB, embora nunca tenha inserido nos seus estatutos a divulgação organizada e sistemática da mensagem roustainguista,
julgamos muito importante o retrato bastante realista que nos apresenta Wilson Garcia, para podermos avaliar o que tais afinidades poderão significar para o espiritismo em Portugal.
O trabalho em questão foi enviado ao “Portal do Espírito”
por Wilson Garcia em 30/12/2015

 

As Federações e seu Papel no Movimento Espírita

Enviado em 30/12/2015 | Escrito por Wilson Garcia

As Federações e seu Papel no Movimento Espírita

Wilson Garcia

Embora nem sempre perguntem objetivamente, está no interesse dos dirigentes espíritas saber, sobre as entidades federativas do movimento espírita, as seguintes questões: como elas surgiram? Por que foram criadas? Qual o seu verdadeiro papel no movimento espírita? A resposta a estas questões é a chave para o relacionamento entre centro espírita e federativas.

O estudo da História do Espiritismo, como de qualquer ramo do conhecimento humano, é de vital importância para a compreensão doutrinária. Nele estão inseridos o homem e sua atuação, os princípios e seu surgimento, a realidade cultural e social, enfim, elementos que explicam os fatos e facilitam o seu entendimento. Muitos dos acontecimentos que às vezes parecem obscuros ou não apresentam explicações claras podem ser resolvidos à luz da história.

Em razão disso, vamos fazer um retrospecto no tempo, para buscar as raízes do movimento espírita brasileiro e, assim, poder compreender com maiores detalhes esta árvore que hoje abriga a milhões de pessoas, principalmente no Brasil. É preciso esclarecer que não pretendemos, neste estudo, entrar nas minúcias de todos os fatos, pela impossibilidade que isto significaria aqui. Vamos passar em revista alguns acontecimentos importantes, analisar os personagens neles envolvidos e sacar daí razões que possam beneficiar o nosso trabalho dentro das casas espíritas.

É preciso, também, esclarecer que vamos apresentar fatos que muitas vezes chocam com aquilo que gostaríamos de ver. Nós não criamos estes fatos, antes, eles existiram e falam por si: são, portanto, críticos. Com isto, não temos intenção de agredir aqui e ali, muito menos temos interesse de diminuir esta ou aquela instituição. Os fatos, vistos por seu prisma verdadeiro, por mais chocantes que sejam, sempre possibilitam a melhoria do conhecimento doutrinário e de sua prática no centro espírita. Pior acontece com aqueles que, colocados em postos de comando, não querem saber dos acontecimentos: preferem ignorar o passado, como se o presente não fosse o resultado da ação do homem.

Desconhecer o passado pode significar, quando pouco, a má concretização do ideal doutrinário e, na melhor das hipóteses, a sua prática imperfeita, incompleta ou deficiente.

As raízes do movimento espírita brasileiro

Não se pode precisar, com segurança, quando e de que modo a Doutrina Espírita aportou no Brasil. A coisa mais correta a esse respeito talvez seja mesmo o verbo aportar: o Espiritismo aqui chegou, sem dúvida, viajando de navio, na segunda metade do século passado. Imperava no país, principalmente na Corte, a influência da cultura francesa. Tudo o que vinha de Paris era considerado de classe superior. A música, a literatura e o teatro. O Espiritismo, codificado a partir do trabalho de Kardec, era também um dileto filho francês. Deu-lhe bem cedo boas vindas a intelectualidade cabocla.

A cultura indígena estava praticamente abafada. A Igreja Católica espalhara seus tentáculos por todas as partes. Os negros caminhavam para a consolidação do sincretismo de suas crenças com os ídolos católicos. Várias entidades espirituais africanas estavam perfeitamente identificadas com os santos romanos e a essência da religião negra, inclusive seus cultos através do comportamento mediúnico e da crença reencarnacionista, corriam então menor risco. Houve, sem dúvida, uma certa cumplicidade do clero com a manutenção das concepções e práticas negras, uma espécie de acordo mudo com o senhorio, de tal forma que as três partes envolvidas pudessem de alguma forma manterem-se vivas.

Foi nesse ambiente que o Espiritismo se estabeleceu: chegou, convenceu, criou fama, foi fortemente combatido, sofreu influências, permaneceu e alcançou os dias atuais. O primeiro dado conclusivo que se pode tirar é esse: o Espiritismo chegou ao Brasil pelas portas da intelectualidade e com o aval do berço francês. Só mais tarde ele alcançaria as classes mais baixas da escala social, até fixar-se como uma doutrina da classe média brasileira.

Engana-se quem imagina que os fatos espíritas só aconteceram a partir da vinda da doutrina. Absolutamente. Antes mesmo de aqui chegar o primeiro passageiro com O Livro dos Espíritos na mala, já muitos acontecimentos chamados fenômenos mediúnicos ocorriam em locais isolados, muitos deles freqüentados por criaturas dispostas a tirar conclusões sérias.

Parte da intelectualidade assumida apresenta dois aspectos conflitantes: é arrojada, de um lado, e presunçosa, de outro. Para muitos daqueles que retornariam da Europa tocados pelo pensamento kardequiano pouco se lhes dava se o clero se opunha a esse pensamento. Eis aí a demonstração de arrojo. De outra parte, essa intelectualidade não titubearia em criar apêndices para o pensamento kardecista, na presunção de possuir poder para tal. Essa ousadia precoce não demoraria a trazer certos desentendimentos para o coração da nova ordem de sociedade que viria a ser formada. Mais tarde, fato semelhante vai ocorrer com a popularização da doutrina: a classe menos esclarecida, em virtude de suas concepções religiosas e de seus preconceitos, acaba por mesclar a prática doutrinária com ídolos e comportamentos totalmente contrários aos princípios kardecistas. Atualmente, um dos pontos de maior debate reside exatamente neste aspecto.

Se a origem francesa era como que um passaporte para a entrada no país de tudo o que nossos navios traziam, é certo que muito daquilo que vinha de além mar não correspondia à fama. Pouco depois de Kardec, aqui chegou a doutrina de Roustaing, envolvida da mesma aura novidadesca. O pensamento do Codificador a seu respeito não veio junto, sequer poderia ser conhecido. Mais tarde foi até posto de lado. Bem ou mal, Roustaing se estabeleceu e já na chegada instaurou discórdias, sendo com toda certeza a primeira grande divergência do movimento espírita brasileiro. Esta é a segunda conclusão a que se chega. A divergência é tão profunda que vai ultrapassar os tempos, alcançando os dias atuais.

É importante relatar estes fatos porque eles vão influir decisivamente nos destinos do movimento espírita nacional, desde as instituições primeiras que aqui se formaram até os mais letrados pensadores da doutrina dos nossos dias. A Federação Espírita Brasileira, por exemplo, fundada em 1884, acabará se constituindo no principal reduto do pensamento roustanista. Seu Estatuto vai chegar ao ponto de estabelecer como condição “sine qua non” para o associado ascender a cargos diretivos, a sua crença na doutrina de Roustaing.

Esse tipo de posicionamento, em defesa de teses discutíveis, se encontra na liberdade doutrinária um ponto de apoio, de outra parte acaba sendo fator de enfraquecimento da instituição perante o próprio movimento – atualmente há as Federações estaduais a favor de Roustaing e aquelas que não o aceitam. Em alguns outros aspectos, fatos semelhantes acontecerão.

O aparecimento das Federações

No ano de 1884, no Rio de Janeiro, capital da República, sede da cultura nacional, centro de todas as atenções do país, aparecia a Federação Espírita Brasileira, criada a partir do desejo de alguns espíritas cariocas de unir fraternalmente as sociedades espíritas, entre eles o fotógrafo Augusto Elias da Silva, que no ano anterior havia fundado a revista “Reformador”, a qual passou a ser órgão da própria Federação, desde então.

Antes da Federação, várias dissidências haviam sido registradas no principiante movimento espírita brasileiro. O primeiro agrupamento espírita juridicamente legalizado no Brasil, de que se tem notícia, foi o Grupo Confucius, criado no Rio de Janeiro em 1873. Durou pouco: menos de três anos.

Problemas internos levaram ao seu fracasso. Depois foram surgindo outras: Sociedade de Estudos Deus, Cristo e Caridade, Sociedade Espírita Fraternidade, União Espírita do Brasil etc.

Por um bom período, duas instituições desenvolveram atividades paralelas de filiação de entidades espíritas: a União Espírita do Brasil e a Federação Espírita Brasileira. Ambas no Rio de Janeiro. Por fim, e não sem muitos traumas, venceu a Federação. Recorde-se que ao nascer, tanto a União Espírita do Brasil (1882) quanto a Federação Espírita Brasileira (1884) tinham por finalidade reunir debaixo de uma só bandeira os centros e sociedades espíritas do país. Só mais tarde, já neste século, estando a Federação consolidada do ponto de vista político e econômico, é que ela vai se dedicar ao trabalho junto às Federações estaduais. Note-se, ainda, o detalhe: a Federação não surgira do interesse de organização dos centros existentes, mas do desejo de alguns espíritas, individualmente, saídos da divergência de outros grupos e que se reuniam na residência de Augusto Elias da Silva. As lutas internas no incipiente movimento espírita de então, sempre em busca de supremacia de um grupo sobre outro, fez com que o ideal de união das sociedades espíritas permanecesse letra morta por um longo período. A Federação, já com Bezerra de Menezes à frente, não se entendia com o Grupo da Fraternidade, nem com a União Espírita do Brasil e assim por diante. Eis que Frederico Júnior, na Fraternidade, recebe uma mensagem de Allan Kardec, intitulada “Instruções aos Espíritas do Brasil” (ver transcrição ao final deste texto), que provoca grandes discussões no movimento. Sob o comando de Bezerra, resolveu-se fundar uma nova sociedade, com incumbência federativa, tendo o apoio da Federação e outros grupos, exemplo esse que será mais tarde repetido em São Paulo, na fundação da USE. Durou pouco a nova instituição. Ficou Bezerra nela abandonado.

Passaram-se os anos. Em 1903, no Rio de Janeiro, a Federação Espírita Brasileira resolve comemorar o centenário de nascimento de Allan Kardec, organizando um programa de três dias.

Convida as sociedades espíritas do Brasil para estarem presentes. Na qualidade de Federação estadual então existente, apenas a do Amazonas comparece, na pessoa de representantes nomeados. De São Paulo, participou o português Antônio Gonçalves da Silva “Batuíra”, figura exemplar e que dirigiu na época o maior agrupamento espírita do Estado, juntamente com o jornal “Verdade e Luz”, por ele fundado.

Uma decisão tomada então vai ter importância decisiva nos destinos do movimento espírita brasileiro: ficou decidido que se fariam esforços para a fundação de federações estaduais nos “moldes da Federação Espírita Brasileira”. Isso significa que os fatores positivos e negativos da Federação passariam para as que fossem fundadas, inclusive a questão polêmica do roustanismo. Foi o que se deu. Além disso, prosseguiria o sistema de fundar federações através de gestões individuais e não coletivas.

Atualmente, temos no Brasil as federações que aceitam Roustaing e aquelas que não o aceitam.

Criadas para unir o movimento, as Federações não cumprem seu papel

Grande parte das dissenções iniciais, em relação a organismos como a Federação Espírita Brasileira, era resultado da luta pelo poder. Esta questão permanece nos dias atuais, mas já não se constitui em aspecto principal. Vencida esta etapa, à medida em que a consciência dos dirigentes espíritas se abria para a importância da unificação, passou-se a cobrar das federações uma atuação mais precisa.

Assim, em princípios da década de 30, vozes se levantavam de várias partes do país, principalmente das regiões Sul-Sudeste, clamando por uma presença eficaz da Federação Espírita Brasileira junto ao movimento. A Federação havia praticamente abandonado os seus deveres junto a este movimento, preocupando-se acima de tudo com questões de sua própria sobrevivência.

Postada no pedestal de Casa Máter, os dirigentes da Federação não davam ouvidos às reclamações, até que se iniciou um movimento contrário, que aos poucos foi tomando forças e acabou desembocando na realização de uma Assembléia Nacional Constituinte, no Rio de Janeiro, em 1926, voltada para a organização do movimento espírita brasileiro, fundando-se na ocasião a Liga Espírita do Brasil.

A notícia da realização próxima daquele evento fez os diretores da Federação saírem da inércia. Em oposição à Constituinte, ela convocou uma reunião para o mesmo ano e na mesma cidade, onde compareceram representantes de instituições espíritas, ocorrendo assim, a primeira reunião do Conselho Federativo, onde se propôs a dinamização do movimento espírita nacional. A Federação tratou de cooptar os principais elementos que levaram avante a Constituinte e por sua influência a Liga Espírita modificou seus objetivos iniciais, entregando-se às diretrizes da Federação e, mais tarde, transformando-se na entidade federativa estadual do Rio de Janeiro. Estava vencida, assim, mais uma etapa na vida da Federação e podia ela, mais uma vez, respirar aliviada.

Amainados os ânimos, rendidas as resistências, não tardou a Federação a retornar ao estado de inércia anterior, no que diz respeito à direção do movimento espírita brasileiro. O aparecimento do médium Chico Xavier e seu primeiro livro, Parnaso de Além Túmulo, constitui para a Federação uma razão mais forte de atuação: a área do livro, que ela já vinha desenvolvendo a duras penas há vários anos, recebe uma injeção forte. É onde ela concentra suas energias.

A maioria das Federações estaduais seguem-lhe os passos, no que diz respeito ao movimento regional, ou seja, quase nada realizam em prol dos centros filiados, apesar do número restrito destes. Falta-lhes uma visão real daquilo que deveriam realizar. Suas atividades se restringem a reuniões de diretoria, onde boa parte dos diretores quase nunca aparecem, e à luta para pagar aluguéis e outras despesas de sobrevivência. Vale observar que as diretorias destas federações eram compostas quase sempre por pessoas de nome na sociedade, mas cujo verdadeiro ideal espírita ainda não as havia alcançado.

Portanto, elas davam mais atenção aos seus compromissos sociais e profissionais do que ao comparecimento na instituição.

Em São Paulo, o dinamismo não impede a ocorrência de velhas deficiências

A doutrina cedo alcançou São Paulo. E não tardaram a surgir figuras de proa, tomando para si a tarefa de sua divulgação. Uma delas foi um português autodidata, amigo dos estudante da famosa Faculdade de Direito do Largo São Francisco, veloz nas pernas e no pensamento. Seu nome: Antônio Gonçalves da Silva. O apelido: Batuíra. Depois dele, inúmeros outros marcariam o movimento espírita bandeirante. Não se sabe até que ponto as decisões tomadas em 1903, no Rio de Janeiro, se materializaram em São Paulo. Em 1916, surgiu uma estranha instituição, fundada por outro português, Antônio José Trindade, com o nome de Sinagoga Espírita São Pedro e São Paulo. Dois anos após, passa a chamar-se Sinagoga Espírita Nova Jerusalém, em virtude de uma cisão interna, que separou os seus diretores. E após ela, a Liga Espírita, a União Federativa e a Federação Espírita do Estado de São Paulo (Feesp).

É curiosa a história da Feesp. Em 1926, dirigia a revista Verdade e Luz, sucessora do jornal Verdade e Luz, fundado por Batuíra, o dr. Lameira de Andrade. Motivado pelo movimento da Constituinte Espírita e vendo o Espiritismo em São Paulo padecendo dos mesmos males do brasileiro, Lameira resolve, com o apoio de alguns dirigentes de centros espíritas, fundar na capital a Federação Espírita do Estado de São Paulo, o que de fato consegue. Mas, durou pouco esta primeira Feesp, assim como pouco duraria a Liga Espírita do Brasil, consoante os princípios em que fora criada.

As razões desse desaparecimento estão ainda por serem devidamente apuradas. Sabe-se, entretanto, que Lameira de Andrade fora, em São Paulo, ardoroso defensor da Constituinte e que era opositor ferrenho da obra de Roustaing, tendo divulgado diversos manifestos contra suas teses e, inclusive, publicado um livro em que debatia mais profundamente o assunto.

Morta a primeira, surge, dez anos depois, a segunda Feesp, agora sob a direção de outros espíritas e sem contar com o apoio dos centros. Após um período de dura sobrevivência, em que o seu desaparecimento era mais certo do que a continuidade de sua vida, durante o qual o trabalho junto aos centros espírita jamais vingou, a Feesp finalmente se firma como instituição, devido principalmente à chegada daquele que seria, por mais de 30 anos, o seu mais importante dirigente: Edgard Armond. Figura controvertida, esoterista e maçom, Armond soube vencer as adversidades administrativas e levar a Feesp a uma posição de destaque.

Em 1947, Armond convenceu seus pares a convocar um Congresso para dar fim à desorganização em que se achava o movimento espírita paulista. Iria repetir-se em São Paulo o mesmo caso havido no Rio de Janeiro, ao tempo de Bezerra de Menezes. Apenas o desfecho será outro, como veremos. O diagnóstico levantado mostra uma situação alarmante na época, com os espíritas desunidos e praticando mal sua doutrina nos centros espíritas. Ei-lo:

1 – Dispersão sistemática e generalizada, em caminho de desintegração, por força de interferências estranhas e de dissensões que, forçosamente, levariam à formação de cismas ou desmembramentos sectários.

2 – Desvirtuamento da Doutrina por força de interpretações capciosas e individualistas e de práticas nocivas visando interesses e ambições pessoais, com evidente desprezo dos seus postulados fundamentais, mormente os do campo moral.

3 – Disseminação de práticas exóticas, misto de magia e de superstição, com a introdução de ritos de outros credos e cerimônias religiosas de estranho aspecto e significação, tudo o que está designado como “baixo espiritismo” mas que realmente não passa de “falso espiritismo”.

4 – Arbítrio e personalismo, imperantes na maioria das instituições, transformando-as, muitas vezes, em propriedades particulares de uns e de outros, do que resultava afrouxamento cada vez maior da comunhão geral, no campo da fraternidade.

5 – Clandestinidade de muitas instituições existentes que, propositamente, fugiam a uma organização regular e ao intercâmbio, para exercerem práticas condenáveis e explorações da credulidade pública, causando assim confusão e profundo dano à segurança moral da expansão da Doutrina.

6 – Infiltração nas fileiras espíritas de ideologias estranhas, ligadas a movimentos políticos-revolucionários e tentativas reiteradas de dominação político-partidária, tudo incompatível com os sãos princípios e com as finalidades essenciais da Doutrina.

7 – Desconhecimento completo que se tinha do vulto e da extensão do movimento espírita e do perigo que representava para a própria Doutrina a expansão desordenada, sem diretrizes uniformes, sem disciplina, sem subordinação a um organismo central coordenador.

8 – Por último, a ignorância ou o desinteresse que demonstravam inúmeras instituições a respeito do papel e das responsabilidades que o Espiritismo assume, como cristianismo redivivo, na esfera da coletividade mundial.”

A Federação é a mãe do Congresso

Espíritas de várias partes do estado vieram participar do primeiro grande evento unificador em terras paulistas. Foi da Federação, também, a tese vitoriosa, que resultou na fundação de uma nova entidade, a União Social Espírita, depois mudada para União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (Use). A USE foi a primeira entidade federativa do país a nascer da vontade coletiva, do interesse dos centros espíritas, que realmente vingou.

A ela foi entregue os destinos do movimento espírita no estado. As quatro grandes instituições federativas, então existentes: Feesp, Liga, União e Sinagoga, mais os dirigentes de centros espíritas, ao aprovar a tese de criação da Use acordaram que a ela caberia a incumbência de coordenação deste movimento. E acordaram mais, de que lhe dariam o indispensável apoio para sobreviver e alcançar seus objetivos. Com isto, as quatro se retirariam dos trabalhos federativos, deixando a Use livre para realizá-los.

Três cumpriram a palavra. A Feesp, não. Armond abrigava a idéia de que a criação da Use resolveria o impasse da ocasião, beneficiando o movimento. Mas ele queria mais: desejava unir a Use à Feesp, prevalecendo finalmente esta. Era o poder que estava em jogo. Mas o destino assim não quis. A Feesp, alimentando a esperança de prevalecer sozinha no trabalho federativo, abrigou em sua sede, por muitos anos, a Use. De um lado, cumpria o dever de apoiá-la (e o fez com o ônus material), mas de outro tinha-a sob sua mira. Também por muitos anos, o presidente da Federação era vice-presidente da Use e vice-versa – o presidente da Use era vice na Feesp.

Na década de 70, com a Feesp continuando a federar centros, paralelamente à Use, formou-se uma comissão pró-fusão das duas entidades. Antes do fim daquela década, ambas viram baldados os esforços – o Conselho Estadual da Use convenceu-se de que a fusão seria maléfica para a Use e para o movimento espírita. A decisão acirrou os ânimos, que já estavam de fato exaltados.

O fato marcante deste processo histórico é que, tendo fundado a Use com o objetivo de incorporá-la posteriormente, a Feesp não calculou bem o futuro. Ela criou um filho, mas perdeu sobre ele o domínio antes mesmo que ele alcançasse a maioridade.

A Use cresceu rápido, devido ao trabalho desencadeado logo após sua fundação. O interior do estado, o mais abandonado do movimento, tornou-se alvo de suas atenções. Enquanto contou com colaboradores dedicados, a Use varreu o estado, levando a consciência do trabalho unificado. Logo, surgiram os espíritas useanos, aqueles que nasceram e cresceram doutrinariamente sob o lema da unificação, suficientemente educados na filosofia política da entidade, expressa em conceitos como “a Use somos todos nós”. Assim como os useanos vibravam com o sentimento democrático de sua entidade-mãe, viam na Feesp uma entidade sem as características mínimas indispensáveis ao trabalho de unificação. Esse sentimento cresceu e, nos momentos críticos, exacerbou-se.

Para os useanos, a Feesp era nada mais do que um “centrão”, termo este que passou a ser, na época, sinônimo de Feesp e de um certo modo com contornos pejorativos. Eles a viam com todas as características de um centro espírita que cresceu demasiadamente e que tinha em suas atividades, práticas discutíveis do ponto de vista doutrinário. Não aceitavam a forma como os passes eram dados, uma das heranças de Armond. Este, atendendo aos princípios da organização, tratou de padronizar os passes, após definir-lhe diversas classificações. Aos useanos, passes padronizados passaram a ser sinônimo de ritualismo. Ademais, os cursos criados pela Federação também continham os seus pontos críticos. O que mais influía, porém, era a filosofia paternalista da Feesp, que contrariava a Use, já então plenamente aceita e estabelecida.

Um acontecimento em meados da década de 70 veio abalar ainda mais o trabalho em torno da fusão.

A Feesp, inadvertidamente, lançou no mercado uma nova tradução de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, elaborada por Paulo Alves de Godoy, que continha gritantes falhas, incorrendo o tradutor em erros considerados inaceitáveis. À frente deste movimento postou-se um crítico ferrenho da Feesp, Herculano Pires. Apesar das resistências iniciais, a Feesp acabou sucumbindo ante a grita geral e não mais editou aquela tradução.

A decisão da Use, de não aceitar a fusão pretendida pela Feesp, causou entre os diretores da Federação um mal estar indiscutível. O sentimento de perda do poder ecoou na classe dirigente da instituição com tal intensidade que decidiram dar uma resposta à Use, na forma de aprovação, para a própria Federação, do Estatuto preparado para a nova Feesp que surgiria da fusão. Isto só fez os useanos sentirem-se mais fortes e seguros ante a decisão que haviam tomado.

Assim, a Feesp prosseguiu, agora com mais liberdade, filiando e atendendo os centros espíritas, dentro de suas características paternalistas, com as quais leva a todos, os cursos, os passes padronizados, palestrantes e orientações diversas. A Use seguiu o seu caminho, livre do apoio material da Feesp e sem o compromisso da fusão. A nova situação obrigou-lhe a partir para a superação de dificuldades que até então não a preocupavam. A necessidade de uma sede própria surgiu como meta impostergável, o que lhe tomaria alguns anos de luta, até finalmente consegui-la. E assim ela vive, nos tempos atuais.

O “Pacto Áureo” e suas conseqüências

A fundação da Use, em São Paulo, em 1947, inicialmente não foi bem vista pela Federação Espírita Brasileira. Tanto é isso verdade que o representante de São Paulo junto a ela era na ocasião a União Federativa, que assim continuou por algum tempo, mesmo tendo sido criada a Use. Somente a força irresistível dos fatos levaria a Federação, mais tarde, a aceitar a Use. Havia, na verdade, entre os espíritas paulistas e cariocas uma animosidade semelhante à que preponderava nos aspectos regionais. Como dissemos atrás, após vencer as resistências em 1926, com o advento da Constituinte Espírita, entrou a Federação em novo período de hibernação com relação aos seus deveres perante o movimento de unificação. Em 1949, essa situação estava insustentável, pois de todos os lados surgiam as reclamações contra a Federação.

O movimento que deu origem à Use espalhou-se por várias partes do país. São Paulo, como Estado-nação, já era visto como uma grande locomotiva. As dissensões São Paulo/Rio influíam, de alguma forma, nos espíritas de ambos os Estados. Ademais, historicamente, São Paulo sempre foi o estado mais próximo do sentimento racional, confrontando com o sentimento exageradamente místico dos espíritas cariocas. Roustaing, em São Paulo, era mal visto e encontrava, constantemente, um obstinado crítico. Em 1949, essa dura tarefa cabia ao professor Júlio Abreu Filho, o responsável pela tradução da Revista Espírita para o português. Júlio não só criticava a aceitação e imposição de Roustaing pela Federação, como também as atitudes de seus diretores no tocante às edições de obras espíritas. Neste clima, a Use organizou e realizou dois anos após a sua fundação o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, com a seguinte justificativa: “A situação do Espiritismo em São Paulo”, ante o aparecimento da União Social Espírita, se bem que em escala reduzida e atenuada, refletia o que se passava em todo o País. E foi analisando estes aspectos e meditando sobre suas ruinosas conseqüências que se resolveu, sem mais delongas, iniciar o urgente trabalho da unificação.

Três eram os objetivos do congresso, todos demonstrando a ineficácia da atuação da Federação: 1- a unificação do Espiritismo nos estados. Planos de execução. 2- A unificação do Espiritismo nacional. Sistema a adotar. 3- Estudo dos problemas de interesse fundamental e urgente para a marcha do movimento espírita nacional.

A Federação não só esteve ausente do congresso como também desenvolveu intenso trabalho para desestimular a presença dos representantes das federativas estaduais. Conseguiu-o em parte, pois várias daquelas que inicialmente se comprometeram a participar acabaram desistindo. Isto, porém, não diminuiu em muito o evento. A Federação do Rio Grande do Sul, por exemplo, apresentou proposta de criação de uma Confederação Espírita Brasileira, que assumiria o papel Federativo Nacional, que a Federação teimava em não realizar.

O Congresso terminou por aprovar que a Federação do Rio Grande do Sul desenvolveria esforços para a criação de uma entidade federativa social e patrimonialmente autônoma. Para tanto, contaria todas as federativas estaduais e apontaria os caminhos. A Federação Espírita Brasileira agiu imediatamente, sob o argumento de ser a Casa Máter do Espiritismo, escolhida por Ismael. E mais uma vez, sozinha, derrotou a coletividade. Espíritas de diversos estados, ainda em 1949, estando no Rio de Janeiro, assinaram um documento denominado “Pacto Áureo”, em que a Federação se propunha a realizar o trabalho de unificação, dinamizando o Conselho Federativo, criado em 1926 mas adormecido desde então. O congresso de unificação de São Paulo estava, pois, morto.

O Pacto Áureo foi recebido com profundas desconfianças por muitos espíritas de São Paulo.

Herculano, um dos seus críticos, chamou-o de pacto aéreo, apoiado por dezenas de outros adeptos. A Federação Espírita Brasileira, porém, silenciando-se publicamente, mas agindo sempre com eficácia nos bastidores, mais um vez manteve sob seu domínio o poder. Ainda hoje, o Espiritismo brasileiro, em termos de organização administrativa, está sob o poder da Federação. O Conselho Federativo é um apêndice dela. Acima dele está o Conselho da Federação, constituído de seus sócios individualmente, o qual pode, a qualquer momento, tomar atitudes contrárias aos interesses dos representantes das federativas que ali se reúnem.

Estaria a situação em nossos dias melhor do que no passado?

Resumindo, a situação do movimento espírita brasileiro, atualmente, é mais ou menos esta: as federativas estaduais ainda estão longe de realizarem o ideal da unificação. Os centros espíritas, de uma forma geral, ainda vivem entregues a si mesmos. Algumas federativas, em virtude da adoção de certos princípios discutíveis, não têm força moral suficiente para comandar o trabalho. Por outro lado, as divisões em vários estados enfraquecem o movimento local. Em São Paulo, Pernambuco, Rio de Janeiro e Ceará existem mais de uma entidade federativa, o que provoca confrontos ideológicos perturbadores do movimento.

A luta pela sobrevivência ainda existe em algumas federativas, prejudicando o trabalho do movimento. Em outras, a falta de uma visão profunda do movimento e o desconhecimento da realidade dos centros espíritas as impede de trabalharem como deveriam.

Em São Paulo, a Use se constitui hoje como um verdadeiro monumento a ser preservado, tanto pela sua filosofia quanto pelo exemplo que representa de entidade criada pelos e para os centros espíritas.

A Use não possui sócios individuais, somente coletivos, o que a diferencia de todas as demais federativas.

Não se quer dizer que a Use seja um primor de entidade, nem que ela não possua as suas deficiências.

Ela as possui e deve por isto ser estimulada a melhorar sempre. Por ser o Estado de São Paulo o que maior quantidade de centros possui, é crível acreditar que boa parte deles não têm apoio e a consciência que precisariam ter, existindo até os que desconhecem a existência da Use.

O trabalho da Feesp é conhecido apenas na capital. Ainda assim, é ineficaz e se desenvolve estritamente ao nível do paternalismo. A Federação ainda não perdeu as esperanças de domínio do poder. Ela desenvolve gestões atualmente, embora sem o declarar, à procura de conseguir um lugar no Conselho Federativo Nacional. Sua atividade paralela à da Use enfraquece o movimento estadual.

Na ponta de tudo está o centro espírita, unidade do movimento, que poderia ser melhor apoiado.

A Use não surgiu com o sentido paternalista que vigora na base da cultura brasileira. Seus diretores não são eleitos para levar soluções aos centros espíritas, mas para administrar o desejo e as necessidades coletivas. Este é o seu maior desafio, uma vez que coexistem no movimento, centros espíritas ainda hoje em maioria, dependentes das ações desenvolvidas pelas chamadas autoridades máximas, e outros, em menor escala, cujos dirigentes alcançaram a consciência da filosofia que estabelece: “A Use somos todos nós”.

Bibliografia

  • Anais do 1º. Congresso Espírita do Estado de São Paulo, 1947 * Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, 1948
  • Livro do Centenário, 1906
  • Livro do Conselho Federativo, 1926
  • Bezerra de Menezes, por Canuto de Abreu
  • Coleção da Revista Espírita
  • Revista Alvorada de uma Nova Era
  • Os Intelectuais e o Espiritismo, Ubiratan Machado
  • Coleção da Verdade e Luz, segunda época
  • Coleção da Revista de Metapsíquica
  • Documentos diversos

O legado documental de Allan Kardec: queimado, escondido ou leiloado?

 

Dito assim, soa a blasfémia. Mas onde está, o que terá sofrido ou de que modo foi alienado o preciosíssimo legado documental que reunia todos os escritos, cadernos com comunicações mediúnicas, publicações, correspondências, registos e outros vestígios do prodigioso e hercúleo trabalho feito pelo abnegado professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido pelo seu pseudónimo: Allan Kardec?…

É disso que tratam os textos abaixo publicados, sendo elementos principais os artigos de investigação e questionamento histórico da autoria do professor João Donha da cidade de Curitiba, estado do Paraná, no Brasil.

 


As considerações de abertura feitas a seguir são da responsabilidade do autor deste blogue:

No pequeno colectivo familiar de que faço parte temos dedicado o melhor dos nossos últimos tempos a ler, directamente do francês, algumas das obras que o nosso muito estimado professor Hipólito Rivail publicou sob o pseudónimo de Allan Kardec.
Para o trazermos para junto de nós, ou para nos transportarmos até junto dele, fizemos um mínimo esforço indispensável para rememorar a História de França, na turbulenta passagem do “ancien régime” aristocraticamente absolutista, decadente e sanguinário, para situações sociais e humanas infelizmente pouco compatíveis com o almejado horizonte de “liberdade, igualdade e fraternidade”, tal como sonharam os cidadãos que fizeram, com dores de muito sofrimento, a “grande revolução”.

Uma das coisas que mais nos doeu nas conclusões que atingimos, foi verificar ter sido Hipólito Rivail um homem praticamente só, a braços com uma tarefa ciclópica.
Empreendeu o seu trabalho já numa idade avançada, com a tremenda falta de meios técnicos, que as pessoas dos dia de hoje mal podem imaginar. Num tempo de violentos contrastes e injustiças, sob o peso esmagador de conceitos religiosos dogmáticos de sentido totalitarista, sombrio e infernal.

Em 1854 o céptico e positivista Hipólito Rivail ouviu, pela primeira vez, o seu amigo Fortier falar-lhe nas mesas girantes. Em 1857 publicou a primeira edição de “O Livro dos Espíritos” e, tendo cumprido integralmente o destino que assumiu, apenas escassos doze anos depois faleceu, completamente exausto.

A história que assim tão brevemente se descreve tem a ver com as interessantíssimas informações abaixo apresentadas nos trechos do professor João Donha, que confirmam de modo inequívoco as conclusões que tirámos da leitura sossegada e da íntima convivência que tivemos o distinto prazer de estabelecer com Hipólito Rivail.
Isto, evidentemente, quanto à falta de solidariedades activas e atitudes organizadas de seguidores atentos que quisessem e pudessem ter salvaguardado, de modo digno e conveniente para todo o entendimento futuro, o verdadeiro teor das intenções e ensinamentos cientifica e filosoficamente tão bem sistematizados por Hipólito Rivail.

Tal circunstância não derivava de nenhuma vocação isolacionista; era a sua própria índole de pessoa sem pretensões de poder, que não recomendava federações nem agremiações de elevado número de adeptos, porque via nesse modelo de associação a raiz o mal, a semente daninha do poder.

Hipólito Rivail, a pessoa íntegra que lutou tudo enquanto pode, não quis fazer-se dono de nada. Nunca foi cabeça de cartaz em comícios, nem convocou concílios, nem se fez fotografar ao lado de poderosos!…

As poucas, muito poucas fotografias que restaram de Hipólito Rivail, mostram-no mais do que apenas sério e compenetrado. Hipólito Rivail revelava nessas imagens o olhar recolhido e receoso de quem teme pelo grande tesouro que lhe coube acautelar com zelo e decisão.
Onde está, ao fim e ao resto, toda documentação preciosa resultante do trabalho acumulado por Hipólito Rivail?

A primeira dramática conclusão que temos diante de nós, é de que foi, à partida, desprezada pelos próprios franceses, num país que é justamente considerado uma das vanguardas culturais e humanistas da velha e contraditória Europa!…
Depois disso, independentemente dos vários enredos incertos, uma coisa é real: a preciosa documentação dorme em esconderijos onde não há quem os estude e muito menos quem queira revelar às claras, de forma honesta e válida, o seu conteúdo, os valores de que é portadora.

Já que nada mais nos resta, não nos constituamos cúmplices desse mau cuidado e desse desprezo pelos valores mais insignes. Ainda ficou muito, muitíssimo, do generoso trabalho de Hipólito Rivail.
Vamos tentar chegar até junto dele. Ou façamos, com delicada atenção, que venha sentar-se a nosso lado.


Mãos à obra, amigos, mãos e mentes à obra!…


O blogue “João Donha – Espiritismo” é daqueles que vale a pena ler de uma ponta à outra, porque não nos diz o mesmo que muitos outros, nem o diz da mesma forma.
Pedimos desculpa do extenso preâmbulo acima, que serviu unicamente para contextualizar no domínio das nossas próprias indagações, realidades quase confidenciais, embora muito significativas. Ora vejamos :

passage saint anne
Esta imagem é interessante por dois motivos. Mostra-nos a entrada da “Passage de Sainte Anne”, à frente da qual pode ver-se o professor João Donha, autor da parte essencial deste trabalho. Foi para aqui que o casal Rivail (Rue de Sainte-Anne nº 59) se mudou em 1860, e onde residiu e tão intensamente trabalhou nos últimos 9 anos de vida de Hipólito Rivail. Foi aqui que se situou inicialmente o escritório da “Revue Spirite” e onde foram escritas as obras espíritas essenciais de Allan Kardec.

EM BUSCA DO SANTO GRAAL


 Primeiro artigo publicado por João Donha em 7 de dezembro de 2012

“Essa espontânea concentração de forças dispersas deu lugar a uma amplíssima correspondência, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se reflectem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações, os desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas através de documentos autênticos. Em presença desses testemunhos inexpugnáveis, a que se reduzirão, com o tempo, todas as falsas alegações da inveja e do ciúme?…”
(Allan Kardec; G, I, 52, N.1).

Onde está essa “amplíssima correspondência”? Onde foram parar esses “arquivos preciosos” de “documentos autênticos” com os quais a posteridade poderia “julgar os homens”?
Os documentos históricos do espiritismo sofreram as consequências de terem sido, os negócios da doutrina, tratados sempre como algo de família, constituindo heranças e, consequentemente, dependendo de herdeiros.

Kardec pretendia criar uma sociedade impessoal, mas não deu tempo. Morreu antes de concretizar seus planos e, tudo o que era do espiritismo (sociedade, obras, revista, documentos) tornaram-se a herança de sua esposa, Amelie Boudet.
De início, ela disse que ia tudo gerir; mas, talvez pela idade ou a solidão, acabou por entregar tudo nas mãos do Pierre-Gaëtan Leymarie, que criou uma tal “Sociedade para continuar a obra de Allan Kardec”.

Após a morte da herdeira, Amélie, em 1883, e como único remanescente da tal sociedade, Leymarie tornou-se o dono absoluto dos documentos de Kardec.
Uma parte, ele foi publicando na “Revue Spirite”, e acabou por usar em “Obras Póstumas”; outra parte, segundo uma lenda, ele teria enviado para a FEB, onde se encontra sepultado num cofre-forte.
É bom lembrar que Leymarie tinha muita afinidade com o Brasil, particularmente no Rio; ele esteve exilado aqui em 1851, quando houve o golpe do Luís Napoleão. Ademais, nunca escondeu amizades e afinidades roustainguistas.

O que sobrou na França foi herdado (novamente em família!) pelo filho dele, o Paul Leymarie.
Este, após um breve intervalo de três anos em que os negócios ficaram com sua mãe Marina, tornou-se, em 1904, dono absoluto dos destinos do espiritismo até 1914, quando, em função da I Guerra Mundial, desistiu. O que não foi de todo mal, pois o Paul Leymarie vendia até bolas de cristal pela Revue.

Antes mesmo de terminar a I Guerra, em 1916, um rico empresário francês, o Jean Meyer, assumiu o movimento órfão (Léon Denis e Gabriel Delanne eram sumidades intelectuais; eram referências; mas alguém tinha que cuidar dos negócios). As pessoas malvadas, como eu, imaginamos o Meyer compensando regiamente o Paul.

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Meyer criou a Casa dos Espíritas (“Maison des Spirites”, na imagem acima), para onde levou os documentos e objetos pessoais de Kardec.
Este mesmo mecenas fundou o “Instituto de Metapsíquica”, sob o comando inicial do Gustave Geley, e onde foi gerado o “Tratado de Metapsíquica”, no qual Charles Richet diz que o “espiritismo é inimigo da ciência”.
Jean Meyer foi o dono do movimento até sua morte em 1931. Foi ele quem inaugurou a vocação assistencialista do espiritismo. Bem, até aí os jacobinos; a partir daí, os xenófobos.

Assume Hubert Forestier, e torna-se tão particularmente dono que, em 1968, chega a registrar a Revue em seu nome no órgão de propriedade industrial. Morre em 1971, deixando um movimento mais que anêmico, agonizante mesmo.
Seus herdeiros, não sabendo o que fazer de tal herança, vendem tudo por um franco para o André Dumas. A essa altura os direitos autorais das obras de Kardec já tinham caducado. O resto – muito pouco: o nome da Revue e da Societé – ficou nas mãos do Dumas.
André Dumas, seja por ter mudado suas preferências filosóficas, seja por constatar que o status de espírita não conferia mais prestigio, resolveu liquidar tudo: em 1975, mudou o nome da “Revue Spirite” para “Renaitre 2000”, e a Societé para uma tal “sociedade para pesquisa da consciência e sobrevivência”, colocando, dessa forma, duas ou três pás de cal sobre o “espiritismo francês”.

Dizem que os brasileiros tentaram recuperar o nome da Revue Spirite,uma vez que o cidadão não pretendia mais publicá-la, mas o Dumas não aceitou. Alegou que o movimento no Brasil se desviara para o religiosismo e não abriu mão.
Paralelamente, surge na França o Jacques Peccatte dizendo que o próprio Kardec se comunicou no grupo dele, o “Cercle Spirite Allan Kardec”, em 1977, e o mandou ressuscitar o movimento. Ele o tenta até hoje.
Mas, pelo lado digamos, oficial, o Roger Perez, retornando das desativadas colônias, resolveu, certamente com o patrocínio da FEB, retomar as coisas.
Conseguiu reaver do André Dumas, na justiça, o nome da Revue, e passou a editá-la pela “Federação Espírita Francesa e Francófona” (já extinta), da qual foi fundador. Ali pelo ano 2000 passou os direitos para o CEI – Conselho Espírita Internacional.

E os documentos de Kardec, suficientes para comprovar ou desmentir o famoso “controle universal” num julgamento pela posteridade, não deveriam acompanhar toda essa trajetória de mandos e poderes, acondicionados num majestoso baú?
Deveriam, mas o baú transformou-se num “cálice sagrado”, num Santo Graal, ou seja, numa lenda.
Conta Wallace Leal que quando tentava aproximação com Hubert Forestier (aquele que foi dono de 1931 a 1971) para saber dos documentos, ele respondia friamente que a “Maison des Spirites” tinha sido “pillée” (pilhada) pelos alemães.
Dizem que os papéis de Kardec foram queimados para aquecer os soldados alemães, aquartelados na “Casa dos Espíritas”, por uns quatro invernos, os mais rigorosos do século.

Mas, existe outra saga…

Em 1939, Canuto Abreu seria um adido na embaixada brasileira em Paris, quando foi procurado por algumas pessoas que se diziam a mando dos espíritos – que por certo realizaram escutas espirituais no gabinete do Hitler e souberam da iminente invasão alemã à Cidade Luz – e lhe entregaram valiosos documentos de Kardec, para que ele os salvasse trazendo para o Brasil.
Para que não se fuja à regra lendária, tais documentos, “salvos dos alemães”, acabaram transformando-se numa herança, ora sepultada em mãos dos descendentes do Canuto.

Assim, a lenda divide os famosos documentos tão cuidadosamente arquivados e citados por Kardec em três conjuntos:

  • um nos porões da FEB;
  • outro com os herdeiros do Canuto;
  • e, o que ficou na França, queimado como combustível pelos nazistas.
  • Consideremos perdido este último lote.
  • O que está em poder da FEB, segundo a lenda, foi-lhe dado pelo Leymarie, na época legítimo proprietário dos mesmos, legitimando, dessa forma, sua apropriação por essa entidade.
  • Mas, e o lote em poder dos descendentes do Canuto? Ao Wallace, Forestier teria dito que foram “pilhados”, sem se referir à história do Canuto. Teriam, aquelas misteriosas figuras, entregue ao Canuto sem o conhecimento do Forestier, seu proprietário no momento? Não teria havido, assim, uma apropriação indébita?

Por outro lado, considerando as simpatias do governo brasileiro por Hitler – o que só mudaria com as mudanças no rumo da guerra, lá por 1942 – e os agrados despendidos pelas grandes potências no jogo político internacional, se um adido da embaixada brasileira em Paris se dirigisse à autoridade militar alemã, invasora, e solicitasse permissão para “retirar alguns documentos daquela “Maison des Spirites” que seus soldados ocuparam”, seria prontamente atendido. Daí, a “pilhagem” não teria sido feita propriamente pelos nazistas.

Mas, e as datas?…

Os tais “ET’s” teriam aparecido em 1939, e a invasão alemã ocorreu em Junho de 1940. Bem, se esta for uma história dispersiva surgida duas ou três décadas após o ocorrido, um deslocamento de seis meses é bastante viável.
Neste caso – e considerando-se a moda atual de buscarem, os países, nos foros internacionais, documentos, relíquias e artefatos arqueológicos que lhes foram pilhados durantes séculos de guerras e colonizações – o que poderia acontecer se o Roger Perez, ou o Estado Francês – ou mesmo um franco-atirador – se dessem conta de que importantes documentos franceses, pilhados durante a ocupação alemã, se encontram escondidos em São Paulo?

Porque, se esta historia for verdadeira – e, não, apenas uma lenda, como parece ser – há uma diferença em relação às cartas de Kardec que temos visto em leilões.

Uma carta, uma vez enviada e recebida, passa a integrar o acervo do destinatário. Portanto, se o Freud tivesse escrito uma carta à minha bisavó, e agora ela me coubesse por herança, eu faria dela o que quisesse.

Enfim, como em toda lenda, aqui há mais perguntas que respostas.


CURIOSIDADE HISTÓRICA – Os atentados aos documentos de Kardec.



Segundo artigo publicado por João Donha em 7 de Fevereiro de 2014

“Nossa expectativa não foi em vão, e a circulação foi precariamente restabelecida; os Correios ainda estão desorganizados, mas as cartas chegam de todas as partes ao nosso escritório na Rue de Lille, salvo das chamas pela vigilância inquieta de um espírita, o Senhor X., tenente de embarcação.
Diga-se de passagem que o Senhor X., ocupando a área com os seus marinheiros, frustrou, por meio de um monitoramento constante, duas tentativas de incêndio contra o que ainda restava da Rue de Lille, o que teria por resultado condenar à aniquilação o que foi possível salvar desse maravilhoso ‘quartier’.
Estamos felizes em fazer, nesta circunstância, junto ao Senhor X., eco aos agradecimentos do mundo espírita europeu pelo papel que ele desempenhou no salvamento dos nossos documentos.”

Quem já leu os percalços pelos quais passaram os documentos de Kardec no texto “Em busca do Santo Graal”, pode acrescentar mais este aí, relatado pelo Desliens na Revista Espírita de Julho de 1871.

Em 19 de Julho de 1870, cerca de quinze meses após o decesso de Kardec, o Imperador Napoleão III, provocado por Bismarck, declarou guerra à Prússia.
A batalha decisiva ocorreu em 2 de Setembro, quando os franceses foram derrotados e o Imperador aprisionado pelos prussianos.
Mas Bismarck estendeu a guerra até o final de Janeiro do ano próximo com o fim de enfraquecer bastante a França e ficar em definitivo com a Alsácia-Lorena.
Os alemães só deixarão a França em 1873, cobrando pesadas compensações de guerra (“Levando nossas riquezas, a Prússia leva uma parte dos nossos vícios; pois ao ficarmos menos ricos, por certo ficaremos mais virtuosos”, diz uma das cartas recebidas pela Revue).
Em 8 de Fevereiro de 1871, a recém-instalada III República realiza eleições para a Assembléia Nacional.
O interior vota nos conservadores e enrustidos monarquistas;
Paris, vota nos socialistas, anarquistas, liberais e republicanos autênticos.
O líder da assembléia, Thiers, instala o governo em Bordéus, depois em Versalhes.
A cidade luz se revolta: é instalada a Comuna de Paris.
Thiers tenta, em 18 de Março, tomar os canhões da Guarda Nacional; o povo reage e fuzila os generais.
Então, Bismarck liberta e arma os cem mil prisioneiros de guerra para que se unam ao pequeno exército de Thiers e reprimam a Comuna.
O cerco se inicia em 21 de Maio.
Dada a superioridade dos conservadores, a população provoca incêndios na tentativa de conter os soldados. Paris em chamas! É a “semana sangrenta”, que dura até 28 de maio, quando a Comuna se extingue em meio a vinte mil mortos e dez mil prisioneiros ou exilados.
O último reduto caiu em Menilmontant, próximo à porta por onde eu e minha esposa entramos no Père Lachaise quando lá estivemos.

É interessante como os preciosos arquivos, com os quais “a posteridade poderia julgar os homens”, correm o risco de extinção desde o começo de sua existência.
Terá valido a pena, o arriscado esforço do valoroso marinheiro espírita e seus comandados, dando uma sobrevida a este “quadro único da história do espiritismo moderno”?
Dizem que alguns anos depois, Leymarie, então todo-poderoso gerente do espólio kardeciano, enviou vários desses documentos aos seus amigos do Brasil.
O restante do acervo foi novamente ameaçado quando seu filho, assustado com uma “reentrée” dos canhões germânicos e franceses ameaçou abandoná-los à própria sorte.
Foram salvos, desta vez, pelo Jean Meyer, que os recolheu na Maison des Spirites, onde distribuíram suas luzes por um quarto de século, até a Maison virar quartel de tropas, novamente germânicas, e serem pilhados e sepultados impunemente nos porões dos descendentes de quem os retirou de seu devido lugar.
Seria a força do destino tentando se contrapor à força das coisas?

 


A respeito do autor:

JD 02

 

 

 

 

 

 

 

 


JOÃO DONHA

de Curitiba, Paraná, BRASIL
apresentação redigida pelo próprio e vista no seu perfil Blogger
(clicar para ter acesso)

  • Ex-professor eventual de português e história; ex-quase-escritor; ex-funcionário estatal;…
  • Algumas publicações infanto-juvenis; artigos e poesias em diversos periódicos.
    E… nada a “completar”… a não ser o exercício atual de duas profissões não regulamentadas (graças a Deus):
  • a de “fiscal da natureza”, exercida na rive gauche do rio Cachoeira, e a de “palpiteiro contumaz”, que pode ser verificada aqui no blog.

PUBLICAÇÕES:


“Os Gatos de Angaetama” (1979, CooEditora;1985, Criar; 1995, HDLivros).
“Pelos Outros, Pela Gente” (1980, CooEditora).
“O Lambari Comilão” (1985, Criar). “Brás Brasileiro” (1986, HDV). “Espaço Agrário” (1980, Vozes). “Os Desconhecidos” (1979, Beija-Flor).

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